Histórias que florescem em todas as estações

Relatos de educadoras que mostram que ensinar também é acreditar


Setembro chega com a primavera e, com ela, o convite à renovação. Mas, nesta série memorável, as histórias continuam florescendo em todas as estações.  A cada novo relato, encontramos educadores que transformam desafios em possibilidades e fazem da educação um caminho de superação, força e esperança. Na edição Especial 40 anos Appai de setembro, mais histórias chegam para nos lembrar que ensinar também é acreditar, reconhecer e inspirar. Porque as estações mudam, mas as histórias que transformam permanecem.



O professor que converte presença em oportunidade de aprendizagem

Para Thaísa Fortes, ser educadora vai muito além da transmissão de conteúdos. Pedagoga e especialista em Gestão Escolar, ela atua na Educação Básica das redes pública e privada em Duque de Caxias e São João de Meriti, na Baixada Fluminense, acreditando que ensinar também significa criar oportunidades para que cada estudante desenvolva seu potencial.

Foi a partir da observação do cotidiano escolar que Thaísa identificou um desafio que interfere diretamente nesse processo. “A baixa assiduidade tem sido um desafio para a aprendizagem”, explica. As ausências frequentes, segundo ela, “comprometem a continuidade do processo de ensino, dificultam a consolidação das aprendizagens e impactam diretamente o desenvolvimento dos alunos”.

Diante dessa realidade, a educadora decidiu transformar uma preocupação em uma estratégia de incentivo à permanência escolar. Assim nasceu o projeto Campeões da Frequência, iniciativa que reconhece mensalmente os estudantes que alcançam 100% de presença nas aulas.

Mais do que uma premiação, o projeto procura valorizar atitudes que contribuem para o percurso escolar. Os alunos recebem um certificado como forma de reconhecimento pelo esforço, dedicação e responsabilidade. Para Thaísa, a iniciativa também ajuda a despertar “o sentimento de pertencimento, incentivar hábitos de compromisso e envolver as famílias na importância da presença diária na escola”.

Os resultados começaram a aparecer no cotidiano. A educadora percebeu um aumento da motivação dos estudantes para frequentar as aulas e uma maior conscientização das famílias sobre a importância da assiduidade para a aprendizagem. Aos poucos, o reconhecimento também passou a fazer parte da cultura da escola.

“E a cada mês observo mais alunos recebendo a premiação, alguns estão até colecionando”, conta Thaísa, revelando que aquilo que começou como uma estratégia de incentivo ganhou um significado especial entre os estudantes.

A experiência mostra que pequenas ações podem produzir mudanças importantes quando dialogam com as necessidades reais da escola. Ao reconhecer a presença, Thaísa também reconhece o esforço de cada aluno em permanecer, participar e seguir aprendendo.

Sua missão como educadora resume esse propósito. “Transformar vidas por meio de uma educação que acolhe, reconhece, inspira e valoriza cada passo do percurso de aprendizagem de seus estudantes”.

 

O professor que transforma pelo afeto e pela cultura

Há cerca de 18 anos, Léo Machado entrou para a sala de aula. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro, atualmente leciona para turmas do terceiro ano no Ginásio Escola Tecnológica Osmar Paiva Camelo, no Complexo da Maré. Nesse percurso, porém, não foi apenas o conhecimento dos alunos que mudou. Ele também se transformou como educador.

“Entrei na sala de aula com uma visão rígida de disciplina e controle e, com o tempo, a própria prática me ensinou que ensinar exige escuta, sensibilidade e afeto”, conta. A mudança ganhou ainda mais força quando passou a trabalhar com os anos iniciais. Foi nesse contato que compreendeu que “o vínculo é um dos principais caminhos para a aprendizagem”.

A escuta também abriu espaço para outra inquietação que acompanha sua trajetória. Léo sempre se incomodou com o apagamento da cultura brasileira no ambiente escolar. O folclore, muitas vezes associado apenas às datas comemorativas, passou a ser visto por ele como uma possibilidade de resgate, identidade e pertencimento.

“Meu trabalho não se limita a contar lendas, mas a recuperar narrativas, símbolos e saberes que ajudam crianças e educadores a reconhecerem valor na própria cultura”, explica. A partir de lendas, contos e mitos brasileiros, o professor desenvolve atividades que incluem alfabetização, escrita, imaginação e pensamento crítico.

Essa relação com a cultura brasileira nasceu ainda na infância e adolescência, vividas em Serra dos Carajás, no Pará. Foi lá que Léo teve contato direto com narrativas indígenas contadas por representantes dos povos originários. Uma experiência que, anos depois, encontrou lugar em sua prática docente.

Durante a pandemia, o desejo de ampliar esse trabalho ganhou as redes sociais. Léo passou a produzir conteúdos educativos sobre folclore, alcançando educadores e outros públicos que até então não tinham contato com o tema. A iniciativa abriu novas possibilidades e o levou a integrar o Rio Educa na TV, com vídeos exibidos pela Band 7.2 e atualmente disponíveis na MultiRio, canal da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Mais recentemente, o professor encontrou outra forma de dialogar com alunos, ex-alunos e colegas de profissão. Criou um perfil de humor educativo e passou a utilizar o riso como uma ponte para a reflexão. Ao olhar para essa trajetória, Léo reconhece que a aprendizagem não acontece apenas pela transmissão de conteúdos. Ela também se constrói nas relações. “Aprendi que o caminho da aprendizagem passa pelo afeto. Afetar positivamente é também um ato de resistência cultural”.

 

A professora que transformou a própria história em inspiração

Aos sete anos, Lídia Barnabé da Silva descobriu na escola muito mais do que um lugar para aprender. Encontrou ali um sonho. Filha de uma família muito pobre, ela conheceu desde cedo as dificuldades de quem precisava lutar pelo básico, mas também descobriu na educação um caminho que não estava disposta a abandonar.

“Houve dias em que nós não tínhamos o que comer; almoçávamos e jantávamos banana com sal”, relembra. Quando queria um lanche, ela e a irmã mais nova mergulhavam na cachoeira para pegar as chamadas “baratas doces” que caíam dos sacos dos agricultores.

Foi quando entrou na escola pela primeira vez que nasceu o desejo de ser professora. “Cada ensinamento, cada palavra compartilhada em sala de aula despertava em mim admiração e emoção”. Tão encantada com aquele universo, Lídia conta que “parecia estar na Disneylândia”.

A escola também significava alimento. Muitas vezes, a menina encontrava um lugar escondido para guardar um pouco da comida recebida e levar para a irmã. Mesmo diante das dificuldades, tinha facilidade para aprender e nunca foi reprovada.

Mas, ao chegar à quarta série do ensino primário, surgiu um obstáculo que poderia interromper aquele sonho. Sua mãe decidiu que ela não continuaria estudando. “Este ano é o ano de Lídia passar para casa”, dizia, já que a família vivia em um lugar sem energia elétrica, banheiro ou transporte público.

Lídia, porém, decidiu que não aceitaria aquele destino. Para continuar na escola, chegou a pensar em fazer a prova toda errada. A estratégia chamou a atenção da professora, que quis saber o motivo. Ao ouvir sua história, a educadora decidiu ajudá-la. Conversou com o pai e pediu ao irmão de Lídia, que morava próximo a uma escola particular, que a acolhesse para que pudesse continuar os estudos.

Mais uma vez, Lídia sentiu que estava realizando um sonho. “Fiquei muito feliz; parecia que eu estava no céu estudando em uma escola particular”. A alegria, entretanto, durou pouco. Durante as férias de julho, voltou para a casa dos pais e, enquanto aguardava o retorno à escola, recebeu a notícia da morte do irmão. Sem poder continuar morando com a cunhada, precisou interromper os estudos e passou quatro anos longe da escola.

O sonho, porém, permaneceu. A oportunidade de retornar surgiu quando começou a trabalhar como babá na casa de professores. Mesmo recebendo pouco, seu patrão a colocou na escola particular onde trabalhava. Quando chegou o momento de realizar o estágio obrigatório, precisou deixar o emprego e voltar para casa. Trabalhou durante as férias para comprar o material escolar e contou com a ajuda das irmãs, que também trabalhavam em casas de família.

Até que chegou o momento mais esperado. “Então chegou o dia da formatura. Um dia inesquecível. Tornei-me professora”. A menina que precisou lutar para permanecer na escola conquistou o quarto lugar em um concurso público. Mais tarde, tornou-se pedagoga e foi a primeira pessoa de sua família a concluir o ensino superior.

A trajetória de Lídia carrega uma dessas voltas que só a vida é capaz de escrever. A menina que um dia escondia comida em um saquinho para levar para a irmã cresceu, venceu obstáculos e passou a alimentar sonhos por meio da educação.

“Hoje, sei que minha missão é transformar vidas por meio da educação, assim como a educação transformou a minha”. Uma história de persistência, encontros e oportunidades que mostra que, quando a educação encontra alguém disposto a não desistir, o sonho pode atravessar gerações.

 

A professora que encontrou força para recomeçar

Cuidar de quem educa também é cuidar da educação. Foi essa compreensão que Patricia Alves da Fonseca levou consigo depois de uma trajetória de 30 anos dedicada à área, entre a sala de aula e a gestão de uma escola de Educação Infantil. Uma história marcada por afeto, compromisso e, nos últimos anos, por um recomeço que exigiu dela três palavras que se tornaram pilares: força, fé e coragem.

A força foi construída ao longo de décadas de trabalho. Como professora e gestora, Patricia aprendeu a lidar com os desafios cotidianos sem abrir mão da sensibilidade e de práticas educativas pautadas no respeito e na humanização.

Em 2023, porém, sua trajetória profissional tomou um novo rumo. Patricia foi desligada da instituição onde havia construído vínculos profissionais e afetivos. “Embora tivesse a compreensão de que ciclos se encerram para que outros possam se iniciar, o impacto dessa ruptura foi profundo”.

A perda trouxe tristeza, vazio e desorientação. Vieram dias de silêncio e choro, em um período de profunda fragilidade emocional. Foi então que a fé se tornou um ponto de apoio para reconstruir e ressignificar a própria trajetória.

Nesse processo, Patricia também reconheceu que precisava cuidar de si. Buscou ajuda médica e descobriu a síndrome do pânico. O tratamento passou a envolver terapia, medicação, espiritualidade e o apoio da família. Aos poucos, ela começou a recuperar o equilíbrio, a serenidade e a força interior.

A educadora faz questão de registrar um agradecimento à Clínica RCM, que pôde consultar através da Appai, e à psicóloga Dra. Vêra Lúcia, que, segundo ela, esteve ao seu lado durante esse percurso, oferecendo apoio, orientação e incentivo. Foi a coragem, entretanto, que a levou a tomar uma nova decisão. Patricia escolheu não retornar à função de gestora e voltar para onde sua história havia começado: a sala de aula. As dúvidas apareceram. “Será que consigo me recolocar no mercado de trabalho? E se não der certo?”. Mesmo diante dos questionamentos, decidiu tentar.

Hoje, novamente em sala de aula, Patricia conta que sente “uma profunda felicidade em poder ensinar e aprender junto às crianças”. O retorno também trouxe uma nova compreensão sobre o cuidado com quem educa. Reconhecer a própria dor, permitir-se sentir e respeitar o próprio tempo foram passos importantes para que pudesse seguir em frente. Sua experiência tornou-se também uma mensagem para outros educadores que atravessam momentos de ruptura ou incerteza. “Se você for demitido de um espaço de tantos vínculos, permita-se reconhecer a queda sem se desanimar”.

E Patricia completa com a força de quem precisou recomeçar. “Levante-se, sacuda a poeira e dê a volta por cima, fortalecendo-se por dentro para seguir com fé, força e coragem”.

 


Por Antônia Figueiredo