Histórias que continuam inspirando
Relatos de educadores que mostram como a transformação nasce da persistência, do afeto e da coragem de recomeçar

A campanha “40 educadores que transformam vidas”, que integra as comemorações dos 40 anos da Appai, segue reunindo histórias que revelam a dimensão humana da educação. Nesta edição de julho, os relatos percorrem trajetórias marcadas por superação, acolhimento, memória e permanência. Professores que encontraram na escola não apenas uma profissão, mas um espaço de reconstrução, pertencimento e esperança.
São histórias que atravessam diferentes gerações e contextos, mas que se encontram em um mesmo ponto: a certeza de que educar vai muito além do conteúdo. Está no gesto que incentiva, na escuta que acolhe, no exemplo que inspira e na coragem de continuar acreditando que a educação ainda é capaz de transformar vidas. Boa leitura.
Memórias que continuam ensinando
A professora que encontrou na própria trajetória a inspiração para educar

Jovânia Henriques Guimarães da Silva carrega na memória as marcas de uma infância simples vivida em Itaocara, no interior fluminense. Hoje moradora de São Gonçalo e professora da Educação Infantil em Niterói, reconhece que sua relação com a escola começou muito antes da escolha pela profissão. “Para mim, estar na escola significava pertencimento”.
Criada pelos avós maternos ao lado do irmão, viveu uma infância marcada por dificuldades financeiras e pelo esforço constante da mãe para garantir dignidade aos filhos. “Minha mãe lavava roupas, fazia faxinas e cuidava de quintais para que não nos faltasse o básico”.
Foi aos cinco anos, ao ingressar no jardim de infância, que nasceu o encantamento pela escola. O ambiente escolar passou a representar acolhimento, descoberta e afeto. “Tenho lembranças muito vivas das histórias contadas, das músicas cantadas, dos amigos, da professora e até das filas para o refeitório”.
Entre tantas figuras importantes, uma professora marcou definitivamente sua trajetória. “Alba Bucker, minha alfabetizadora, foi decisiva para que eu começasse a desejar ser professora”. Mais do que ensinar letras e sílabas, a educadora oferecia escuta, sensibilidade e cuidado, experiências que Jovânia levaria para sua própria prática docente anos depois. “Ela me ensinou que educar também é acolher”, afirma.
Em 1993, concluiu simultaneamente a Formação de Professores e o curso Técnico em Contabilidade. Prestes a iniciar a carreira docente em Itaocara, precisou deixar a cidade por questões familiares e recomeçar a vida na capital. Durante 18 anos, trabalhou em uma rede de drogarias. Mesmo longe da escola, permaneceu ligada aos processos de formação e aprendizagem. “Foi nesse período que percebi que a educação acontece em muitos espaços”.
Depois de ser desligada da empresa, decidiu retomar o antigo sonho. Prestou concursos, ingressou no curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro por meio do Cederj e voltou à sala de aula, inicialmente na educação especial. “Eu sentia medo, porque minha formação docente tinha acontecido 25 anos antes. Mas também sentia que era hora de voltar”.
A caminhada seguiu entre estudos, novas experiências e descobertas na Educação Infantil, área em que encontrou identificação profunda. “Continuo construindo e desconstruindo quando necessário, sendo afetada e também afetando as pessoas que encontro no caminho”. Hoje, olhando para trás, Jovânia entende que cada etapa da sua história ajudou a construir a educadora que se tornou. E é justamente por isso que suas memórias continuam ensinando.
Um sonho que resistiu ao tempo
A professora que não desistiu da educação, mesmo diante das dificuldades

Jaqueline Moreira sonhava em ser professora desde a infância. Como tantas meninas, transformava bonecas e pelúcias em alunos durante as brincadeiras. Mas o caminho até a sala de aula foi atravessado por obstáculos que quase interromperam esse sonho. “Meu pai me proibiu de estudar aos 14 anos, depois que concluí a antiga oitava série”.
Homem simples e rígido, o pai acreditava estar protegendo a filha. Jaqueline passou um ano longe da escola, sem saber como retomaria os estudos. “Eu chorava e, em oração, pedia direção a Deus para realizar meu sonho sem criar um problema com meu pai”.
A resposta veio de forma inesperada. Em um ônibus, encontrou alguém que estudava no período da tarde no Colégio Estadual Arruda Negreiros, em Nova Iguaçu. A descoberta mudou tudo. “A alegria invadiu meu coração”, lembra.
O pai autorizou a matrícula e acompanhou a filha até a escola. Daquele momento em diante, começaram anos de esforço, trabalho e persistência. Jaqueline conciliou os estudos com o trabalho em casa de família e o estágio até concluir sua formação. “Perdi um ano, mas ganhei um admirador. Quando me formei, ele achou que eu era doutora. Foram muitas dificuldades enfrentadas, pois não tinha recursos. Trabalhava em casa de família, conciliando com os estudos e estágio. Lá se vão 38 anos. Claro que fiz minha graduação em Letras e Teologia”.
Hoje aposentada da rede municipal, segue atuando na rede estadual, no Colégio Professor Amazor Vieira Borges, também em Nova Iguaçu. Ao olhar para trás, reconhece na própria trajetória a força transformadora da educação. “Ainda acredito que a educação muda vidas, assim como mudou a minha”>
O frio na espinha ainda continua
O professor que encontrou na educação a oportunidade de recomeçar

João Gilberto da Silva guarda lembranças intensas da própria relação com a escola. A primeira delas, ainda aos seis anos, não foi das mais acolhedoras. “Lembro do portão fechando e minha mãe desaparecendo atrás dele”.
Mas foi também na escola que descobriu experiências que ampliariam seu mundo. Ainda adolescente, experimentou pela primeira vez um simples iogurte de morango, memória que permanece viva até hoje. “Menino pobre, a escola me apresentava as grandes novidades do mundo”.
Depois do Ensino Médio, a vida seguiu entre trabalhos braçais e biscates. Estudar e trabalhar era a única possibilidade. Mesmo assim, conseguiu ingressar em uma universidade federal. “Para surpresa de alguns”, relembra.
A caminhada, no entanto, esteve longe de ser linear. Viveu perdas financeiras profundas durante o Plano Collor, viu a empresa falir e precisou reconstruir a própria vida profissional. “Foi quando surgiu a oportunidade de ingressar no magistério”.
Entre muitas escolas, disciplinas e jornadas, concluiu pós-graduações, mestrado e doutorado. Mais tarde, ingressou no magistério federal, tornou-se diretor de campus e chegou à pró-reitoria de desenvolvimento institucional. “Eu vi de tudo: pandemia, lutas políticas, o lado bom e o ruim do serviço público”. Mas foi na sala de aula que decidiu permanecer.
“Em 2022 voltei para o meu campus, à minha origem. “Hoje, aos 65 anos, João Gilberto segue fazendo planos e reconhece na educação a base de tudo o que construiu. “Tudo o que tenho devo à educação. E mesmo depois de tantos caminhos percorridos, uma sensação continua intacta. Ainda sinto o frio na espinha do primeiro dia que pisei numa sala de aula”.
Amor que permaneceu na sala de aula
A professora que fez da superação uma forma de acolher e ensinar

Genaína Vieira Teixeira tem 45 anos, é professora da Educação Infantil na rede municipal de Itaboraí e carrega na própria trajetória marcas profundas de superação. Há 20 anos na educação pública, encontrou na sala de aula um espaço de reconstrução, afeto e propósito.
“Minha vida é alinhavada por superação”, diz. Mãe de Luiz Izaías, hoje com 24 anos, Genaína relembra a importância da mãe e da avó, Dona Iracy, em sua caminhada pessoal e profissional. “Minha mãe e minha avó foram minhas grandes incentivadoras”.
Atualmente trabalhando também na educação inclusiva, viveu, no último ano, uma experiência que reforçou ainda mais sua escolha pela docência. Foi professora de uma criança neurodivergente de apenas quatro anos. “Tive o privilégio de ser professora do Davi”.
Mais do que acompanhar o desenvolvimento do aluno, a experiência ampliou sua compreensão sobre escuta, sensibilidade e acolhimento dentro da Educação Infantil. “Eu amo o que faço e faço o que amo”. E é justamente nessa relação entre conhecimento, afeto e transformação que Genaína sustenta sua prática pedagógica. “Conhecimento gera consciência e consciência gera transformação”.
Por Antônia Figueiredo










