Histórias que renovam a esperança
Relatos de educadoras que mostram que ensinar também é acreditar

A campanha “40 educadores que transformam vidas” segue reunindo experiências que revelam a força da educação em diferentes contextos. Nesta edição, quatro professoras compartilham histórias marcadas pela alfabetização, pelo acolhimento, pela persistência e pelo recomeço. Relatos que mostram que, muitas vezes, a maior transformação acontece quando alguém acredita no potencial do outro e no próprio. Conheça histórias que inspiram e reafirmam que educar é, acima de tudo, um gesto de confiança no futuro.
Palavras que permaneceram
A professora que descobriu, no reencontro com seus alunos, forças para recomeçar

Elizabeth B. da Silva, de 49 anos, é professora, pedagoga, pós-graduada em Neuropsicopedagogia e Psicologia Clínica, fundadora do Curso Pense+ e, atualmente, atua na rede municipal do Rio de Janeiro. Desde a graduação, alimentava um desejo que carregava no coração.
“Fiz minha monografia sobre a EJA e sempre sonhei em trabalhar nessa modalidade”. A oportunidade surgiu em março de 2021, quando assumiu uma turma de Educação de Jovens e Adultos em um curso privado que mantinha parceria com uma associação de moradores do Complexo da Maré.
“Eu aceitei o desafio. Havia apenas uma semana que a Covid tinha levado minha mãe”. Mesmo vivendo o luto, encontrou na sala de aula um lugar de escuta e aprendizado. “Sempre fiz questão de ouvir meus alunos. Eles trazem muitos saberes das suas vivências, e essa troca entre professor e estudantes sempre me enriqueceu”.
Entre tantos rostos, um chamava sua atenção. Richard sentava-se sempre na primeira carteira e quase não falava. “Tinha um aluno muito calado. Mas, aos poucos, ele foi se abrindo”. Pouco tempo depois, Elizabeth enfrentou uma nova perda. A Covid levou também seu marido.
“Pedi uma semana de afastamento porque precisava recomeçar. Mas percebi que também necessitava dos meus alunos para encontrar forças”. Ela voltou. E seguiu acreditando que cada aula representava mais um passo na caminhada daqueles estudantes. “Via no olhar de cada um o desejo de concluir os estudos e mudar o rumo da própria história”.
No encerramento do curso, a resposta veio de forma inesperada. Durante a viagem de volta para casa, já no segundo ônibus rumo a Jacarepaguá, recebeu uma mensagem de Richard. “Professora, queria ter falado na aula, mas fiquei com vergonha. A senhora sabe como eu sou…”. Na mensagem, o aluno contou que nunca havia gostado da escola, mas que as aulas e as palavras de incentivo mudaram sua relação com os estudos.
“A senhora me fez gostar de estudar”. Richard sonhava cursar logística. Hoje está concluindo a faculdade. Para Elizabeth, não existe reconhecimento maior do que esse. “Acho que, como professora, esse é o melhor pagamento: saber que deixei marcas na vida de alguém”.
Uma caixa, muitas descobertas
A professora que fez da leitura um encontro entre escola e família

Cláudia Odete Muniz Orioli Baptista é professora da Escola Municipal Ayrton Senna da Silva, em Bangu, na Vila Aliança, onde atua há 21 anos, sempre com turmas de 1º ano do Ensino Fundamental. Ao longo desse tempo, enfrentou muitos desafios, inclusive os impostos pela realidade de um território marcado pela violência. Mas nunca deixou que eles definissem sua prática. “Foi aqui que eu me encontrei como professora. Quando trabalhamos em um lugar onde nos sentimos bem e somos bem acolhidos, tudo vale a pena”.
Desde o início da carreira, Cláudia assumiu uma missão muito clara. “Sempre acreditei que toda criança é capaz de ser alfabetizada na idade certa”. Para tornar a aprendizagem mais prazerosa, transformava a própria sala de aula em um espaço de descobertas. Organizava caixas de leitura, jogos e diferentes materiais para despertar a curiosidade dos alunos desde o primeiro dia de aula. Foi justamente uma dessas caixas que deu origem ao projeto que mudaria sua prática.
“Uma aluna me pediu para levar a caixa de leitura para casa e ler com a mãe e a avó”. A simplicidade do pedido despertou uma ideia. “Percebi que cada aluno poderia ter a sua própria caixa”. Com o apoio das famílias, cada criança confeccionou a sua, utilizando caixas de sapato e materiais disponíveis em casa. A partir dali a leitura deixou de acontecer apenas na escola e passou a fazer parte da rotina das famílias.
“A alfabetização ganhou novos leitores dentro de casa”. A iniciativa aproximou pais, avós e responsáveis do processo de aprendizagem, tornando a leitura uma experiência compartilhada. “Percebi que essa prática poderia tornar a alfabetização mais significativa, ampliando o vocabulário, a fluência na leitura e o interesse das crianças em aprender”.
Ano após ano, os resultados confirmaram a força da proposta. “O projeto ultrapassou os muros da escola e passou a fazer parte da casa de cada aluno”. Para Cláudia, alfabetizar é muito mais do que ensinar letras e palavras. “É plantar sementes de conhecimento, despertar a curiosidade e acreditar que cada criança é capaz de aprender, respeitando seu tempo e seu espaço no mundo em que vivemos”.
Nunca é tarde para recomeçar
A professora que provou que os sonhos não têm idade para acontecer

Aos 55 anos, a professora Kátia Buthers encontrou na educação a realização de um sonho cultivado por muitos anos. Hoje, atua na rede municipal de Nova Iguaçu e está prestes a assumir uma segunda matrícula em Belford Roxo. Mas sua trajetória ganhou um novo rumo bem antes da posse. “Minha filha sempre diz que minha história é inspiradora e que eu preciso compartilhá-la para incentivar outras pessoas”.
O recomeço aconteceu aos 47 anos, quando decidiu prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Consegui uma bolsa de 100% pelo Prouni para cursar Pedagogia”. A conquista abriu caminho para uma nova etapa. Em 2022, concluiu a graduação e, em seguida, especializou-se em Psicopedagogia. “Percebi que nunca é tarde para estudar e realizar um sonho”.
Determinada a ingressar na rede pública, inscreveu-se em diversos certames para professor. “Passei em cinco concursos públicos”, diz. Em 2025, veio a primeira convocação para a Prefeitura de Nova Iguaçu. Logo depois, a aprovação em Belford Roxo confirmou que o esforço havia valido a pena. “Hoje sou professora com muito orgulho”.
Além da carreira, mantém com carinho outra lembrança dessa nova fase: a primeira participação em uma caminhada promovida pela Appai, no Dia dos Professores. “Guardo minha primeira medalha com muito amor”. Ao olhar para a própria trajetória, ela deixa uma mensagem para quem acredita que já passou da hora de mudar de vida. “Transformei minha história por meio dos estudos e sou muito grata a Deus. Nunca é tarde para estudar”.
Quando acreditar vem antes de aprender
A professora que fez da alfabetização um reencontro com a autoestima

Leila Mara Cardoso Belem, há 35 anos trabalhando na rede municipal, é professora no Ciep 203 Professor Lauro de Oliveira Lima, em Rio das Pedras, na cidade do Rio de Janeiro. Ao chegar à sala de aula, encontrou um desafio que ia muito além da alfabetização.
“Meus alunos tinham entre 10 e 15 anos, eram repetentes ou estavam vivendo a primeira experiência na escola. Muitos não sabiam ler nem escrever, não tinham motivação e acreditavam que não eram capazes”.
Foi a partir da história de cada estudante que Leila decidiu construir o processo de aprendizagem. “Respeitei a vivência de cada um. O aluno trazia para a sala de aula sua própria experiência, e era a partir dela que trabalhávamos leitura, escrita, resolução de problemas e pensamento crítico”.
As atividades nasciam do cotidiano. Notícias de jornais, programas de televisão, acontecimentos da comunidade, músicas, conversas e projetos coletivos passaram a fazer parte das aulas. “O mais importante era dar voz aos alunos, trabalhar valores e sentimentos para que eles percebessem que podiam mudar a própria realidade”.
Foi durante um desses projetos que surgiu uma história que Leila jamais esqueceu. A turma participou do concurso de redação do projeto Jornal em Sala de Aula, promovido pelo Jornal O Dia.
Uma das participantes era Grazielle, de 13 anos. Ela morava apenas com o pai, enfrentava dificuldades familiares e nunca havia acreditado no próprio potencial. “Quando incentivei a turma a participar, ela escreveu sua redação, foi premiada e muito elogiada”.
Mais importante do que o prêmio foi o que veio depois. “Ela descobriu que era capaz de escrever. E disse que era exatamente isso que ela sempre quis”. Para Leila, momentos como esse explicam por que escolheu ser professora. “A dignidade traz respeito e oportunidade para quem precisa se sentir capaz”.
Por Antônia Figueiredo










