A escola emocionalmente cansada

Os desafios da cultura digital na formação de crianças e adolescentes, entre algoritmos, desinformação e o papel da escola


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Quando falamos de esgotamento, independentemente da área de atuação, o tema parece ecoar em praticamente todas as pessoas. Essa percepção está diretamente relacionada ao ritmo acelerado que passou a marcar a vida cotidiana, valorizando cada vez mais a produtividade e a capacidade de realizar múltiplas tarefas simultaneamente.

O que antes poderia ser visto como uma situação excepcional tornou-se parte da rotina. A sensação de estar sempre correndo contra o tempo, respondendo a demandas diversas e acumulando responsabilidades passou a integrar o cotidiano de muitos profissionais. E, dentro da escola, essa realidade não é diferente.

Nesta edição, a Revista Appai Educar reuniu um time de especialistas para entendermos melhor esse momento e sugerirmos caminhos que atenuem essa lógica da urgência permanente. Isso porque, em linhas gerais, hoje observa-se que se fala muito sobre aprendizagem, tecnologia e desempenho, mas pouco sobre o cansaço acumulado dentro das escolas. Menos ainda sobre os sinais que indicam que a comunidade escolar está emocionalmente sobrecarregada.

A questão merece atenção. Afinal, a escola é um organismo vivo, formado por relações humanas, expectativas, desafios e responsabilidades compartilhadas. Quando professores, gestores, estudantes e famílias passam a conviver sob pressão constante, os impactos vão além do bem-estar individual e alcançam diretamente a qualidade das relações e da aprendizagem. Um fenômeno que tem despertado a atenção de educadores, gestores e pesquisadores em todo o país.

Quando a escola perde vitalidade

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Embora nem sempre seja facilmente percebido, o esgotamento costuma enviar sinais muito antes de se transformar em adoecimento. O desafio é que muitos deles acabam sendo naturalizados pela rotina. A educadora Irene Reis avalia que, a sobrecarga começa a se tornar evidente quando a escola deixa de ser um espaço de encontro humano e passa a funcionar apenas sob a lógica das entregas, das cobranças e das urgências.

“A escola segue funcionando, mas perde vitalidade”, afirma Irene. Na avaliação de Irene, os sinais aparecem em diferentes níveis. Estão presentes no professor que já não consegue planejar com presença, no gestor que vive apagando incêndios, nos estudantes mais irritados ou apáticos e nas equipes que passam a se comunicar apenas para resolver problemas.

Irene também chama atenção para um aspecto importante: o cansaço emocional não deve ser interpretado apenas como uma questão individual. “Antes de perguntar apenas quanto uma escola entrega, precisamos indagar em que condições humanas essa entrega está sendo produzida”, explica.

Na mesma direção, o professor André Yuiti Ozawa analisa que o adoecimento costuma se manifestar antes mesmo de se tornar visível. “A escola costuma dar sinais antes de adoecer de forma mais evidente”, ressalta. Entre os sinais que merecem atenção, ele cita conflitos frequentes, dificuldade de escuta, irritabilidade, pressa constante e até o silêncio de quem deixa de participar são indicadores que merecem atenção.

Mais do que uma sensação de cansaço ao final do dia, o que preocupa é a perda gradual da disponibilidade para os encontros e para os vínculos. “As pessoas seguem fazendo, mas com menos espaço interno para sentir, pensar e se vincular”, comenta André.

Para a pedagoga Ana Luiza Sinieghi, existe um indicador simples, mas extremamente revelador. “Em uma instituição educacional, o primeiro sinal do cansaço acumulado é a falta de alegria”, pontua. Em sua visão, ambientes emocionalmente saudáveis tendem a favorecer o engajamento, o pertencimento e a segurança emocional de toda a comunidade escolar.

 

O professor que precisa dar conta de tudo

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Se o cansaço da escola se manifesta coletivamente, ele encontra no professor um dos seus pontos mais sensíveis. Ao longo das últimas décadas, a função docente passou a incorporar demandas que extrapolam o ensino de conteúdos. Além de ensinar, o educador acolhe, media conflitos, dialoga com famílias, acompanha indicadores, aprende novas tecnologias e responde a diferentes exigências administrativas.

Para André Yuiti, a questão não está na complexidade da profissão, mas na concentração dessas responsabilidades sobre uma única pessoa. “O problema é quando essa complexidade recai quase inteiramente sobre o professor”, avalia.

Nesse cenário, de acordo com André Yuiti, o educador passa a atuar sob uma lógica de urgência permanente. Resolve problemas, responde rapidamente a demandas e improvisa soluções, mas encontra cada vez menos tempo para observar os processos de aprendizagem, construir vínculos e exercer a escuta necessária ao ato educativo.

Seguindo esse raciocínio, Irene Reis analisa que esse excesso compromete diretamente aspectos fundamentais da prática docente. Em suas palavras, “ninguém cuida bem quando está permanentemente esgotado”. A educadora acrescenta que a paciência diminui, a escuta se estreita e o olhar se torna mais apressado, afetando a relação pedagógica e, consequentemente, a aprendizagem.

Ana Luiza reforça que a escola precisa compreender que muitos desafios atuais exigem atuação interdisciplinar. “O professor não pode centralizar funções que competem a uma rede de apoio”, ressalta.

 

A cultura da urgência permanente

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Outro ponto recorrente nas análises das especialistas é o impacto da hiperconexão. Mensagens instantâneas, plataformas digitais, redes sociais e notificações constantes alteraram a forma como as pessoas se relacionam com o tempo. “A escola parece estar sempre aberta”, resume André Yuiti. Para ele, professores, estudantes e gestores convivem com uma sensação permanente de inacabamento.

Irene Reis acrescenta que o cérebro humano necessita de pausas para consolidar memórias, organizar ideias e transformar informações em aprendizagem. “O cérebro precisa de silêncio, vínculo, descanso e tempo de elaboração”, esclarece. Ela também alerta para o aumento de sintomas como insônia, fadiga persistente e dificuldade de concentração.

Enquanto isso, Ana Luiza chama atenção para os impactos da hiperconexão sobre crianças e adolescentes.  Em sua avaliação, o excesso de estímulos digitais tem contribuído para dificuldades relacionadas à socialização, à tolerância à frustração e à persistência diante dos desafios.

 

Recuperar o valor do encontro

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Diante desse cenário, os especialistas defendem que o fortalecimento das relações humanas deve ocupar papel central nas estratégias de cuidado. “A escola recupera humanidade quando volta a proteger o encontro”, comenta André Yuiti. Na sua opinião, a escuta precisa deixar de ser um evento isolado e se tornar parte da cultura institucional.

Ao tratar da construção de relações mais humanas dentro da escola, Irene Reis defende que o cuidado precisa deixar de ocupar um papel secundário nas instituições. “Cuidado não é o oposto de resultado. Cuidado é condição para resultado sustentável”, enfatiza.

Na perspectiva de Ana Luiza, a construção de um ambiente mais acolhedor passa pela criação de espaços permanentes de diálogo entre estudantes, famílias, professores e equipes de apoio. A educadora avalia que, quando a escuta se torna uma prática cotidiana, o sentimento de pertencimento ganha força e as relações tendem a se tornar mais colaborativas.

 

Quando o cansaço vira esgotamento

Um dos alertas mais importantes diz respeito à naturalização do sofrimento docente. “O cansaço comum pede descanso. O esgotamento pede cuidado, reorganização e reconhecimento”, resume André Yuiti.

Irene Reis explica que o problema deixa de ser pontual quando nem mesmo pausas ou períodos de descanso conseguem restaurar a disposição física e emocional. “Quando dormir não repara, já não estamos falando de cansaço comum”, afirma.

Complementando essa análise, Ana Luiza Sinieghi defende a necessidade de reconhecer precocemente os sinais de sofrimento emocional entre os profissionais da educação. Para ela, o educador precisa ser compreendido em sua totalidade emocional, psíquica e humana para que o cansaço não evolua para um quadro de adoecimento capaz de comprometer o processo de ensino e aprendizagem.

 

Pequenas mudanças, grandes impactos

Embora os desafios sejam complexos, os especialistas concordam que mudanças relativamente simples podem produzir resultados significativos. Organizar melhor os horários, proteger o tempo de planejamento, reduzir burocracias desnecessárias, melhorar a comunicação interna, criar espaços de convivência e fortalecer redes de apoio estão entre as medidas apontadas.

Irene Reis defende que a escuta deve ocupar um lugar estratégico na gestão escolar. “Uma escola que escuta aprende com seus erros, corrige rotas e constrói soluções mais inteligentes”.

André Yuiti reforça a importância das decisões cotidianas. Para ele, proteger o tempo de planejamento dos professores, organizar fluxos de comunicação e criar momentos intencionais de acolhimento são ações capazes de devolver fôlego à rotina escolar. “Quando uma escola consegue comunicar que as pessoas importam, ela já começa a reduzir parte da solidão e da sobrecarga”, pondera.

Ana Luiza Sinieghi acrescenta que algumas medidas estruturais exercem impacto direto sobre a qualidade de vida dos educadores e dos estudantes. Entre elas, a especialista destaca a atenção ao número de alunos por turma, a presença de profissionais de apoio para acompanhar estudantes com necessidades específicas e a valorização docente, fatores que contribuem para um acompanhamento mais individualizado e para a redução da sobrecarga enfrentada pelos professores.

A educadora também ressalta a importância das redes de apoio, tanto dentro quanto fora da escola. Na visão da pedagoga, o acesso a suporte especializado e a possibilidade de contar com familiares, amigos e colegas de trabalho podem fazer diferença na prevenção do esgotamento emocional e na construção de um ambiente mais saudável para todos.

 

O que ainda sustenta quem educa

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Em meio às transformações tecnológicas, às novas demandas sociais e aos desafios cada vez mais complexos da rotina escolar, uma pergunta permanece: o que faz tantos educadores continuarem acreditando na força da educação?

Para André Yuiti Ozawa, a resposta está no sentido que o trabalho docente carrega. Ele avalia que, apesar das mudanças que impactam a escola e a sociedade, permanece viva a capacidade do educador de reconhecer potencialidades, abrir caminhos e influenciar positivamente a trajetória de seus alunos. “O que sustenta o educador é o sentido”, garante.

André destaca ainda que essa motivação não pode estar sustentada apenas pela vocação individual. Segundo ele, o professor também precisa encontrar reconhecimento, pertencimento, espaços de escuta e condições adequadas para exercer sua profissão. Afinal, propósito sem apoio pode se transformar em sobrecarga, e vocação, quando não encontra acolhimento, corre o risco de se converter em desgaste.

Ao avaliar esse cenário, Irene Reis observa que muitos profissionais seguem na educação porque acreditam que sua presença continua fazendo diferença na vida de crianças e jovens. Segundo a especialista, há um compromisso humano que ultrapassa conteúdos, metodologias e resultados mensuráveis. “Muitos continuam porque sabem que, para alguns estudantes, a escola é o lugar onde alguém finalmente percebe, escuta, reconhece e aposta em sua vida”, destaca.

Para Irene, esse vínculo é uma das forças mais poderosas da docência. A educadora argumenta que ensinar também significa deixar marcas, inspirar trajetórias e contribuir para a construção do futuro por meio das relações estabelecidas no presente. No entanto, ela alerta que esse propósito não deve ser usado para justificar condições inadequadas de trabalho ou a naturalização do sofrimento docente.

Ana Luiza Sinieghi relaciona essa permanência à vocação, ao propósito e ao desejo genuíno de contribuir para a formação humana. Em sua percepção, ensinar exige preparo técnico, atualização constante e compromisso com a aprendizagem, mas também envolve uma dimensão humana capaz de conectar o educador ao sentido mais profundo de sua missão. “Existe uma dimensão de chamado e de propósito que exige rigor científico para o preparo da mente, mas que demanda igualmente a abertura do coração para o acolhimento do outro”, alerta.

A especialista acredita que muitos professores encontram motivação na possibilidade de participar do desenvolvimento integral de seus alunos, acompanhando descobertas, conquistas e transformações que ultrapassam os conteúdos curriculares. É essa dimensão relacional, construída no encontro cotidiano com o outro, que ajuda a manter viva a esperança e a confiança no papel transformador da educação.

Embora utilizem abordagens diferentes, os três convergem em um ponto essencial. O que sustenta emocionalmente o educador não é apenas a rotina de ensinar, mas a convicção de que seu trabalho continua sendo capaz de gerar impacto na vida das pessoas. Uma certeza que, mesmo diante dos desafios, segue alimentando o compromisso de quem escolheu educar.

 

Cuidar de quem educa

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Mais do que identificar sinais de esgotamento, o desafio está em construir uma cultura que reconheça o cuidado como parte essencial do processo educativo. Afinal, a qualidade da aprendizagem, das relações e da convivência escolar depende diretamente das condições oferecidas às pessoas que fazem a educação acontecer todos os dias.

Nesse contexto, iniciativas que promovem acolhimento, bem-estar e qualidade de vida ganham ainda mais relevância. Há 40 anos, a Appai atua como uma importante rede de apoio aos profissionais da educação, oferecendo benefícios, programas, projetos e parcerias que contribuem para o desenvolvimento pessoal e profissional dos associados nas áreas de educação, saúde, lazer, assistência social, cultura e longevidade. Um cuidado que reconhece o educador para além da sala de aula e valoriza seu bem-estar de forma integral.

Em um mundo cada vez mais acelerado, recuperar espaços de escuta, fortalecer vínculos, valorizar o tempo de convivência e proteger a saúde emocional da comunidade escolar talvez não sejam apenas estratégias de bem-estar. São escolhas que ajudam a preservar aquilo que continua sendo o maior patrimônio da escola, sua capacidade de formar pessoas, inspirar trajetórias e transformar vidas.


Por Antônia Figueiredo
Fontes:

  • Irene Reis é educadora, Mestre e Doutoranda em Ciências da Educação, Especialista em Neurociência e Comportamento. Autora do livro “Como ser um educador? Reinventando a educação de A a Z” (Wak Editora).
  • Ana Luiza Matos Lopes Sinieghi é pedagoga, tem especialização em “Psicopedagogia ABA”, em “Psicopedagogia e Psicomotricidade”, em “Gestão Escolar” e em “Neuroeducação”, além de Mestrado em “Projetos Educacionais em Ciências”. Atua como Diretora-adjunta na Educação Infantil do Instituto Canção Nova, em Cachoeira Paulista (SP) – uma das unidades da Rede de Desenvolvimento Social Canção Nova.
  • André Yuiti Ozawa é gestor de conteúdos de inovação profissional na Casa Firjan e atua nos programas Sesi Formação para Educadores e LabDesign. Professor e gestor educacional, possui graduação em Letras e doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo.