O que está acontecendo com a alfabetização das crianças?
Especialistas analisam leitura, escrita e formação de leitores na era digital

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Temos uma geração que nasceu cercada por informação, vídeos, celulares e conexões, mas que muitas vezes chega ao Fundamental I e II sem domínio consistente da leitura, da escrita e da interpretação. Os especialistas Jessé Rodrigues Magalhães, mestre em Educação pela Uerj, professor dos anos iniciais do Ensino Fundamental e doutorando em Educação pela Unirio, juntamente com a pedagoga, psicopedagoga e coordenadora pedagógica Josele Teixeira analisam os fatores por trás das dificuldades e refletem sobre os caminhos possíveis para a formação de leitores no século XXI.
Segundo eles, em uma infância marcada por diferentes linguagens, informações disponíveis em poucos segundos e tecnologias digitais cada vez mais presentes no cotidiano, aprender a ler e escrever continua sendo uma das experiências fundamentais da vida escolar. O que mudou, porém, foi o contexto em que esse processo acontece. As crianças chegam à escola trazendo repertórios diversos, novas formas de comunicação e experiências que desafiam educadores e famílias a repensarem como se constrói a relação com a linguagem.
Para Josele Teixeira, o fato de as crianças estarem cada vez mais conectadas não significa, necessariamente, que estejam desenvolvendo de forma consistente as habilidades de leitura, escrita e interpretação. Na avaliação da pedagoga, parte dos conteúdos digitais privilegia a rapidez e pode não favorecer experiências que exigem maior tempo de atenção e reflexão. “O contato frequente com telas e conteúdos digitais costuma privilegiar informações rápidas, imagens e vídeos curtos, o que nem sempre favorece a atenção, a reflexão e a construção de sentidos mais complexos”, observa.
Já o professor Jessé Rodrigues também identifica transformações nas formas de interação e comunicação que interferem nesse cenário. Antes, porém, de relacionar essas mudanças às dificuldades de aprendizagem, ele propõe olhar para aquilo que a criança já sabe e leva consigo para a escola.
“É importante, inicialmente, compreender que o processo de alfabetização não se resume à antecipação de práticas formais de leitura e escrita. As crianças já chegam à escola com hipóteses, narrativas, desenhos, marcas gráficas, perguntas (muitas perguntas) e diferentes formas de comunicação. O papel das instituições de educação é ampliar este repertório, através de uma escuta ativa daquilo que elas já demandam”, explica.
A perspectiva apresentada pelos especialistas desloca a discussão de uma possível relação direta entre tecnologia e dificuldades de alfabetização. O processo envolve diferentes dimensões e começa antes mesmo do momento em que a criança passa a dominar formalmente o sistema de escrita.
Entre a velocidade das telas e o tempo da aprendizagem
A velocidade de circulação das informações é um dos aspectos que entram nessa discussão. Josele chama atenção para o consumo frequente de vídeos curtos, especialmente os chamados shorts, e para possíveis impactos sobre atividades que exigem concentração e permanência.
“Particularmente, tenho muitas ressalvas quanto ao uso excessivo desse tipo de conteúdo, pois ele pode contribuir para a redução do tempo de concentração, aumentar a busca por estímulos imediatos e dificultar o envolvimento das crianças com atividades que exigem mais tempo, como a leitura de um livro, a escrita de um texto ou a interpretação de narrativas mais elaboradas”, pontua.
O professor Jessé também considera relevante observar a intensidade e a maneira como os recursos digitais são utilizados. Para ele, não é possível atribuir às tecnologias, por si mesmas, a responsabilidade pelas dificuldades de aprendizagem. “Os meios tecnológicos não são, por si mesmos, responsáveis pelos problemas referentes ao aprender. Na minha opinião, acredito que a questão está na qualidade, na intensidade e na forma como são utilizados esses recursos”, ressalta.
A diferença está, portanto, menos na existência da tecnologia e mais na forma como ela ocupa o cotidiano infantil. Na visão de Josele, quando utilizadas de maneira intencional e equilibrada, as ferramentas digitais podem enriquecer as experiências de aprendizagem. O alerta aparece quando o uso excessivo e sem mediação favorece o consumo passivo de conteúdos.
Jessé defende que a criança tenha acesso a experiências diversificadas, nas quais as tecnologias estejam ao lado de outras formas de interação e aprendizagem. “Contudo, não estou aqui culpabilizando o mundo digital, mas reafirmando a necessidade de se estabelecer equilíbrio entre o uso das tecnologias em favor do desenvolvimento crítico e criativo das crianças. Elas necessitam de experiências diversificadas que envolvam movimento, interação, exploração, brincadeira, conversa, literatura, escrita espontânea e, também, tecnologias digitais utilizadas de maneira intencional”, adverte.
A discussão, porém, não se resume à presença das telas. Ela também passa pelo que acontece quando a criança desliga o dispositivo e encontra oportunidades para conversar, brincar, ouvir histórias, explorar, escrever e interagir.
Uma infância que chega com diferentes repertórios
A alfabetização acontece em meio a trajetórias infantis distintas. Josele ressalta que algumas crianças chegam à escola tendo convivido desde cedo com livros e práticas de leitura, enquanto outras tiveram poucas oportunidades de interação com a cultura escrita. Na avaliação da especialista, essas diferenças interferem diretamente nas oportunidades de aprendizagem.
Além das condições sociais e culturais, as experiências vividas antes e fora da escola também participam da construção da linguagem. “Por isso, compreender a alfabetização exige considerar a pessoa em sua realidade e não apenas seu desempenho diante de uma atividade escrita”.
De acordo com Jessé, é importante reconhecer aquilo que a criança já traz. Para ele, as hipóteses, narrativas, desenhos e diferentes formas de comunicação fazem parte de um repertório que precisa ser escutado e ampliado pela escola.
“Nos últimos anos, percebo que esse processo tem sido impactado por diferentes fatores, principalmente, quanto às transformações nas formas de interação e comunicação, o uso cada vez mais intenso das tecnologias digitais, as desigualdades sociais e culturais, o que impacta direta e indiretamente na relação que se constrói com os livros e as práticas de leitura nos diversos ambientes em que esta criança se insere”, avalia.
A escola, nesse sentido, encontra o desafio de trabalhar com crianças que chegam de contextos diferentes e que já estabelecem relações próprias com a linguagem. O ponto de partida pode não ser o mesmo, mas a responsabilidade de ampliar repertórios permanece.
Não há um único culpado
Se as telas fazem parte da realidade contemporânea, elas não explicam sozinhas os desafios da alfabetização. Josele considera inadequado justificar os problemas existentes no país a partir de um único ponto e chama atenção para a dimensão estrutural da questão. “Atribuir os nossos dilemas com relação à alfabetização a um único fator seria, no mínimo, uma análise superficial e uma visão simplista”, atesta.
Em sua avaliação, questões históricas, sociais, econômicas e educacionais também precisam ser consideradas. A mediação familiar, as práticas pedagógicas, os hábitos de leitura e as desigualdades de acesso à educação de qualidade, aos livros, às bibliotecas e aos bens culturais fazem parte desse cenário.
Jessé também identifica diferentes fatores atuando simultaneamente. Ao tratar das transformações recentes, o professor destaca as mudanças nas formas de interação e comunicação, o uso das tecnologias e as desigualdades sociais e culturais. Segundo ele, o processo de alfabetização precisa ser compreendido a partir das experiências que cercam a criança e das oportunidades que ela encontra para desenvolver sua relação com a leitura e a escrita.
Esse olhar mais amplo evita que a tecnologia seja transformada em explicação única. Ao mesmo tempo, não elimina a necessidade de discutir os efeitos de determinados usos dos dispositivos digitais, especialmente quando eles passam a ocupar o espaço de experiências importantes para o desenvolvimento da linguagem.
Estar conectado não significa ser leitor
Ter familiaridade com celulares, tablets ou computadores é diferente de desenvolver competências de leitura, compreensão e pensamento crítico. Essa distinção aparece com clareza nas análises dos especialistas. A pedagoga Josele relaciona essa diferença aos conceitos de alfabetização e letramento e destaca que o contato com as tecnologias não garante, automaticamente, a participação competente nas práticas sociais de leitura e escrita.
“Ser um ‘nativo digital’ não significa, automaticamente, ser um leitor competente ou um sujeito crítico. Essas competências são construídas nas relações sociais, nas experiências culturais e nas práticas educativas que estimulam a reflexão, a curiosidade, a argumentação e a produção de sentidos”, destaca.
O mestre em educação Jessé, por sua vez, chama atenção para habilidades que precisam ser desenvolvidas em experiências que exigem tempo, escuta e envolvimento com a linguagem. Entre os desafios que identifica estão a escuta atenta, a concentração, a produção de narrativas, a compreensão de sequências e relações de sentidos e a ampliação do vocabulário. “Quando a leitura e a escrita deixam de ser apenas uma atividade escolar e passam a ser compreendidas como forma de expressão e comunicação, elas ganham significado para a criança”, assegura.
A familiaridade tecnológica pode facilitar o uso de uma ferramenta, mas não substitui o desenvolvimento das competências necessárias para compreender uma narrativa, interpretar informações, formular hipóteses, argumentar e produzir sentidos. São aprendizagens que dependem de experiências culturais e educativas intencionais.
A mediação muda o lugar da tecnologia
Se a tecnologia não é, por si mesma, responsável pelas dificuldades de alfabetização, também não deve ocupar um lugar neutro no processo educativo. Para os especialistas, a maneira como os recursos são utilizados faz diferença. Jessé enfatiza que a escola deve agir como intermediária, “assumindo uma postura de mediação e preservando experiências que considera fundamentais. As tecnologias digitais não devem pleitear o lugar da interação humana, da experiência, da leitura literária, da escrita e da brincadeira. Ela é mais uma linguagem dentro de um amplo espectro de possibilidades de aprendizagens. O critério que deve predominar, sempre, é a intencionalidade pedagógica”, defende.
Josele também destaca a importância da intencionalidade. Na sua avaliação, recursos como livros digitais, audiolivros, aplicativos educativos, jogos de linguagem, plataformas de produção de textos e contação de histórias em diferentes formatos podem ampliar o contato com a cultura escrita. “No entanto, esses recursos devem complementar, e não substituir, experiências fundamentais como a leitura compartilhada, a conversa, a escrita espontânea, o contato com livros físicos e as interações presenciais”, enfatiza.
O papel de professores e familiares aparece, então, como elemento de mediação entre a criança e os recursos disponíveis. Fazer perguntas, estimular interpretações, provocar a curiosidade e estabelecer relações entre aquilo que a criança vê, ouve, lê e escreve são ações que ajudam a transformar o contato com a tecnologia em experiência de aprendizagem.
Família e escola na formação de leitores

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A formação de leitores também ultrapassa os limites da sala de aula. As experiências familiares podem contribuir para que a leitura seja percebida não apenas como uma obrigação escolar, mas como uma prática significativa. Jessé considera que um dos desafios da família está em criar situações que desloquem a criança da praticidade das telas para experiências efetivas de uso da linguagem. Leitura literária, contação e criação de histórias e rodas de conversa aparecem entre as possibilidades. “O importante é construir hábitos de leitura e prazer nesses momentos”, destaca.
Josele também atribui importância ao trabalho conjunto entre família, escola e comunidade. Na sua avaliação, formar leitores e escritores competentes exige um conjunto de práticas determinadas. “Estamos diante de algo que exige tempo, intencionalidade pedagógica, experiências culturais diversificadas e um trabalho conjunto entre escola, família e comunidade, para que as crianças possam compreender, interpretar e produzir sentidos de maneira crítica e significativa”, assegura.
A construção de hábitos de leitura não depende necessariamente de grandes projetos. Pode começar em experiências cotidianas, com histórias compartilhadas, conversas e contato frequente com livros.
Ler também precisa fazer sentido
Para o doutorando Jessé, recuperar o prazer e o sentido da leitura é um dos caminhos para aproximar as crianças dos livros. O professor defende a oferta de diferentes estilos textuais e a valorização da leitura literária, sempre considerando os interesses que emergem entre os estudantes. “A leitura deve ser tratada como algo prazeroso e útil”, afirma.
Entre as práticas que relata está o envio semanal de uma sacola com um livro para ser lido com a família durante o fim de semana. Em seguida, o material retorna à escola acompanhado pelos relatos da experiência. “São momentos sensíveis e muito profícuos e que impactam muito positivamente na percepção da criança em relação ao livro”, conta.
Josele, por sua vez, ressalta que a alfabetização não pode ser reduzida ao reconhecimento de letras e palavras. Na sua avaliação, o processo envolve experiências significativas com a linguagem oral e escrita, contato frequente com livros, oportunidades de escuta, diálogo, brincadeiras, produção de textos e mediação qualificada.
Essa compreensão aproxima alfabetização e formação de leitores sem confundi-las. Ensinar a ler e escrever envolve o domínio do sistema de escrita, mas também a construção de sentidos e a participação em práticas sociais de linguagem.
Alfabetizar hoje é preparar para diferentes linguagens
As transformações na infância também levam a uma ampliação daquilo que se entende por alfabetizar. Segundo Josele, o processo precisa inserir a criança na cultura escrita e prepará-la para compreender e produzir informações em diferentes contextos. “Alfabetizar alguém hoje significa muito mais do que ensinar o código escrito. Significa inseri-lo na cultura escrita, possibilitando que compreenda, produza e utilize a leitura e a escrita em diferentes contextos da vida social”, explica.
A especialista considera que habilidades como compreensão leitora, interpretação de informações, argumentação, comunicação de ideias, resolução de problemas, seleção de fontes confiáveis e produção de textos ganham importância em um ambiente marcado por diferentes linguagens.
Em seu relato, Jessé também compreende a leitura e a escrita como formas de expressão e comunicação. Na sua avaliação, quando essas práticas deixam de ser percebidas apenas como atividades escolares, elas podem adquirir maior significado para a criança. “Alfabetizar não é apenas ensinar códigos, é possibilitar que se compreenda que a linguagem permite dizer, imaginar, interagir, registrar, comunicar, conhecer e transformar o mundo”, garante.
Nesse cenário, alfabetizar significa ensinar a ler o que está escrito, mas também criar condições para que a criança compreenda, interprete, questione e produza sentidos diante das diferentes formas de comunicação que encontra.
Quando a inteligência artificial entra em cena
A chegada da inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao debate sobre alfabetização e formação de leitores críticos. Embora seja uma tecnologia diferente das ferramentas digitais já incorporadas ao cotidiano, ela também exige mediação e intencionalidade.
Josele, enquanto psicopedagoga, identifica possibilidades relacionadas à personalização da aprendizagem, à elaboração de materiais didáticos e à ampliação de recursos inclusivos. Ao mesmo tempo, chama atenção para riscos associados à facilidade de obter respostas prontas. “Entretanto, os desafios são igualmente relevantes e tensos. A facilidade de obter respostas prontas pode reduzir as oportunidades de reflexão, argumentação e construção do pensamento”, afirma.
Na avaliação da especialista, a escola precisa ensinar os estudantes a questionar, comparar fontes e verificar informações, especialmente diante da possibilidade de a inteligência artificial produzir conteúdos incorretos ou reproduzir vieses. “Assim, o maior desafio da escola não é competir com as novas tecnologias, mas ensinar as crianças a pensar com autonomia diante delas”, ressalta.
A discussão sobre inteligência artificial, portanto, retoma um princípio que aparece ao longo de toda a análise sobre tecnologia e alfabetização. O recurso pode ampliar possibilidades, mas não substitui a mediação humana nem as experiências que ajudam a criança a desenvolver autonomia, linguagem e pensamento crítico.
O desafio permanece humano
As respostas de Josele e Jessé apontam para um cenário em que a alfabetização não pode ser explicada por uma única causa. As tecnologias fazem parte da infância contemporânea e transformam formas de comunicação, mas convivem com fatores sociais, culturais, familiares e pedagógicos que também interferem nas experiências de aprendizagem. Nesse contexto, a questão talvez não seja determinar se a tecnologia favorece ou prejudica a alfabetização, mas compreender em que condições, com que finalidade e sob qual mediação ela é utilizada.
Para os especialistas, algumas experiências permanecem fundamentais. Conversar, ouvir histórias, brincar, explorar, escrever, ler, interagir e construir sentidos continuam sendo caminhos importantes para o desenvolvimento da linguagem, mesmo em uma infância atravessada pelo digital. Mais do que escolher entre o livro e a tela, o desafio está em formar crianças capazes de transitar por diferentes linguagens sem perder a capacidade de compreender, questionar e criar.
E, como resume Jessé em sua recomendação aos educadores: “Leiam com e para as crianças! A leitura descortina o mundo!”.
Por Antônia Figueiredo
Fontes:
Josele Teixeira é pedagoga, psicopedagoga e coordenadora pedagógica. Integra a equipe da Gerência de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. É especialista em Avaliação da Aprendizagem, Alfabetização e Educação Inclusiva. Autora dos livros “Avaliação Escolar: da Teoria à Prática”, “Alfabetização: Compartilhando Teorias e Práticas” e “Educação Infantil sem o A E I O U – Práticas de Leitura e Escrita”, publicados pela WAK Editora.
Jessé Rodrigues Magalhães é professor dos anos iniciais do Ensino Fundamental, formado pelo Curso Normal, licenciado em Ciências Biológicas, bacharel em Direito e advogado. É mestre em Educação pela Uerj e doutorando em Educação pela Unirio.










