Valorizando as raízes


Mesmo diante dos avanços tecnológicos do século XXI, existe em nossa sociedade um fator agravante que corrói uma parcela significativa da população negra, especialmente as mulheres: a discriminação. Diante desta situação, o Ciep 223 Olympio Marques dos Santos considerou relevante tratar da temática feminina no berço das culturas africanas. Foi assim que nasceu a ideia do projeto étnico-racial “Gbógbó Awon Obirin Dudu Ni Dandara, Awón Ni Alagbara Ti Já Fun Aaye Won”, que traduzindo do iorubá para a língua portuguesa quer dizer: “Todas as mulheres negras são Dandaras, guerreiras que lutam pelo seu espaço”.

As atividades objetivaram valorizar as culturas africanas e afro-brasileiras, desenvolver atitudes de respeito às etnias, combater estereótipos e preconceitos e trazer ao centro das discussões a Lei 1.063/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do Fundamental ao Ensino Médio.

O projeto foi implementado pelo professor Fernando Tenório de Araújo, que é animador cultural da unidade há 25 anos. “A escola me escolheu para ser representante do étnico-racial na Coordenadoria Regional Metropolitana IV. A partir daí, venho desenvolvendo um trabalho, iniciado em 2015. Como estou fazendo uma especialização sobre a língua iorubá, na UniRio, fiquei empolgado em abordar, este ano, a mulher negra”, justifica Fernando. Além dele, o projeto contou com o envolvimento de vários outros professores de Língua Portuguesa, Artes, Geografia, Sociologia e Filosofia.

A professora Suzi Veloso, de Língua Portuguesa, é uma delas. Com turmas do 1º ano, ela trabalhou a produção de crônicas. “Como no último bimestre esse gênero fez parte do conteúdo da série, fizemos uma ligação com o projeto estimulando os alunos a produzirem narrativas com esse estilo literário. Alguns textos são contundentes e exprimem os sentimentos que eles experimentam”, declara. Durante a culminância do projeto, os estudantes montaram um varal com as crônicas que produziram.

A aluna Renata Fernandes escreveu uma narrativa intitulada “Uma história de vida”. “O meu texto se baseou em relatos que eu já ouvi sobre preconceito racial. Jovens que perderam uma oportunidade de emprego devido à cor da pele”. Já a crônica de Rafaela Lima teve como título “Por que não pude comprar aquela geladeira?”. “Escrevi sobre um fato real vivenciado por uma pessoa que eu conheço. O negro sofre muito preconceito quando entra em algumas lojas. O meu texto provoca uma reflexão sobre isso. Afinal, estamos em pleno século XXI e casos como esse continuam ocorrendo”, lamenta. Já a aluna Ana Beatriz Figueiredo destacou o empoderamento da mulher negra, enquanto sua colega de série, Clara Stephanny, escreveu uma crônica criticando a decisão do presidente norte-americano Donald Trump de proibir o ingresso de indivíduos transgêneros nas Forças Armadas daquele país.

Rosane Rangel, também professora de Língua Portuguesa, desenvolveu um trabalho que teve início com um seminário sobre a literatura africana. “Em sala de aula, abordamos obras de autores africanos. Após as discussões, montamos uma sala temática para a culminância do projeto. Dentro dela, cada grupo ficou responsável por espaços em que foram apresentados trabalhos diversos: contação de histórias da mitologia dos orixás africanos; o preconceito através dos quadrinhos; os quilombos e quilombolas e os adinkras (simbologia africana que está relacionada a valores como amizade, sabedoria e prudência). Foi a primeira vez que eles trabalharam com a Lei 10.639”, constata a professora.

Adriana Galhardo, professora de Geografia, aprofundou os conhecimentos sobre a África: “Ainda tem muita gente que acha que se trata de um país e não de um continente. Diante dessa realidade, desenvolvemos um trabalho no sentido de esclarecer as pessoas que viessem para a mostra. Aproveitamos também a visita à escola da diretora consular de Angola (Fátima Moniz) e do príncipe Aboubakar, de Benin, e trabalhamos a cartografia desses dois países. Como uma das matérias do 1º ano é justamente cartografia, já havíamos estudado, em sala de aula, tudo sobre escala e os elementos de um mapa. Já o conteúdo do 2º ano é geografia humana. Com esses alunos, trabalhamos a intolerância, um tema bastante atual”.

Para a professora Geórgia Reis, de Sociologia, conciliar a disciplina ao projeto foi fácil, já que questões relacionadas à intolerância e à discriminação estão presentes no currículo mínimo e em temas transversais. “Os estudantes produziram cartazes e participaram de debates, em sala de aula, os quais possibilitaram a abordagem de diferentes situações vivenciadas por eles próprios. Dessa forma, a escola cumpre o papel de provocar reflexões e formar indivíduos plenos. São os alunos se vendo como atores principais na história”, avalia.

A professora de Artes, Janaina Diniz, produziu, com alunos do 2º ano, desenhos e pinturas inspirados na cultura africana. Baseados em releituras e em inspirações próprias, os estudantes fizeram painéis que revelaram diferentes olhares sobre a temática. Adriana Galeno, professora da mesma disciplina, trabalhou a confecção de máscaras africanas: “A arte desempenha um papel importante de quebrar barreiras. Durante a fase de produção das máscaras, abordamos as muitas contribuições que recebemos do continente africano para a nossa cultura. Esse enfoque ajuda a superar preconceitos e fortalece a autoestima de alunos que vivenciam, de alguma forma, as diferentes faces da discriminação”.

A aluna do 3º ano Denise Carvalho foi escolhida a garota étnico-racial. Segundo o professor Fernando, além de bela, trata-se de uma jovem ativista, que participa com assiduidade de movimentos que defendem a cultura e as raízes negras. “Projetos como esse ajudam a despertar a consciência de que todos somos iguais, mesmo sendo diferentes. Todos têm os mesmos direitos e deveres, mas para que isso ocorra na prática é necessário que todos aprendam a respeitar as diferenças e as opções de cada indivíduo”, declara Denise.

Além das exposições dos trabalhos dos alunos, a mostra contou com oficinas, palestras e apresentações de dança e teatro de grupos convidados. Lena Martins ministrou uma oficina de Abayomi (“Encontro precioso”, em Iorubá). Trata-se de bonecas feitas com retalhos, sem cola ou costura, apenas usando nós. Conta-se que, para acalentar seus filhos durante as terríveis viagens a bordo dos navios negreiros, as mães africanas rasgavam retalhos de suas saias e, a partir deles, criavam pequenas bonecas, feitas de tranças ou nós, que serviam como amuleto de proteção. O brinquedo se tornou símbolo de resistência. Outra oficina ministrada durante a culminância do projeto foi a de confecção de turbantes.

No auditório da escola, foram realizadas três palestras: a primeira abordou a intolerância religiosa e contou com a participação de representantes de várias religiões. A segunda falou sobre preconceito e injúria racial, com a participação do advogado e professor da escola Alexandre Lopa. E, para finalizar os debates, o tema empoderamento da mulher negra, com a presença de várias mulheres que se destacam em suas profissões.

Ao final, o professor Fernando comemorou o resultado positivo do projeto: “Como educador e animador cultural, acredito que o nosso objetivo é preparar o aluno para ser um cidadão pleno e não apenas conquistar um diploma. O objetivo maior da educação integral é a formação para a autonomia, entendida como o empoderamento dos estudantes para que eles façam escolhas fundamentadas em seus projetos de vida”.

 

Por Tony Carvalho


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