Valeu, João


Foto emblemática de Tuca Vieira.

“Uma música diferente, uma espécie de samba lento, cantado com uma voz sussurrada. Pra quem gosta de coisa esquisita!”. Foi assim que um jovem do Recôncavo baiano chamou a atenção de um amigo para o que acabava de ouvir numa antiga caixa de som de um bar. O amigo ficou altamente impressionado com o que acabava de ouvir. Tanto que a partir daquele momento não largou mais o violão e se transformou num dos maiores artistas brasileiros. O jovem era Caetano Veloso e a música que tanto o tinha inspirado era “Chega de Saudade”, que um conterrâneo seu, um tal João Gilberto, havia acabado de gravar naquele final da década de 1950.

Foi de forma semelhante que muita gente boa pôs o pé na profissão de tocar um instrumento e cantar, com ou sem banquinho, mas com o violão, o clima intimista e canções que falavam de amor, beleza e alegria. A Bossa Nova surgiu avassaladora, conquistando amantes da música pelo Brasil inteiro e despertando talentos a rodo. Que o diga gente como Tom Jobim, Nara Leão, Carlos Lyra, Roberto Menescal e, mais tarde, outros mestres como Vinicius de Morais, Chico Buarque e Toquinho, todos de alguma forma filhos daquela forma de tocar samba absolutamente original que aquele baiano de Juazeiro apresentava à Cidade Maravilhosa.

O novo estilo de fazer música caiu como uma luva naquele Brasil da década de 1950, que construía a futurista capital no coração do continente, abria as portas para a modernidade através do crescimento da indústria automobilística e começava a se colocar para o mundo por meio do primeiro título mundial da seleção brasileira. Desse ponto de vista, pode-se dizer que a Bossa Nova foi a trilha sonora da alegria e do otimismo nacionais, ajudando a divulgar o maior cartão-postal do país, com suas lindas praias, mulheres bonitas e promessa de momentos de prazer.

A Bossa Nova mudou a cara da cultura brasileira, com um jeito original de tocar o mais brasileiro dos ritmos, combinando a ginga e a elegância do samba às harmonias sofisticadas que músicos de boa formação musical tanto admiravam. O resultado foi uma música que influenciou praticamente tudo o que se fez posteriormente. Levou a complexidade harmônica a ritmos tradicionais e já consagrados como o chorinho, inaugurou uma leva de cantores que deixavam de lado os tradicionais vozeirões e assumiam o intimismo vocal e a sutileza de interpretação e principalmente permitiu a eclosão de uma geração das mais geniais que qualquer país já teve, que abusou da geleia geral dos ritmos musicais sem nunca abandonar a proposta musical inaugurada por João Gilberto.

Ao grande criador da Bossa Nova se deve, além de tudo, o resgate do gigante acervo do cancioneiro popular brasileiro. Do violão de sonoridade mágica, inigualável, de João Gilberto não saíam somente os clássicos da música brasileira fruto das composições de gênios como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque, mas também canções que embalaram milhões de pessoas no Brasil, sertões a fora, em antigos compositores como Bororó, Ari Barroso e Haroldo Barbosa. Nesse sentido, João foi tão importante quanto Villa-Lobos, resgatando um Brasil que os próprios brasileiros ignoravam.

A Bossa Nova foi tão sedutora que não se restringiu às fronteiras nacionais. Encantou os músicos estadunidenses, que fizeram versões para o inglês, gravaram várias obras e realizaram muitas parcerias. Chegou até a outros nichos musicais, como no caso de Andy Summers, guitarrista do The Police, exímio conhecedor do repertório, e criou um espaço para artistas aqui pouco conhecidos, mas que até hoje se apresentam pelo mundo cantando e tocando Bossa Nova pelos quatro cantos do planeta.

Gente como Wanda Sá e Rosa Passos são bons exemplos disso. E muitos músicos amadores e amantes da Bossa Nova que tocam o lendário repertório em todas as línguas que se possa imaginar. Basta acessar o YouTube e constatar como se canta o Brasil pelo mundo, seja em versões para os próprios idiomas ou em tentativas de entabular a língua portuguesa, carregando as canções de sotaques e pronúncias.

Por essas e muitas outras coisas que não couberam aqui nesse texto a perda de João Gilberto representa um vazio irreparável na cultura brasileira. Ele se une agora à memória de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, formando uma trinca que, esteja onde estiver, vai continuar iluminando as gerações e mostrando que, enquanto coisas assim forem cantadas, o Brasil permanecerá vivo e presente.

Essa foi a singela homenagem dessa coluna a esse grande mestre da cultura Brasileira. Obrigado por tudo, João Gilberto!


Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.


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