Todos os caminhos levam à I FLIMALU


Feira literária contra o “calcanhar de Aquiles”

O que um álbum de fotografias com desenhos tem a ver com uma feira literária? Hum… muita coisa!!! Pois o trabalho, na realidade, é uma interpretação que estudantes do primeiro segmento do Ensino Fundamental da Escola Municipal Maria de Lourdes Barbosa Santos, no bairro do Fonseca, em Niterói, fizeram sobre “O Calcanhar de Aquiles”, do escritor e cartunista Ziraldo, inspirado em um herói mitológico grego. Esta foi uma das atividades oferecidas, junto com literatura de cordel, poesias, declamações feitas pelos alunos, muita contação de histórias e exposição de murais, que compuseram a I FliMalu – I Festa Literária da escola.

A proposta do evento não se encerra nesta atividade, segundo a direção da escola. Muito pelo contrário, foi somente o começo. O foco é potencializar a leitura e a escrita dos alunos, além de instituir a cultura de valorização da produção literária. Com o evento, a Sala de Leitura Monteiro Lobato passou a ter um novo status, convidando à leitura, interação, valorização, acolhimento. Este é o “calcanhar de Aquiles” a ser superado e que foi identificado pelo corpo docente como foco do projeto deste trimestre.

A E. M. Maria de Lourdes Barbosa Santos vem investindo na pedagogia de projetos, que vêm acumulando, ao longo de quase dois anos de trabalho, experiências importantes. É o que revela a supervisora educacional Silvana Malheiro do N. Gama: “A I FliMalu é fruto desta pedagogia, que aproxima professores de propostas interdisciplinares, num trabalho coletivo que envolve alunos e docentes com trocas ricas”. Para ela, esta pedagogia possibilita o desenvolvimento de processos, a percepção do conjunto da ação. “Deixa de ser ‘minha turma’, para ser ‘nosso projeto’”.

Para a realização da I FliMalu, a diretora Rozane Pereira contou com importantes parcerias, palestras com poeta cordelista (que fez rimas que deixaram as crianças encantadas), bazar amigo, contação de histórias realizada por professores que vão às escolas desenvolver o incentivo à leitura. “Temos muita gente na rede municipal, que é fantástica. São profissionais que desempenham um trabalho lindo. Não só os alunos gostaram, mas os pais também prestigiaram”, destacou, enfatizando a entrada de um novo segmento na escola, as turmas do EJA – 1º, 2º e 3º anos –, no horário noturno, cuja primeira turma fora iniciada em 2016. O painel com a produção da turma indicava a primeira participação, promovida pelas professoras Vicentina e Kelly, em um evento diurno.

Após definidas as prioridades pelo corpo docente, desenvolveram o planejamento em suas séries, com a indicação dos autores a serem homenageados. Levaram a proposta aos alunos, incluindo o debate sobre a eleição de um nome para ser o patrono da sala de leitura. Os conteúdos programáticos permearam todo o projeto.

A professora do 4º ano, Verônica Soares, buscou resgatar o lado “infantil” das crianças. Para ela, “as estão perdendo a infância muito cedo.” Por isso, ela optou pelo nome de Maurício de Sousa. Pois para esta professora, é importante que as crianças ainda tenham tempo para o seu “Cebolinha”, o seu “Cascão”, a sua “Monica”. “Elas precisam acessar o seu lúdico.” Entre as músicas, Verônica trouxe para a roda a “Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes, e “Aquarela”, de Toquinho. Letras, sons, percepções, imagens, sonhos, foram trabalhados nesse imaginário cada dia mais denso de crianças que deveriam ser tenras, mas que a vida deixa tensa.

Michelle Ribeiro, do 1º ano, mexeu com as curiosidades dos animais da “Arca de Noé”. E, foram muitas idas e vindas com vídeos, contação de histórias, pesquisas em na internet e em livros para responder as muitas perguntas. Principalmente, quando foram conhecer as biografias dos autores, conhecer um pouco de suas histórias, de suas obras, ver seus rostos. Verônica lembrou que as crianças fizeram até um rap, o “rap do Cascão” que “ficou bem criativo”. Já a professora Ana Cristina Quiares, do 1º ano, desenvolveu, entre outras coisas, a expressão corporal. O som das palavras, a expressão gráfica das poesias. Explicava o que eram versos, quantas frases o compunha – trabalhava, portanto, numerais. Ou seja, olha a temida matemática no meio da poesia! Afinal, ela pode ser desmistificada poeticamente.

Em certa medida, foi o que ocorreu com Rodrigo, 8 anos, 3º ano, desmistificou a leitura, de forma lúdica. “Meu filho lia muito pouco, tinha dificuldades. Ele tem mudado muito e foi graças a escola, ao trabalho das professoras”, disse Eliane Goes. Participativa da vida escolar do filho, Eliane acompanha as reuniões dos pais, e afirma que é nesses encontros que busca aprender como lidar com suas limitações para incentivar o filho a gostar de estudar, tendo que se equilibrar no cuidado de seus outros dois filhos e as obrigações e afazeres domésticos, que não são poucos. A escola levou os alunos a uma feirinha de livros onde o menino comprou 10 livrinhos, “baratinhos”. “Ele gostou tanto, que lê para o irmão mais novo e virou ídolo do pequeno. E toda hora lê. A caçula também gosta de escutar as histórias”, disse, acrescentando que o rendimento escolar de Rodrigo melhorou bastante.”

“Bilhete” de Mário Quintana foi o primeiro texto trabalhado por Kelly Perrout, no curso noturno, com sua turma do EJA – 2º e 3º anos. A escolha desta poesia seguiu alguns critérios: estar no livro didático, frases curtas para facilitar a assimilação e a reflexão pode ser relacionada à vivência do discente. De acordo com a professora, a questão da dor é muito forte para eles, são adultos. “Busco explicar-lhes que esta dor, de estarem sofrendo as consequências de situações adversas hoje, está relacionada com situações anteriores, que, muitas vezes, eles não tinham domínio. Em princípio, o fato de estarem aqui, monstra que estão caminhando, seguindo a vida.” Mas, para ela, o importante é que eles conheçam sua própria história; que possam desenvolver relatos biográficos; se reconhecer como cidadãos; protagonistas, com voz ativa. “É com isso que eu tenho de trabalhar. E, vai para além dos conteúdos.”


Por Sandra Martins
Escola Municipal Professora Maria de Lourdes Barbosa Santos
Rua Leite Ribeiro, 120 – Fonseca – Niterói/RJ
CEP: 24120-210
Tel.: (21) 3602-4150
E-mail: rozaneceu@gmail.com
Diretora-geral: Rozane Celeste da Silva Pereira
Fotos: Marcelo Ávila

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