Síndrome de Burnout: Adoecimento docente


O objetivo deste artigo é apresentar informações relevantes a respeito da síndrome de Burnout e sua incidência sobre os profissionais de educação. A importância desse tema se deve ao número cada vez maior de casos da síndrome entre essa categoria profissional, que devido a sua rotina de trabalho, se deparam com diversos estressores, alguns relacionados à natureza de suas funções, outros ao contexto institucional e social. Segundo dados oferecidos pela Confederação Nacional de Trabalhadores em Educação, através da sua página na internet, a síndrome foi detectada como a terceira maior causa de afastamento de profissionais de educação dos postos de trabalho em 2009.

Definição

A palavra Burnout origina-se do inglês to burn out, que significa queimar-se, de dentro para fora. Os profissionais ao serem acometidos por essa síndrome apresentam um sentimento crescente de desgaste, tanto de ordem física quanto emocional, acompanhados pela sensação de extrema baixa autoestima que irá influenciar sobremaneira sua vida profissional e pessoal.

A síndrome de Burnout foi descrita nos Estados Unidos, pelo psiquiatra Herbert Freudemberg em 1974 a partir da observação de desgaste no humor e na motivação de1 profissionais de saúde com os quais trabalhava. Foi ele quem primeiro designou a síndrome de Staff – Burnout. Anteriormente, outros termos, como alta exigência, astenia neurocirculatória e fadiga industrial, também foram relacionados a ela. Devido a sua associação ao ambiente laboral, o Burnout também pode ser denominado por desgaste profissional, síndrome do queimado ou síndrome do estresse do trabalho assistencial.

A definição mais usual do Burnout está baseada na perspectiva sociopsicológica de Christina Maslach (1986). A autora descreve a síndrome como o resultado de um processo de estresse laboral crônico, que resulta no desenvolvimento de um comportamento que se caracteriza, pela frieza e indiferença no trato com (aluno/cliente/usuário) e, mais à frente, a todas as esferas associadas à vida desse profissional. Conforme a referida perspectiva, variáveis socioambientais são determinantes para o desenvolvimento da síndrome, que pode ser avaliada a partir de três dimensões: Exaustão Emocional, Despersonalização e Baixa realização pessoal.

– Exaustão Emocional (sentimentos de desgaste emocional e esvaziamento afetivo);

– Despersonalização (reação negativa, insensibilidade ou afastamento excessivo do público que deveria receber os serviços ou cuidados do paciente);

– Falta realização pessoal no trabalho (sentimento de diminuição de competência e de sucesso no trabalho).

Além da perspectiva sociopsicológica, a Síndrome de Burnout ainda pode ser elucidada por meio de outras três concepções. São elas: clínica, organizacional e sócio-histórica. A perspectiva clínica é defendida por Freudenberger (1974), que sugere que o Burnout representa um estado de exaustão, resultado de um trabalho exaustivo que contribui para que o profissional deixe de lado as suas necessidades pessoais. Cherniss (1980) adota um ponto de vista organizacional e explica que os sintomas que compõem o Burnout são respostas a uma demanda de trabalho estressante, frustrante e monótona. E, por fim, na perspectiva sócio-histórica, defendida por Sarason (1983), pondera-se que, pelo fato de as condições sociais não canalizarem os interesses de uma pessoa para ajudar outra, torna-se difícil manter o comprometimento de servir aos demais no trabalho.

Sintomas

Quanto ao diagnóstico da Síndrome de Burnout, Guimarães e Cardoso (1999 apud CORNNELL, 1982) propõem um conjunto de sintomas, que são: físicos, de conduta e psicológicos.

Sintomas físicos são similares aos do estresse ocupacional, caracterizando-se por fadiga, sensação de exaustão, indiferença ou frieza, impressão de baixo rendimento profissional, frequentes dores de cabeça, distúrbios gastrointestinais, insônia e dificuldades respiratórias.

Sintomas de conduta se evidenciam sob a forma de certas alterações no comportamento que, usualmente, afetam os colegas, alunos e inclusive os próprios familiares.

Já os sintomas psicológicos se manifestam por meio de mudanças de comportamento, tais como: sentimento de impotência diante de situações da rotina de trabalho, agressividade, falta de atenção, aumento do absenteísmo, sentimento de responsabilidade exagerado, pouco entusiasmo, consumo de álcool e drogas como forma de minimizar os efeitos do cansaço e do esgotamento.

Incidência

A incidência do Burnout é predominante entre os profissionais que atuam em atividades assistenciais, onde a prestação de serviço e o contato interpessoal são muito intensos. As profissões comumente afetadas são: enfermagem, medicina, docência, entre outras. Além deste aspecto, a presença de grande envolvimento subjetivo com a profissão concorre definitivamente para a manifestação da síndrome. Segundo uma matéria da Folha de São Paulo (2010), Marilda Lipp declarou que o Burnout é a doença das pessoas idealistas, pessoas dedicadas demais ao trabalho que, ao descobrirem que nada daquilo pelo qual lutaram valeu a pena, adoecem.

Considerando a evolução dos casos de Burnout no trabalho docente, Codo (1999) explica que as atividades assistenciais detêm uma particularidade estrutural, que é a necessidade do investimento de energia afetiva, por parte do profissional para a conclusão de seus objetivos. Portanto, no caso da atividade docente, que se caracteriza pelo contato intenso com o alunado, se faz necessário que o professor estabeleça um vínculo afetivo com o seu trabalho para que possa efetivar suas atividades. Caso contrário, a deterioração dessa relação, devido ao desgaste diário, irá conduzi-lo a um sentimento de exaustão emocional, caracterizado pelo total esgotamento da energia física e mental, o que poderá resultar num sentimento de baixa realização pessoal no trabalho, caracterizado pela ausência do vínculo afetivo. Nestes termos, o aluno e todo o universo que compõe sua atividade profissional passam a ter um tratamento de objeto, descaracterizando totalmente a profissão.

É esta perda do sentido do trabalho que se constitui num dos principais fatores responsáveis pelos inúmeros casos de absenteísmo e afastamento do professor. Como aponta Malagris (2004, p.203) “…como o Burnout costuma surgir em áreas onde as pessoas têm mais aspirações, a frustração e a decepção são muito grandes, ocorrendo a perda do sentido no trabalho”.

Fatores Contribuintes

Os fatores que colaboram para o desenvolvimento da síndrome de Burnout entre os professores estão relacionados a condições gerais em que seu trabalho é executado, incluindo-se a falta de recursos materiais, prédios malconservados, salas de aula superlotadas, estresse tecnológico, bullying, assédio moral, baixos salários, renovações metodológicas, ausência de participação na elaboração das diretrizes escolares, movimento de inclusão de alunos portadores de necessidades educativas especiais, formação inadequada ou insuficiente, relacionamento com os pais dos alunos, sobrecarga e várias jornadas de trabalho, falta de reconhecimento profissional, problemas de disciplina e violência. Além destes aspectos, as características individuais, como perfeccionismo exagerado, história de vida e predisposições genéticas são determinantes para o desenvolvimento da síndrome.

Violência contra o Professor

A respeito do tema da violência, a literatura registra a ocorrência desses eventos em toda a sociedade, inclusive nas escolas. Os efeitos dos atos de violência observados nas instituições de ensino são: pichações de parede, móveis e banheiros; brigas entre alunos e atos de violência dirigidos contra o professor. Levy (2006), a partir dos resultados de sua análise empreendida junto a 119 professores da rede pública do Ensino Fundamental, verificou que o sentimento de ameaça experimentado pelo professor em sala de aula também pode favorecer o desenvolvimento da Síndrome de Burnout. Os resultados da pesquisa indicaram que 70,13% dos participantes apresentavam sintomas de Burnout, sendo que 85% deles se sentiam ameaçados em sala de aula.

Ainda sobre o tema da violência e o número crescente desses atos contra os professores, a página da Câmara dos Deputados na Internet publicou, no dia 15/04/2011, a aprovação pela Comissão de Seguridade Social e Família da proposta que objetiva a punição para estudantes que desrespeitarem professores ou infringirem regras éticas e de comportamento em instituições de ensino. De acordo com o Projeto de Lei 267/11, da deputada Cida Borghetti (PP-PR), o estudante infrator poderá sofrer suspensão e, no caso de reincidência, deverá ser encaminhado à autoridade judiciária competente.

Legislação

A síndrome de Burnout é considerada legalmente como um problema de ordem ocupacional. No Brasil, o Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, aprovou o Regulamento da Previdência Social e, em seu Anexo II, trata dos Agentes Patogênicos causadores de Doenças Profissionais. O item XII da tabela, de Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados com o Trabalho (Grupo V da Classificação Internacional das Doenças – CID-10), cita a “Sensação de Estar Acabado” (“Síndrome de Burnout”, “Síndrome do Esgotamento Profissional”) como sinônimos do Burnout, que, na CID-10, recebe o código Z73.0. Benevides-Pereira (2002) indica que essa legislação permite que portadores da síndrome tenham direito a licença médica e, em casos considerados mais graves, até a aposentadoria por invalidez.

Tratamento

O tratamento da síndrome de Burnout envolve ações associadas à psicoterapia, tratamento farmacológico e intervenções psicossociais. A psicoterapia é indicada mesmo nos casos em que são prescritos psicofármacos, pois o tratamento da síndrome de Burnout refere-se a um processo no qual o paciente necessitará de tempo para repensar e elaborar a sua inserção no seu ambiente de trabalho e na sua vida pessoal. Já o tratamento farmacológico se refere à prescrição de antidepressivos e/ou ansiolíticos, indicados por um especialista, de acordo com a presença e a intensidade dos sintomas depressivos e ansiosos. E por fim as intervenções psicossociais devem almejar mudanças institucionais e (ou) alterações comportamentais. Essas ações deverão se dar através de intervenções breves e objetivas, sempre levando em consideração os recursos internos do paciente e o levantamento dos fatores que contribuíram para o desenvolvimento da síndrome. O Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde – série A (2001) salienta para a importância de o profissional estar sob os cuidados de uma equipe multiprofissional, com abordagem interdisciplinar, a fim de obter suporte tanto para o seu sofrimento psíquico, como para os aspectos de caráter social e de intervenção no ambiente de trabalho.

Conclusão

Utilizando como referência a literatura e os resultados de pesquisas, foi possível constatar a presença de fatores determinantes para o desenvolvimento da Síndrome de Burnout entre os professores, tais como, a violência instalada no ambiente escolar, assédio moral, jornada de trabalho excessiva, baixos salários, falta de reconhecimento social, ausência de recursos para o desenvolvimento das aulas, formação inadequada para o atendimento das demandas educacionais na atualidade, entre outros.

Dessa forma, podemos concluir que o professor é um trabalhador sujeito a inúmeros infortúnios, em função das peculiaridades de sua atividade ocupacional, que a cada dia se torna mais desumanizada, por conta da desvalorização da profissão, dentre outros aspectos. Portanto, torna-se urgente a criação de novas estratégias de ação com o objetivo de propor serviços de caráter preventivo e de tratamento nas redes de ensino e na área de saúde do trabalhador, a fim de tornar o posto de trabalho docente mais humanizado sob os aspectos de saúde, higiene, segurança, bem-estar físico e mental e ocupacional, auxiliando os professores no manejo do Burnout, estendendo-se o benefício aos alunos, familiares e sociedade em geral.


Gisele Cristine Tenório de M. Levy é Dra. em Políticas Públicas, Msc. Educação, Professora Pós-graduação: A Vez do Mestre e Pesquisadora Nupi/Uerj.
Referências: Confederação Nacional de Trabalhadores em Educação – CNTE (2010). www.cnte.org.br/…/5293-sindrome-de-burn-out-e

1 Dra. em Políticas Públicas, Msc. Educação, Professora Pós-graduação: A Vez do Mestre e Pesquisadora Nupi/Uerj.


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