O batuque da sustentabilidade que ecoa da Mangueira
Projeto transforma óleo de cozinha em soluções sustentáveis, promovendo saneamento, geração de renda e impacto ambiental positivo na comunidade

Nem só de samba e das cores verde e rosa vive a comunidade da Mangueira. Um dos grandes desafios globais de 2026 e que prossegue pelos próximos anos é com relação a oferta, qualidade e tratamento dos resíduos da água. E temos uma iniciativa bem perto de nós e que está servindo de exemplo para o mundo.
Imortalizada na música pelas lendárias letras de Cartola, Mestre Cachaça e tantos outros poetas populares, essa comunidade carioca também se destaca como exemplo para construção de um mundo mais sustentável. A conscientização e engajamento da comunidade são fundamentais para que o “morro” carioca vire exemplo internacional também no engajamento ambiental.
A tecnologia social do projeto Omìayê, do Instituto Singular Ideias Inovadoras, já evitou a poluição de até 156 milhões de litros de água e tratou mais de 225 milhões de litros, a partir de soluções de biorremediação, com sabões, pastilhas e detergentes que integram conhecimento científico e a força de trabalho feminina local para a transformação do meio ambiente.
Em um cenário global marcado pela escassez de recursos hídricos e pelos impactos das mudanças climáticas, iniciativas enraizadas nos territórios demonstram que a transformação também se constrói a partir do cotidiano. Na Mangueira, o enfrentamento de desafios históricos relacionados ao saneamento básico tem gerado resultados mensuráveis, com impacto direto na qualidade da água e na saúde ambiental.
Um único litro de óleo pode contaminar milhares de litros de água, mas, na Mangueira, esse resíduo torna-se o combustível de uma economia circular. “Na Mangueira, três milhões de litros de esgoto são despejados diariamente sem qualquer tratamento, e o óleo de cozinha descartado nas pias agrava esse cenário de forma silenciosa. Tendo isso em vista, desenvolvemos uma tecnologia social que transforma o próprio resíduo em instrumento de tratamento da água, por meio de bioprodutos que carregam microrganismos capazes de realizar a biorremediação dos efluentes. Os 156 milhões de litros de água preservados até aqui demonstram que soluções construídas dentro das comunidades, com base científica e protagonismo das pessoas que vivem o problema, podem gerar resultados concretos diante de desafios que historicamente foram negligenciados pelo poder público”, explica Gabriel Pizoeiro, diretor do Instituto Singular.
Ao coletar mais de 6.250 litros de óleo usado, o projeto evitou a poluição de aproximadamente 156 milhões de litros de água, volume que equivale a 62 piscinas olímpicas. O material coletado é processado em uma ecofábrica local, operada por mulheres da comunidade, que, ao transformar o poluente em produtos de limpeza ecológicos, evita que esse impacto se multiplique, protegendo redes de esgoto, rios e o abastecimento urbano.
Um dos processos centrais da iniciativa é a produção de sabão ecológico a partir do óleo de cozinha reutilizado. Esse produto evita que o resíduo seja descartado na rede de esgoto e contribui para a limpeza, ao atuar na remoção de impurezas sem gerar carga poluente adicional. Produzido pelas próprias moradoras da comunidade, o sabão é distribuído gratuitamente para famílias da Mangueira, ampliando o acesso a itens de higiene e fortalecendo práticas sustentáveis no dia a dia. Ao mesmo tempo em que limpa e reduz o impacto ambiental, a ecofábrica local gera emprego e renda para mães e moradoras da comunidade.
Outro eixo central é o uso de microrganismos no tratamento de esgoto doméstico, uma solução desenvolvida em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), de baixo custo, fácil replicação e que contribui para a redução de odores. Essa abordagem evidencia o potencial das tecnologias de biorremediação como aliadas na ampliação do acesso ao saneamento, especialmente em áreas urbanas densas e historicamente negligenciadas.
Alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a iniciativa dialoga diretamente com o ODS 6, ao promover água limpa e saneamento; com o ODS 3, ao impactar a saúde da população; com o ODS 11, ao fortalecer comunidades sustentáveis; e com o ODS 13, ao contribuir para ações de enfrentamento às mudanças climáticas.
* Luiz André Ferreira é professor universitário, jornalista, apresentador e podcaster. Mestre em Projetos Socioambientais, Bens Culturais e Designer Educacional.
Obs.: Toda a informação contida no artigo é de responsabilidade do autor.












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