Educação financeira: como falar sobre dinheiro com crianças e adolescentes

Especialistas explicam como abordar o tema de forma prática, lúdica e adequada da infância ao Ensino Médio


Especialistas explicam como famílias podem abordar o tema de forma prática, lúdica e adequada à idade, da Educação Infantil ao Ensino Médio. Falar sobre dinheiro ainda é um tabu para muitos brasileiros, o que talvez explique as altas taxas de endividamento das famílias no Brasil: em outubro de 2025, 79,5% das famílias tinham algum tipo de dívida a vencer, segundo a série histórica medida pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 

Para mudar esse cenário, educadores são unânimes ao afirmar que a educação financeira deve começar cedo, desde a primeira infância até a adolescência, conforme o indivíduo cresce e se desenvolve. Mais do que ensinar a economizar, a educação financeira na infância e na adolescência envolve conversar sobre escolhas, limites, desejos e consequências. 

O modo como pais e responsáveis abordam o tema pode influenciar diretamente a relação dos jovens com consumo, planejamento, autonomia e responsabilidade no futuro. Segundo especialistas, quando o assunto é tratado de forma natural, prática e alinhada à fase de desenvolvimento do estudante, torna-se uma poderosa ferramenta de aprendizagem para a vida. 

A seguir, quatro docentes explicam como abordar o tema em cada etapa da Educação Básica. 

 

Educação Infantil (3 a 5 anos): dinheiro como parte do cotidiano e das brincadeiras

Na primeira infância, o objetivo não é falar sobre valores, orçamento ou poupança, mas ajudar a criança a entender noções básicas como troca, escolha e espera. Brincadeiras simbólicas, jogos e situações do dia a dia são grandes aliados nesse processo. 

“Crianças pequenas aprendem observando e brincando. Quando os adultos incluem o dinheiro nas conversas do cotidiano, como no supermercado ou em jogos de faz de conta, elas começam a compreender que os recursos são limitados e que fazemos escolhas”, explica Renato Shiotuqui Pereira, professor de matemática do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP). 

Segundo o educador, brincadeiras como simular um mercadinho, poupar usando cofres coloridos ou contar histórias infantis que abordem consumo e partilha ajudam a construir uma relação saudável com o tema. “O aprendizado é menos sobre economizar, e mais sobre dar significado ao dinheiro. Quando a criança entende que nem tudo pode ser comprado imediatamente, ela aprende a lidar com frustrações e expectativas”, destaca Shiotuqui. 

 

Ensino Fundamental I (6 a 10 anos): aprendendo a poupar, planejar e fazer escolhas

Quando chegam ao Ensino Fundamental I, as crianças já conseguem compreender conceitos mais concretos, como poupar, comparar preços e definir pequenas metas. É nessa fase que a educação financeira pode se tornar mais prática e participativa. 

“Essa é uma idade excelente para introduzir o hábito da mesada, sempre acompanhada de conversa e orientação”, afirma Cristine Tolizano, professora de matemática da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP). “O importante não é o valor, mas ensinar a criança a planejar o uso do dinheiro, fazer escolhas e lidar com as consequências delas”. 

A docente reforça que envolver os filhos em decisões simples, como planejar um passeio ou escolher um brinquedo após economizar por um período, fortalece a autonomia. “Quando a criança participa, ela aprende que o dinheiro não é algo abstrato, mas um recurso que exige organização e responsabilidade”, completa Cristine. 

 

Ensino Fundamental II (11 a 14 anos): consumo consciente e responsabilidade

Durante a pré-adolescência e começo da adolescência, o consumo passa a ter um forte apelo social. Desejos por marcas, tecnologia e pertencimento tornam as conversas sobre dinheiro ainda mais necessárias e delicadas. 

“Nessa fase, é fundamental falar sobre consumo consciente e sobre a influência das redes sociais no comportamento consumista”, explica a coordenadora pedagógica da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri/SP, Juliana Nico. “O adolescente precisa entender que muitas decisões de compra são impulsionadas por comparação e pressão externa, nem sempre por necessidade ou desejos genuínos”. 

Atividades como planejar compras importantes, discutir o impacto da publicidade no subconsciente e estabelecer combinados sobre gastos também são estratégias recomendadas pelos especialistas. 

Segundo Juliana, incluir os jovens em conversas sobre orçamento familiar, prioridades e planejamento ajuda a desenvolver senso crítico. “Não se trata de expor problemas financeiros, mas de mostrar como as escolhas são feitas. Isso contribui para que o adolescente se torne mais responsável e empático”, completa. 

 

Ensino Médio (15 a 17 anos): autonomia financeira e preparação para a vida adulta

No Ensino Médio, a educação financeira ganha um caráter ainda mais estratégico. Muitos jovens começam a lidar com dinheiro próprio, seja por meio de estágios, trabalhos temporários ou mesadas maiores, além de se prepararem para decisões importantes sobre o futuro. Conversas sobre faculdade, carreira, custo de vida e independência financeira ajudam a tornar o tema mais concreto e conectado à realidade do jovem. 

“Esse é o momento de falar sobre planejamento de médio e longo prazo, orçamento pessoal e até noções básicas de investimentos”, explica Beatriz Aoki, professora de Educação Financeira do colégio Progresso Bilíngue de Campinas (SP). “A juventude se apropria da ideia de que cada escolha financeira tem um impacto”. 

Para a educadora, estimular o protagonismo é essencial. “Quando o adolescente aprende a organizar seus gastos, ter consciência da importância do autocontrole e da autorresponsabilidade, consegue pensar no futuro com intenção e passa a ter mais equilíbrio, se sentindo mais preparado para a vida adulta. O envolvimento da família tem um valor imenso nessa orientação”, conclui. 


Fonte: International Schools Partnership (ISP), um grupo internacional presente em 25 países, com 109 escolas privadas e mais de 92.500 estudantes em todo o mundo. A ISP apoia e capacita as instituições de ensino, desenvolvendo novos padrões de excelência em educação, para transformar as escolas em referência em suas comunidades locais e no setor educacional global. Para mais informações, acesse o site. 

Obs.: Toda a informação contida no artigo é de responsabilidade do autor. 


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