Respirando poesia


Recursos linguísticos são ferramentas na contextualização dos gêneros literários

Muito mais do que palavras, a poesia estimula cada sentido, nos transportando para um outro plano, aguçando as nossas percepções e a forma como absorvemos a realidade. Por meio de recursos linguísticos e estéticos, esse gênero literário pode e deve ser explorado nas escolas em toda a sua potencialidade. No Centro de Educação e Cultura da Barra (CEC), alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio participam anualmente de um projeto que os faz respirar poesia. Trata-se dos Momentos Poéticos. Durante quatro dias, cada turma apresentou à comunidade escolar os resultados dos trabalhos desenvolvidos durante dois meses.

A Educação Infantil desenvolveu a atividade partindo de uma analogia entre a poesia e um brinquedo cuja ludicidade é movida pelo vento e pela imaginação. “A poesia é o catavento que os poetas têm e oferecem aos seus leitores para que possam guiar-se melhor pelos caminhos da vida. A poesia lúdica foi a ferramenta mestra no desenvolvimento do projeto e atendeu à proposta de desabrochar sentimentos”, justifica a coordenadora do segmento, Glória Vasconcelos. Enquanto as turmas do Berçário e do Maternal I trabalharam as cantigas de roda, o Maternal II brincou com trechos da obra de Cecília Meireles, através de dinâmicas cantadas e ilustradas.

Já o Pré-1 seguiu os ventos que sopraram para as obras de Vinícius de Moraes. A partir dos poemas “O girassol” e “A porta”, as crianças exploraram diferentes possibilidades de aprendizagem. Os alunos do Pré-2 fizeram releituras baseadas em dois trabalhos de Rubem Alves, que têm como tema o jardim. No dia da culminância, no teatro da escola, as turmas declamaram poesias e reproduziram um pouco do que aprenderam ao longo da atividade. As atividades de todo o segmento foram contextualizadas com o projeto Dona Árvore, que objetiva proporcionar às crianças uma convivência de respeito à natureza. Ao longo do ano, as turmas aprendem a importância das árvores, descobrem como elas promovem a saúde dos solos e como suas raízes evitam a erosão. Também fazem analogias com a árvore da vida e, por fim, chegam à árvore familiar.

As turmas do Fundamental I viajaram pelo Brasil e conheceram a fundo o trabalho de alguns poetas de cada região do país. Para as coordenadoras Regina Basto e Denise Melo, os Momentos Poéticos representaram um valor pedagógico muito significativo, pois as atividades não ficaram restritas à culminância. “O projeto foi vivenciado em todas as etapas. Cada turma e seus professores partiram de uma metodologia que teve início com uma pesquisa sobre os escritores de cada região, o que possibilitou o contato com obras de vários autores. Na etapa seguinte, as professoras organizaram uma votação entre os alunos para definir qual dos poetas pesquisados representaria a turma”, conta Regina. O 1º ano abordou a região Sudeste e os poetas selecionados pelas crianças foram Cecília Meireles, José Paulo Paes e Carlos Drummond de Andrade. As obras escolhidas pela turma serviram como referência em diversas atividades didáticas: no espaço de Robótica, com montagens de Lego, as crianças reproduziram cenários dos poemas escolhidos; na sala de Artes, elas recriaram personagens e, na de Tecnologia, produziram uma biografia animada. “Na classe, também fizemos uma brincadeira com o poema de Cecília Meireles “Jogo de Bola”. A turma foi desafiada a criar novos personagens e adaptar todo o texto, tendo o foco na rima e nas cores. Foi um desafio grande que mexeu com todos”, destaca a professora Viviane Rodrigues de Araújo.

Além de trabalhar a ampliação do vocabulário e a produção textual, os alunos também produziram esquetes inspirados nos poemas dos autores estudados

Para representar a Região Sul, os alunos do 2º ano escolheram os poemas de Mário Quintana “Deficiências” e “Canção de domingo”. Baseados nos originais, eles participaram de atividades de ortografia, estabeleceram relações de coerência e coesão textuais e produziram releituras. “A poesia foi abordada de uma forma profunda, provocando o pensar, o refletir e o filosofar”, aponta a professora Eliane Cristina. As duas turmas do 3º ano ficaram com a Região Nordeste. Cada uma delas definiu um autor: Manuel Bandeira e Jorge Amado. Do primeiro, o poema selecionado pelos alunos foi “Trem de ferro”. Do segundo, “O gato malhado e a andorinha sinhá”. Além de trabalhar a ampliação do vocabulário e da produção textual, a professora Viviane Bartholo aproveitou o projeto para abordar conteúdos de História e Geografia da região. Os alunos também produziram esquetes inspirados nos poemas dos dois autores.

As turmas do 4º ano optaram pelo escritor Milton Hatoum para representar a Região Norte. O texto escolhido pelos alunos aborda a tragédia ocorrida no Rio Doce, em Mariana, Minas Gerais. Segundo as professoras Bianca Theobald e Luana Weber, a poesia despertou a atenção dos alunos para os problemas ambientais e todos produziram releituras bastante reflexivas e antenadas com a realidade. O 5º ano enfocou os poetas do Centro-Oeste, e Cora Coralina foi a preferida dos alunos para representar a região. Eles fizeram releituras baseadas nos poemas “Minha cidade” e “Assim eu vejo a vida”. Além da produção de textos autorais, eles prepararam para o dia da apresentação uma canção em homenagem à poetisa. “Cada um fez a sua parte com extrema competência. Tudo que eles criaram e aprenderam em sala de aula foi levado ao palco do teatro. Foi praticamente uma aula pública”, aponta a professora Amanda Matos.

As turmas do Fundamental II também despertaram diferentes sensações no público que assistiu às apresentações no teatro da escola. A proposta do 6º ano foi pautada no tema “Um motivo para sorrir”. A partir de um conjunto de observações, os alunos deram um basta poético a tudo de ruim. “Eles produziram poemas que clamavam por um fim à violência, à discriminação e à miséria. No fechamento, disseram o que almejam para ter motivos para sorrir”, justifica a professora de Língua Portuguesa e Oficina Literária, Sourane Duarte. O 7º ano desenvolveu trabalhos em que a razão, a emoção e o equilíbrio foram colocados em discussão. Ao final, os estudantes chegaram à conclusão de que a harmonia desses dois polos – razão e emoção – faz com que o homem viva melhor. “Foram muitas produções textuais e vídeos, os quais possibilitaram uma imersão no universo abordado”, destaca a professora. O 8º ano, com trabalhos baseados na obra do autor austríaco Rainer Maria Rilke, trabalhou com o tema “A poesia acorda e o mundo desperta”. A proposta foi mergulhar nos questionamentos que cada um tem dentro de si, provocando um diálogo entre o eu poético das obras e os vários eus que habitam o interior das pessoas. “Nesse projeto, a poesia foi elevada ao seu grau mais profundo. O que vimos no teatro foram apresentações de esquetes que mexeram com as emoções de toda a comunidade escolar”, complementa a coordenadora Rita Carvalheira.

Durante quatro dias, cada turma apresentou à comunidade escolar os resultados dos trabalhos desenvolvidos durante dois meses

Os alunos do 9º ano exploraram o tema “Ilhas” para falar não apenas de paisagens geográficas mas, principalmente, através da linguagem metafórica, lançar um olhar para a existência humana, provocando uma reflexão sobre a relação com o outro e com o mundo. O tema motivador de todo o Ensino Médio foi “A poesia e seus diversos diálogos”. Na primeira série, os estudantes mostraram como o tempo é retratado pela poesia, através de um passeio pelos anos 1960, 70, 80, e refletiram sobre a questão da infância e da maturidade.

No 2º ano a poesia visitou as diversas áreas do conhecimento, como a Química, a Matemática e a própria História, aliando “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, à Revolta de Canudos. A 3ª série retratou o diálogo da poesia com as diversas áreas artísticas, como o teatro, a música e a dança. “Este trabalho estabeleceu uma dialogicidade entre o tempo, as manifestações culturais e as áreas do conhecimento. Mas o mais importante foi a união da poesia, do teatro e da construção do saber, nessa escola que promove esse mosaico de emoções e de manifestações artísticas. Esse projeto é a prova de que a poesia vive e está sempre tangenciando a nossa alma”, afirma o professor de Literatura, Mauro Ferreira.

“Esse projeto é uma das mais belas experiências vividas na nossa escola. Os Momentos Poéticos possibilitam que a poesia transite por todos os caminhos. Ela toca os sentidos, aflora os nossos sentimentos, potencializa a nossa sensibilidade, relacionando o pensar e o agir numa sedutora brincadeira de palavras. O nosso objetivo é atingido quando envolvemos toda a escola nessa possibilidade de libertar a expressão e a criação, deixando fluir a imaginação”, finaliza a diretora pedagógica Cármina Santos Mattos.


Por Tony Carvalho
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