Resgatando a história


Em todo o Brasil um número considerável de escolas se depara com uma realidade: grande parte dos alunos não sabe a história da sua comunidade, do seu município e até mesmo do seu estado. Para muitos estudiosos, conhecer, entender, respeitar e preservar as raízes da comunidade em que vivem são requisitos fundamentais para fortalecer a própria identidade. E foi buscando estreitar os laços entre alunos e a comunidade em que está inserido que o Colégio Padre Anchieta desenvolveu um projeto de resgate da história da Baixada Fluminense. A unidade escolar fica localizada no Parque Paulista, um dos bairros que compõem o terceiro distrito de Duque de Caxias.

A ideia do projeto nasceu ainda no início das atividades escolares, durante as primeiras reuniões pedagógicas, quando professores de Geografia e História demonstraram interesse em trabalhar o tema. Com a ideia aprovada, a direção da escola convidou a professora e pesquisadora Marlúcia Santos de Souza para ministrar uma atividade de formação continuada. Ela é uma das ativistas da linha de frente, que vem pesquisando e difundindo ferramentas importantes para se entender a região hoje. A partir daí, os professores definiram os subtemas e passaram a trabalhar com as 24 turmas do segundo segmento dos ensinos Fundamental e Médio. Cada turma teve um professor-orientador e outro auxiliar.

Após mais de dois meses de pesquisa e de produção, o projeto chegou à culminância, que foi realizada em quatro dias. A turma 601 trabalhou com o subtema “Baixada, um olhar diferenciado”, sob orientação da professora de Geografia Márcia Franco. Segundo ela, tudo começou com a elaboração de textos a partir de fotos do bairro e do entorno de onde os estudantes moram. Eles trabalharam a questão da paisagem (categoria geográfica que consiste em observar as transformações no espaço em decorrência das atividades humanas na natureza). “Eu procurei estimular o aluno a buscar um olhar diferenciado do local onde mora, salientando que essa valorização do espaço deve começar a partir deles mesmos. Com isso, estudamos a história da Baixada relacionada ao lugar de cada um”, justifica a professora.

Um grupo focou a pesquisa na educação do município, visitando a primeira escola da Baixada e traçando uma relação entre a história da região como um todo e a do seu bairro. “A valorização do espaço é fundamental para que se abram janelas e, assim, desenvolvam uma visão mais crítica, não se deixando levar pelas coisas que já chegam prontas para eles. É necessário que aprendam a olhar com os seus olhos e, a partir daí, procurem enxergar o que há por trás das paisagens”, aponta. O aluno Carlos Roberto Nicolau, da turma 601, pesquisou sobre as reservas ambientais de Duque de Caxias: “Nós temos 1 milhão e meio de metros quadrados de riqueza em fauna e flora. O Monte Equitativa é uma região que está sendo desmatada e que precisa de cuidado ambiental”, alerta.

As professoras Priscila Halliday, de Ciências, e Luzia Torres, de Língua Inglesa, acompanharam os trabalhos da turma 701, que abordou o tema “Violência e propostas de construção da paz”. A classe dividiu a abordagem em vários tipos de violência: a doméstica, na escola, no trânsito e na política. “São cenas que fazem parte do cotidiano desses jovens. Tratar do tema propicia a reflexão e permite que eles possam expressar os seus sentimentos”, afirma a professora Luzia. “Eles têm um olhar e, alguns, uma vivência sobre o assunto. O projeto também faz com reflitam sobre como têm agido com as outras pessoas”, complementa Priscila. A aluna Melissa Hartmann e mais seis colegas ficaram encarregadas de falar sobre o que acontece no âmbito doméstico. “Graças à pesquisa que fizemos, descobri que existe a delegacia da mulher. Também fiquei surpresa quando vi que 30% delas acreditam que as leis do país não são capazes de protegê-las da violência. É um tema preocupante, mas é importante que a gente possa refletir e tentar conscientizar a população para tentar mudar essa realidade”, desabafou.

A culinária foi o foco da turma 802. A professora de Ciências Susana Sathler ficou encarregada de orientar os trabalhos. Os estudantes fizeram uma pesquisa entre lanchonetes e food trucks do bairro para saber quais os lanches mais consumidos pela população local. No dia da apresentação, eles reproduziram um espaço gastronômico em que os visitantes puderam degustar alguns desses petiscos. Já a 901, orientada pela professora Lindalva Coutinho, de História, apostou na pesquisa sobre nomes de ruas do bairro. A aluna Thaiz Ribeiro e seus colegas de equipe ficaram com algumas delas, como a Capivara. “Muita gente não sabe, mas esse nome foi dado porque havia muitos exemplares desses animais no rio que fica próximo à rua”, exemplifica.

A turma 1.004 desenvolveu o tema “Crias Caxienses”, orientada pelas professoras Solange Leiros, de Língua Portuguesa, e Elaine Marinho, de Matemática. Os alunos pesquisaram nomes de personalidades da música, do esporte e de outros segmentos da sociedade que são oriundos da Baixada. Em seguida, produziram um jornal bem descontraído. “A proposta foi incentivá-los a usar a própria linguagem cibernética com que estão acostumados a se comunicar nas mídias sociais. Eles trabalharam em cima da biografia de personalidades e foram montando o jornal”, explica Solange. Para Elaine, projetos como esse fazem os jovens se sentirem estimulados a apostar nas suas aptidões e investir nos seus sonhos: “Infelizmente, muitos deles ainda se veem sem perspectiva de um projeto de vida. Mas quando descobrem que tanta gente conseguiu vencer, isso provoca uma ruptura nesse pensamento negativo e surgem novos estímulos para caminhar”, afirma.

As turmas do 3º turno foram todas envolvidas na produção de um trabalho originado a partir do documentário “Lixo extraordinário”, que fala sobre o Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, atualmente desativado. O curta relata o trabalho de catadores de material reciclável e a transformação em obras de arte. Baseados nesse trabalho, os alunos entrevistaram moradores das proximidades do antigo lixão para saber o que mudou na vida deles. Os estudantes também empregaram reciclados para confeccionar peças decorativas e ainda fizeram uma horta utilizando garrafas pet. Kelly Moreira é funcionária da escola e mãe da aluna Layane Cristina, da turma 2.005. Ela participou da atividade com materiais reciclados, com Leni da Silva, que também trabalha na instituição. Juntas, elas deram suas contribuições na feitura das peças decorativas. “É gratificante. A gente ajuda e, depois do trabalho pronto, todos vibramos com os resultados”, garante Kelly.

Para o diretor-geral da unidade, professor Renan Oliveira, o projeto atingiu os objetivos estabelecidos, pois despertou no aluno um novo olhar para o que está a sua volta: “O projeto foi pensado com o intuito de propiciar ao estudante a valorização da identidade local. Fazê-lo se reconhecer como pertencente a este espaço, conhecedor do patrimônio, dos valores culturais, sociais e naturais. Somente assim, fazendo parte desse processo como um cidadão pleno, crítico e consciente, ele poderá ser capaz de transformar essa realidade em algo melhor.


Por Tony Carvalho
Colégio Estadual Padre Anchieta
Av. Trinta e Um de Março, s/nº – Parque Paulista – Duque de Caxias/RJ
CEP: 25261-000
Tel.: (21) 3666-1278
E-mail: cepadreanchieta@hotmail.com
Diretor-geral: Renan Oliveira
Fotos: Tony Carvalho

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