Outras maneiras criativas de desenvolver o nosso idioma


Retomando o assunto iniciado na edição anterior, continuamos abordando outras formas de introduzir inovações, que desenvolvem e enriquecem a nossa língua. Como vimos anteriormente, trata-se de processos que funcionam a partir da dinâmica presente no uso do idioma, porém contando sempre com a preciosa contribuição da criatividade dos falantes.

O primeiro caso que vamos observar hoje é o jargão, que pode ser definido como um conjunto de palavras ou expressões próprias de um determinado segmento. Veja exemplos.

Penteou a redonda antes de empurrar pro fundo do barbante.

O candidato afirmou que na situação fiscal não cabia mexer no tripé macroeconômico.

Nas duas sentenças acima, fica bem claro que é preciso conhecer o significado de alguns termos específicos para poder compreender o texto. Como nos exemplos acima trata-se de áreas muito presentes do dia a dia dos brasileiros (o “futebolês” e o “economês”), pode-se dizer que todo mundo – e não apenas aqueles mais envolvidos – consegue mais ou menos penetrar no sentido das orações. Essa aliás é uma das características do jargão: mesmo sendo parte de um contexto específico, tem o poder de introduzir inovações na língua como um todo.

Um outro interessante caso de inovações na língua são os clichês. Trata-se de palavras ou expressões que de tão usadas adquirem uma espécie de sentido próprio, de modo que é possível “encaixá-las” nos mais diversos contextos. Veja.

A laje do pedreiro não resistiu à chuva, afinal em casa de ferreiro, espeto de pau.

Há algo de podre no reino da Dinamarca, pois aquela história não foi bem contada.

Na frase destacada no primeiro caso temos um provérbio muito popular entre nós, enquanto no segundo exemplo foi empregada uma frase de um personagem da peça Hamlet, de Willian Shakeaspeare. Mesmo que você não faça ideia de quem é o citado ferreiro ou jamais tenha assistido uma montagem do autor inglês, é capaz, como falante, de compreender a intenção de quem enunciou a frase. É assim que funcionam os clichês.

O último caso que vamos abordar no texto de hoje é a paródia, uma figura de linguagem muito empregada em textos literários, mas de grande alcance na comunicação cotidiana. Nesse caso, quem enuncia altera, quase sempre de forma irreverente, uma palavra ou expressão muito utilizada, com a finalidade de criar ou enfatizar um determinado sentido. Observe nas sentenças abaixo que a paródia dialoga com outras expressões bem conhecidas.

A pressa é inimiga da conexão.

Você lembrou do famoso “A pressa é inimiga da perfeição”, certo? A paródia em tempos de tecnologia “brinca” com a ansiedade de acessar a grande rede que quase todo mundo tem.

Deu errado porque usou o olhômetro em vez da técnica.

A paródia nesse caso cria um novo termo, se referindo a um suposto método de medição adotado por quem por ventura resolver usar a intuição no lugar do conhecimento objetivo.

Finalizamos esse artigo, com a descontração – e a genialidade – de grandes mestres brasileiros na arte de criar fatos linguísticos através da paródia. Até a próxima, pessoal!

Na televisão nada se cria, tudo se copia (Chacrinha).

Aja duas vezes antes de pensar (Chico Buarque).

De onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada (Barão de Itararé).

O Brasil tem um grande passado pela frente

(Millor Fernandes).


Por Sandro Gomes
*Graduado em Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa, Revisor da Revista Appai Educar, colunista da Appai, Escritor e Mestre em Literatura Brasileira.

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