O povo judeu pelo planeta


A sinagoga Kahal zur Israel no centro histórico do Recife, o primeiro templo judaico das Américas.

Em toda a história da humanidade talvez nenhum outro povo tenha tido com tanta intensidade a experiência de viver disperso por vários lugares diferentes do planeta como os judeus. Historiadores estimam que teriam migrado para mais de cem países nos seus mais de quatro mil anos de tradição, apesar de curiosamente terem em sua história a designação de habitarem uma terra determinada, apontada pelo seu próprio deus. Consequentemente têm experimentado como nenhum outro povo a experiência de viver como minoria.

A saga judaica pelo mundo, conhecida como diáspora, tem início no século VI a. C., quando o templo de Salomão – uma de suas maiores referências – é destruído pelo temido rei Nabucodonosor II, o que os obriga a viver submissos na Babilônia. Desde então, muitos conflitos, fugas, perseguições, culminando com a crueldade do Holocausto na Europa do século XX.

Mas seria exatamente nesse primeiro grande exílio que a força do judaísmo começaria a florescer. Muitas das práticas que se incorporariam profundamente a essa cultura teriam início nas quase cinco décadas em que passaram a viver no seio de uma sociedade tão diferente como a babilônica. Foi nesse momento que se solidificou o shabbat, o dia semanal dedicado ao descanso e à reflexão religiosa, e também a circuncisão, importante instrumento para estabelecer a diferença em relação a outros povos.

São também desse período a definição do calendário judaico, fruto da influência da astrologia praticada na Babilônia, e a instituição do Pessach, a páscoa dos judeus, que comemora a saída do Egito, quando então se organizam como nação, sob a liderança de Moisés. Foi também nesse exílio que ocorreu a atividade de profética de importantes vultos da religiosidade judaica, como Jeremias e Daniel.

Em torno de 50 anos depois do exílio babilônico, os judeus recebem de Ciro, rei da Pérsia, a permissão para voltar a seu território de origem, mas um número grande resolve permanecer na Babilônia, que acabaria se firmando como um grande centro de cultura judaica, ainda por muito tempo. Os que voltaram para casa, na região hoje conhecida como Palestina, começaram a reconstrução do templo destruído quando da invasão de Nabucodonosor.

No século I a. C. uma nova página é escrita, quando as tropas de Pompeu invadem a Judeia e a decretam como uma província do império Romano, numa dominação que perduraria por mais de quatro séculos. Em 70 d. C. uma grande rebelião tem consequências drásticas para os judeus, com o templo de Salomão sendo novamente destruído e iniciando-se aí uma nova diáspora, agora se expandido pelos outros continentes do Velho Mundo.

A religião judaica, que já era bastante perseguida pelos romanos, que não toleravam a sua insistência em manter-se diferenciada dos credos oficiais (diferentemente do que aconteceria com outros povos anexados), tinha agora o desafio de se fazer aceita em várias culturas com as quais passaria a habitar, o contrário do que ocorreria no período babilônico, quando puderam se desenvolver com relativa dose de liberdade.

No século IV a situação dos judeus nas possessões romanas ficaria ainda mais complicada com a conversão do império ao cristianismo. Sofreriam muitas restrições, como não poder contrair núpcias com não judeus e serem impedidos de ocupar qualquer cargo ou função pública. O ponto mais alto das perseguições cristãs viria no ano 325 d.C., quando o Concílio de Niceia chegaria à conclusão de que os judeus eram os responsáveis pela crucificação de Jesus. Nessa difícil situação atravessariam o primeiro milênio medieval, sendo associados a muitos mitos e lendas, como o de que tinham pactos com o demônio ou possuíam dons sobrenaturais.

Em torno do século IX a cultura judaica já há muitos séculos instalada na Babilônia começa a declinar, o que leva muitos judeus a buscar melhores condições de vida em outras partes do planeta. Ao chegarem a certas regiões da África, têm contato com povos árabes, a maior parte já islamizada. Nas possessões dos chamados “mouros” conseguiriam se estabelecer com relativa liberdade, sobretudo por alguns traços de identidade, como o talento para as atividades comerciais e a habilidade em produzir objetos artesanais.

À medida que os povos de cultura islâmica se expandem pela Europa, os judeus vão aos poucos conseguindo espaço no novo continente, onde acabam exercendo bastante influência, sobretudo na Península Ibérica. Ali se estabelecem por muito tempo e dão origem ao chamado judaísmo sefardita, que mais tarde se espalharia para outros lugares.

Durante três séculos, do X ao XII, os judeus convivem em relativa harmonia com povos muçulmanos, podendo praticar seus cultos sem maiores restrições, apesar de não gozarem de todos os direitos reservados aos seguidores do Islã. Só a partir do século XIII, quando começam a ser novamente suplantados pelo cristianismo na Europa, é que os muçulmanos iniciam a perseguição os judeus, lançando-os à faina de intolerância então assumida dos cristãos. Pelos séculos seguintes a intolerância só aumentaria com os surtos inquisitoriais promovidos pela igreja Católica.

Com a chagada dos europeus à América, no século XVI, os judeus iniciavam um novo capítulo de sua diáspora, de alguma forma também partilhando da perspectiva europeia de que o Novo Mundo poderia ser uma terra de recomeço, onde as perseguições não existissem. O Brasil estaria entre os lugares que mais receberiam judeus corridos da hostilidade na Europa. Alguns historiadores chegariam a afirmar que, nos primeiros cinquenta anos de presença portuguesa, três entre quatro habitantes da colônia eram de origem judaica, os chamados “cristãos novos”, por assumirem, pelo menos de forma exterior, a religião cristã.

Ao longo dos muitos séculos de estada na Europa, os judeus foram alvo de muitas perseguições e restrições, não só aos sefarditas, como também aos chamados ashkenazim, que haviam se fixado no Vale do Reno, entre a França e a Alemanha desde o século VIII. Apenas por alguns momentos gozaram de relativa paz, como no período de convívio com árabes da Europa já citado acima, e nos anos posteriores à revolução Francesa, quando tiveram reconhecidos por algum tempo alguns importantes direitos de cidadania.

O ponto culminante do judaísmo na Europa seria sem dúvida a tragédia do Holocausto, que foi também uma das maiores perseguições sofridas pelo povo judeu na longa aventura de sua diáspora pelo planeta e que acabou tornando necessária uma iniciativa como a que culminou na fundação do Estado de Israel, em 1948.

Apesar de frequentemente acusados de se manterem à parte na convivência com os povos que os acolhem, o que serviria de pretexto para muitas perseguições, os judeus envolvidos nas várias levas migratórias ao longo dos seus quatro milênios sofreram diversas influências dos contextos em que passaram a viver. Os judeus da Etiópia são um bom exemplo. Teriam chegado lá ainda no tempo de Salomão e sequer utilizavam a língua hebraica, adotando idiomas com os quais só tiveram contato posteriormente.

Outra demonstração de integração benéfica a novos contextos está na própria Europa, com a atuação de judeus que, inseridos no contexto cristão, deixaram contribuições que revolucionaram as próprias visões de mundo e o sentido do conhecimento no Ocidente, como Sigmund Freud e Albert Einstein, entre vários outros que se poderia citar.

Leia também: “A cultura árabe-islâmica e o estigma da intolerância”


Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.


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