O Museu Nacional como uma fênix


As peças da instituição científica mais antiga do Brasil aos poucos ressurgem das cinzas

O Museu Nacional é a mais antiga instituição científica do Brasil voltada à pesquisa e à memória da produção do conhecimento, sendo atualmente vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua história remonta aos tempos da fundação do Museu Real por D. João VI, em 1818, criado com o principal objetivo de propagar o conhecimento e o estudo das ciências naturais em terras brasileiras. Hoje, é reconhecido como um centro de excelência de pesquisa em história natural e antropológica na América Latina. A Appai, através do Benefício Passeio Cultural, realizou diversas vezes o roteiro que levava seu quadro associativo a apreciar as belezas naturais do Museu.

 

Cinzas de uma história

Em um momento de descontração, os associados da Appai posam na escadaria que levava ao segundo piso do Museu

Toda essa história e grande parte de um acervo de vinte milhões de peças, entre fósseis de dinossauros, meteoritos, múmias, mapas históricos, livros raros, artefatos pré-colombianos, africanos e indígenas, viraram cinzas durante o incêndio no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em setembro de 2018. Foi então enviada ao Brasil uma missão da Unesco, com especialistas que chegaram a atuar na recuperação do museu de Bagdá durante a Guerra do Iraque. O objetivo foi avaliar a situação e começar a montar um plano de recuperação. Agora, pesquisadores usam a digitalização para resgatar o que foi perdido.

Quase seis meses após o acidente, aos poucos as notícias vão permitindo vislumbrarmos um futuro à instituição. Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional, e a professora Claudia Carvalho, coordenadora da equipe de resgate pós-incêndio, anunciaram que Luzia, fóssil humano mais antigo do Brasil, foi retirada dos escombros do prédio. “Acreditamos que será possível recuperar quase todo o material encontrado: 80% do crânio que existia está visível e o restante ainda será trabalhado. Vamos finalizar a higienização, estabilizar e, a partir daí, reconstituir”, explica Claudia.

A notícia de que encontraram partes do fóssil de Luzia empolgou os profissionais ligados à recuperação do Museu. Segundo os técnicos, foram encontrados parte do frontal (testa e nariz), parte lateral, ossos que são mais resistentes e o fragmento de um fêmur que também pertencia ao fóssil e estava guardado.

 

Ressurgindo como uma fênix

Foto por Thiago Ribeiro

Ainda não foi possível estimar quanto tempo levará para se recuperar os objetos que ficaram retidos nos escombros, pois tudo depende da liberação de verba de incentivo fiscal que ficará destinado a este processo. Mas o diretor destaca que as obras no Museu estão em andamento dentro do cronograma estipulado e que a instituição pleiteia recursos junto a autoridades para a recuperação total do prédio. “Estamos discutindo com a bancada do Rio. O Congresso Nacional está reagindo com enorme sensibilidade”, afirma.

O Museu retornou a suas atividades 45 dias depois do incêndio que destruiu sua sede. A Secretaria do Patrimônio da União (SPU), do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, cedeu uma área para abrigar laboratórios de pesquisa e centro de visitação para estudantes. O terreno localizado em São Cristóvão tem quase 50 mil metros quadrados e fica a cerca de um quilômetro da sede do Museu. A área foi dividida com o Tribunal de Justiça do RJ (TJRJ). De acordo com Kellner, primeiro foram montados os laboratórios para que os funcionários pudessem retomar suas atividades. Em seguida, se construiu o centro de visitação destinado a estudantes do Rio de Janeiro. Por ano, a instituição recebe 20 mil alunos de 600 escolas.

Arqueólogos com a supervisão de bombeiros ainda escavam o local para verificar se é possível salvar algo da instituição científica mais antiga do país, mas pouco se sabe do que poderá ser reaproveitado. Enquanto isso, em meio aos escombros, pesquisadores tentam usar tecnologias para recriar e identificar peças queimadas na tragédia.

 

Por que a Luzia é tão importante?

Luzia é uma das peças mais importantes da história natural da América, porque representou uma revolução nos estudos sobre o povoamento do continente americano

O crânio e os ossos da coxa e da bacia de Luzia foram achados em 1975, no município de Pedro Leopoldo, Minas Gerais. Seu esqueleto foi datado de 11,5 mil anos atrás e ela deve ter morrido em torno dos 25 anos. Seu rosto foi reconstituído na Inglaterra e trata-se do esqueleto humano mais antigo encontrado no Brasil. Pelo comprimento dos ossos longos, sua altura é estimada em aproximadamente 1,5 metro. O que aconteceu com Luzia e seu povo ainda é um mistério, e provavelmente não haverá uma explicação única. Dispersos pelo continente, é possível que diferentes grupos, representantes dos primeiros colonizadores, tenham encontrado destinos variados, que apenas por meio de novas pesquisas serão conhecidos.

O raro meteorito Angra dos Reis

O artefato de 70 gramas que estava sob cuidados da instituição foi recuperado intacto dos escombros. Isso porque ele estava guardado em um armário de ferro que, felizmente, resistiu ao fogo O meteorito Angra dos Reis foi resgatado dos escombros do Museu Nacional pela professora da área de meteorítica da instituição, Maria Elizabeth Zucolotto, durante o acompanhamento de técnicos que fizeram as obras de escoramento. Ele foi encontrado intacto, pois estava em um armário de ferro que resistiu ao fogo. Seu valor é incalculável. Para os pesquisadores como Zucolotto, a importância científica do Angra é estimada a partir do fato de ter sido o único que foi avistado logo ao cair na Terra e, em seguida, ser resgatado, sendo logo submetido a uma série de pesquisas ao longo do último século. “Ele tem um papel tão grande, que batizou uma nova classe, a dos angritos”, explica a professora. O meteorito foi confiado ao Juiz de Direito de Angra dos Reis e, depois, doado ao Museu Nacional. Ele leva esse nome, por ter sido resgatado na cidade do litoral fluminense, em frente à Igreja do Bonfim, no final de janeiro de 1869.

 

Você pode fazer parte dessa reconstrução

Se você possui imagens do Museu Nacional e quer contribuir para o novo acervo digital da instituição, envie seu material através do site www.museunacional.ufrj.br/memoria. Sua ajuda pode contribuir na reconstituição dos ambientes e dos objetos perdidos no incêndio.


Por Richard Günter
Fontes: UFRJ | Ibram | Museu Nacional

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