Neurociência e educação: como o cérebro aprende


Especialista em conexões, o neurocientista Roberto Lent é um dos convidados da I Semana de Neurociência e Educação da Appai, que acontece de 7 a 10 de maio. Autor de várias obras, Dr. Lent lançou recentemente o livro “O Cérebro Aprendiz – Neuroplasticidade e Educação”, pela editora Atheneu. O livro tem como foco trazer à luz da compreensão a neuroplasticidade em suas diversas manifestações, especialmente a plasticidade transpessoal, ou seja, a capacidade de indivíduos em interação social se influenciarem mutuamente e modificarem seu pensamento em resposta ao ambiente interno e externo.

Para falar um pouco mais sobre este e outros assuntos, a Revista Appai Educar on-line traz uma matéria exclusiva com o especialista, que explica como a educação no Brasil pode ter um salto qualitativo a partir de ações já estabelecidas e associadas a medidas cientificamente comprovadas, como, por exemplo, a incorporação das conclusões dos estudos sobre o sono no currículo escolar.

RAE – No seu livro “Cérebro Aprendiz – Neuroplasticidade e Educação”, o senhor afirma que “a neuroplasticidade pode ser definida como a capacidade do cérebro de submeter-se a modificações temporárias ou permanentes, sempre que este seja influenciado por si próprio, por outros cérebros ou pelo ambiente”. Explique sobre isso citando exemplos do cotidiano.

Lent – O melhor exemplo é o da Educação. O que é a educação? Um sistema socialmente estruturado pelo qual o ambiente externo ao aprendiz (a sociedade) atua para modificar sua cognição, sua emoção, seus comportamentos e por consequência prepará-lo para exercer a cidadania plena. Essas propriedades (cognição, emoção, comportamento) são geradas e controladas no nosso cérebro, que vai se modificando de acordo com as influências que recebe ao longo do desenvolvimento e da vida em geral – a Educação. Existem outros exemplos mais drásticos, por assim dizer: uma lesão corporal grave, como a amputação de um membro, causa grandes mudanças na circuitaria cerebral. O mesmo ocorre com a cegueira e a surdez. Em todos os casos, da Educação às doenças, o cérebro é afetado e responde modificando sua estrutura e sua função para adaptar-se e melhor responder ao ambiente.

RAE – Qual a importância da Neuroplasticidade? Por que as pessoas devem entender sobre o assunto?

Lent – A importância da neuroplasticidade advém do que foi dito acima: o cérebro sempre se modifica quando interage com o ambiente, na saúde e na doença. Por isso devemos entender os mecanismos subjacentes a essas mudanças, para fazer melhor proveito deles.

RAE – De que forma a neurociência pode contribuir para a educação?

Lent – A neurociência é uma disciplina científica que aborda o cérebro em vários “níveis heurísticos” (níveis de abordagem). Pode tentar entender o funcionamento dos neurônios (a microescala) ou então dos circuitos que interligam as áreas do cérebro (mesoescala), ou ainda do funcionamento das redes e áreas cerebrais em sintonia e comunicação, de um indivíduo ou de mais de um em interação. Esse conhecimento pode gerar sugestões pedagógicas e de política pública que a sociedade poderia utilizar para aumentar a eficácia da educação.

RAE – Na sua opinião, qual é a importância de divulgar ciência para crianças?

Lent – As crianças devem conhecer a ciência porque ela é um elemento importantíssimo da cultura humana. Mas mais do que isso: a ciência dispõe de um método que alia criatividade e rigor na solução de problemas da natureza e da sociedade. Divulgando ciência para as crianças estaremos contribuindo para aumentar o seu conhecimento do mundo e para aprimorar a sua capacidade de mudá-lo de modo racional e civilizado.

RAE – Por que a primeira infância é uma fase do desenvolvimento em que vale a pena investir mais em educação?

Lent – É nessa fase que o cérebro passa por períodos de transformação mais crítica. Torna-se mais fácil aprender uma segunda língua, por exemplo. É sabido que a partir dos trinta anos, em média, começamos a passar por um declínio cognitivo já mensurado. As manifestações do envelhecimento não começam a aparecer aos 60 anos, mas aos 20!

RAE – Como a ciência pode ajudar a melhorar o ensino e de que forma o professor pode aplicar esse conhecimento em sala de aula?

Lent – Um exemplo seria com a aplicação das conclusões dos estudos sobre o sono, por exemplo, que poderiam ser incorporadas às atividades escolares. Se conhecerem como o sono pode favorecer a aprendizagem, professores e gestores poderão organizar melhor os turnos escolares. Se souberem que a repetição espaçada de informações é um meio eficaz de consolidar a memória, organizarão as atividades de classe de forma propícia. Haja vista que a identificação correta de crianças com transtornos de aprendizagem é algo muito relevante para se encaminhar da melhor forma as alternativas de cuidados adequados com elas. No entanto, a formação dos professores brasileiros ainda carece de disciplinas que abordem a chamada Ciência da Aprendizagem. A neurociência é apenas um componente dessa disciplina abrangente.

RAE – Como se dá esse processo em cada faixa etária? Existe uma diferença?

Lent – A neuroplasticidade é uma propriedade intrínseca do cérebro. Existe em todas as idades. O que muda são a sua forma e os mecanismos correspondentes. O cérebro de um bebê é muito imaturo, com seus circuitos sendo formados. O circuito da leitura, por exemplo, ainda não está maduro em um recém-nascido. Portanto, não adianta tentar ensiná-lo a ler. Mais à frente, as áreas cerebrais capazes de processar a correspondência entre os grafemas e os fonemas se tornam maduras, e essa aprendizagem então surge como possível. Por isso é importante conhecer as etapas de desenvolvimento do cérebro infantil, para otimizar as formas e conteúdos de aprendizagem de modo adequado.

RAE – Quais são as expectativas para o evento do qual participará na Appai? O que os professores podem esperar?

Lent – Estarei à disposição para esclarecer o que for do meu alcance. Essa interação entre cientistas e professores às vezes é difícil por diferenças de linguagem, mas devemos tentar vencê-las pelo diálogo e pela troca de experiências mútuas.


Por Antônia Lúcia

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