Na manchete: os 130 anos da Abolição


A história vivida, ouvida, pesquisada e impressa é a base do conteúdo para a produção textual dos alunos

Memória e identidade compõem a linha editorial do Jornal Discente Simão da Motta, na edição referente aos 130 anos da Abolição. A publicação é uma produção das turmas do 9º ano do Ensino Fundamental (901 e 902) da escola municipalizada localizada no bairro de Vila Olímpia, em Guapimirim. Esta é a oitava edição da proposta desenvolvida pela professora da disciplina de História, Lucimar Felisberto dos Santos, que tem por objetivo incentivar os alunos na pesquisa, análise e produção textual, assim como motivá-los a perceber as inter-relações entre o local e o global. Mas, para isso, assumir desafios, como o de abrir-se ao aprendizado de uma redação crítica e de qualidade.

Ler e escrever não são verbos de fácil usabilidade em tempos de virtualidade. Por outro lado, independente das condições socioeconômicas, a assimilação com a convergência tecnológica é o universo dos jovens. Ao analisar este quadro, a professora Lucimar pensou em um projeto que os estimulasse a sair da zona de conforto e no qual interagissem com os conteúdos didáticos de forma mais prazerosa. Como pano de fundo, a atividade visa “melhor interação aluno/aprendizado, aluno/aluno e aluno/professor”. Para ela, um jornal é uma ótima ferramenta pedagógica que possibilita variadas estratégias.

Para a pesquisadora, que tem pós-doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, torna-se necessário o aprendizado da utilização das variadas fontes de informações aos quais os jovens têm acesso na vida escolar. E a produção de um jornal por alunos do nono ano do Ensino Fundamental surgiu como uma excelente ferramenta para treiná-los no uso da internet como possibilidade de pesquisa escolar de forma qualificada e, também, iniciá-los na crítica conjuntural. O jornal, de formato A-4, tem periodicidade quinzenal. Há colunas fixas como o editorial (escrito por Lucimar), História 1 e 2, Cultura 1 e 2, Informes, “Se liga”, Personalidade da edição e Funcionário da unidade.

Com os textos de “crítica conjuntural”, a ideia foi a indução da produção de matérias com diagnósticos de fatos históricos, inseridos e informes, além de entrevistas com funcionários da comunidade escolar. Para tanto, a professora orientou os alunos-jornalistas a relacionarem o local com o global. Esta interação pode ser evidenciada pelos temas abordando o fato histórico que marcou os rumos do país, influenciando, inclusive, na mudança do regime político: da monarquia para o republicano. Para aguçar o interesse dos estudantes, Lucimar levou-os a perceber que estavam localizados em um determinado tempo histórico, com uma dada cultura e lógica de pensar diferentes daquela do período em que iriam se debruçar. Ou seja, a comparação deveria respeitar os contextos da época.

A proposta deste trabalho de gestão compartilhada entre a docente e os discentes foi dar visibilidade para dados históricos, em geral esmaecidos na historiografia brasileira. E, consequentemente, nos conteúdos que chegam à sala de aula: o protagonismo dos africanos e seus descendentes na construção de um “legado social que remonta ao período do cativeiro”. Segundo o editorial, “o protagonismo das mulheres negras pode ser considerado um marco do período histórico pós-Abolição”, destacando o empenho das “últimas gerações, que vêm procurando não repassar a herança social recebida”, e de que, apesar das condições de subserviência e maus-tratos, “homens e mulheres escravizados contribuíram nas causas antiescravistas. Muitos buscaram meios de amenizar as condições de cativeiros, enquanto outros procuraram angariar recursos para indenizar os seus senhores e, assim, tornarem-se libertos”.

No editorial assinado pela editora chefe, “há evidências de que a prioridade era dada às mulheres, quando da decisão sobre quem alforriar. O que pode se dever ao fato de o ventre definir a condição social”. No seu entendimento, é possível imaginar que o maior quantitativo de alforriadas se deveu “à agência das escravizadas”. E exemplifica com a trajetória da família de uma das alunas cuja mãe veio do interior da Bahia e se instalou em Magé na década de 1980. “Ela traz na memória registros de inúmeras situações de violência vividas na infância e na adolescência”. Experiências semelhantes por que passaram outras mulheres de sua família, como sua mãe. Para esta senhora, a luta para que sua filha tenha um destino diferente é algo constante.

O diálogo entre o ontem e o hoje insta os alunos a analisar o seu próprio tempo/espaço, a história local e nacional, assim como o global. No local, a escola, incluindo os personagens que a compõem, que foi tema da coluna “Funcionário da Edição”, numa entrevista que propõe conhecer o que motiva o cotidiano laboral e suas reflexões sobre o tema do jornal, que neste número dá destaque aos 130 anos do fim da escravidão. Em contrapartida, na coluna Personalidade os alunos escolhem uma figura pública de relevância internacional.

Nas colunas História 1 e História 2, os contextos históricos também acompanham a lógica de se discutir a história nacional a partir da local e da local dentro do contexto nacional. Assim, no primeiro momento, buscou-se enfatizar a ideia de que os alunos, percebendo seu lugar de origem, olham para a História Nacional.

Com a história do Brasil sendo percebida a partir da nossa localidade, apresentam-se dados sobre a trajetória do município de Magé, iniciada em 1565 com o “sesmeiro Simão da Motta, que doou uma fração de suas terras em um outeiro às margens da Baía de Guanabara para a construção de uma capela para Nossa Senhora da Piedade de Magepe. Em 1789 foi instalada a Câmara Municipal, que em seu primeiro ato ‘simplificou o nome da Vila Magepe para Magé’”. E, em “1857, a Vila de Magé é alçada à categoria de cidade”. Na História 2, tratou-se da contextualização sociopolítica do município do século XVI até a atualidade. Nesta perspectiva, está implícita a ideia de sua história em um contexto político nacional.

De posse do produto final, os trios de alunos-repórteres tiveram a oportunidade de, junto com os demais colegas, fazer uma avaliação coletiva. Todos e todas vão se animando cada vez mais em pesquisar, escrever e oferecer ideias para a próxima edição. E mesmo aqueles que por ventura tiveram dificuldades para entregar seu material se motivaram, porque “não havia cobranças e desgastes, todos percebendo que aprendiam fazendo, conforme os ensinamentos dos mestres Céléstin Freinet e Paulo Freire”, concluiu a coordenadora Lucimar.


Por Sandra Martins
Escola Municipal Simão da Motta
Rua Urano, 44 – Vila Olímpia – Guapimirim/RJ
CEP: 25940-050
Tel.: (21) 2633-4335
E-mail: lucimarfelisbertodossantos@gmail.com
Coordenadora: Lucimar Felisberto dos Santos
Fotos cedidas pela professora


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