Física Moderna


Alunos ampliam seus conhecimentos dentro da ciência que investiga as leis do universo, matéria e energia através de bate-papo com cientista

É verdade que atualmente o dia está mais curto que nos séculos passados? Por que não se pode colocar água para ferver no forno micro-ondas? Cego pode estudar astronomia? Mitos ou verdades? Certamente curiosidades que chamam a atenção de estudantes do Ensino Médio que se pudessem gostariam de perguntar aos cientistas a veracidade de tais questões. A tecnologia avançou muito, certamente. Está nas mãos de crianças: jogos eletrônicos, tablets, celulares etc.

Contudo, apesar dos avanços tecnológicos, uma questão continua firme e forte: o distanciamento entre cientistas e a garotada. Situações alheias e complexas ao querer são impostas e os afastamentos se reproduzem quase que automaticamente. Entretanto, um colégio público da Região Serrana vem desenvolvendo uma experiência interessante: coloca alunos de todas as séries do Ensino Médio em contato direto com cientistas de universidades públicas.

Trata-se do Colégio Estadual Canadá, no município de Nova Friburgo, cuja professora da disciplina de Física, Adriana Bernardes, potencializa o que ela chama de “uma cultura dentro da física que vai além do aprendizado”, fazendo com que os alunos percebam o valor do conhecimento, como ele é desenvolvido na universidade e sua aplicação junto à sociedade.

Entre os benefícios, o incentivo ao protagonismo dos jovens que têm uma relação direta com os acadêmicos, sem intermediações. Estimulados, os alunos vão superando seus próprios obstáculos e aprofundam seus conhecimentos de forma a dinamizarem os momentos vivenciados com os pesquisadores. Oportunidade ímpar, considerando que dificilmente teriam chance para tirarem dúvidas quanto aos conceitos apreendidos durante o período letivo.

O caminho para o diálogo se inicia com muitas conversas. Os temas podem ou não ser do conteúdo programático, mas estão ligados, e estes são apresentados por meio de aulas expositivas com o recurso de PowerPoint. Registram-se dúvidas, coisas que já ouviram a respeito e que gostariam de abordar. Indagações são lançadas para que todos possam refletir sobre a pertinência ou não da pergunta. Entre elas, a de ser ou não importante se conhecer o valor da massa do sol ou de se saber que o astro-rei tem períodos de maior e menor emissão solar. “Com o tempo, eles acabam percebendo que perguntas de cunho decorativo podem ser feitas no Google. Não é necessário o cientista”. Este preparo favorece a videoconferência e a conversa a ser realizada com os pesquisadores. Alguns alunos disseram que este preparo os ajudou a refletir melhor sobre o tema, de forma que conseguiram elaborar com maior fluidez os questionamentos.

A iniciativa incentiva ao protagonis­mo dos jovens que têm uma relação direta com os acadêmicos, sem intermediações

Motivados, os estudantes apresentam, ao longo do projeto, crescente aprimoramento. Mas, como disse Adriana, há um longo caminho a ser percorrido para a manutenção de um diálogo entre docentes de universidades públicas e discentes de uma escola pública. É possível: não é tarefa fácil. Há que se desconstruir padrões mentais.

De um lado, os jovens são orientados sobre a possibilidade de trabalhar com outros professores externos e a repensar o fato de que os protagonistas da literatura e cientistas brasileiros já estejam “mortos” ou “distantes”. O teor de suas perguntas deve ser pertinente aos temas do currículo de suas séries e ser relativo às pesquisas daqueles cientistas. Há também o fato de serem de uma escola pública localizada fora da área geográfica central do estado, o que não os exclui, de forma alguma, de contatos com intelectuais vivos, se utilizando, para isso, de ferramentas tecnológicas. “É uma construção diária!”, disse a professora Adriana, entusiasmada com o amadurecimento crescente dos jovens nessa ambiência da cultura de física.

De outro, para os cientistas/pesquisadores/acadêmicos esta interação com o público da escola é importante pelas trocas propiciadas. “A energização é dual, uma via de mão dupla, sempre é”.

Temário – Os temas têm como ponto inicial o conteúdo do currículo mínimo. Eles são trabalhados com mais profundidade e dialogam com diferentes dimensões de conhecimentos relacionados ao assunto e sua aplicabilidade direta no dia a dia da sociedade.

Tendo sido uma das pessoas responsáveis pela elaboração do currículo mínimo na disciplina, Adriana lembra que o professor deve desenvolver, entre os temas trabalhados, as habilidades e competências relacionadas à Física Moderna. O conteúdo programático do currículo é o “mínimo” a ser dado em sala de aula, portanto o docente tem amplas possibilidades de avançar em assuntos científicos, o que envolve cultura e não somente o aprendizado. “E é por isso que se torna atrativo”, afirma.

Através do projeto e de um bate-papo com um cientista, os alunos ampliaram seus conhecimentos dentro da ciência

Os projetos nas escolas devem ir além. É necessário motivar os alunos e ampliar a cultura dentro da física. “Quando eles discutem com o pessoal que trabalha com o acelerador, uma questão da alçada da física de partículas, o tema não está no Ensino Médio, mas deveria estar”. Há muitas pesquisas feitas sobre inventos como esse, de modo que o conhecimento de física de partículas deveria “de alguma forma estar inserido no terceiro ano do Ensino Médio para introduzir as ideias de eletricidade, já que os fenômenos elétricos estão relacionados com a estrutura da matéria. Portanto, torna-se necessário que se conheça essa questão para o bom entendimento dos fenômenos elétricos. Não está no currículo, mas podemos ir além dele”.

Nos estudos sobre magnetismo, um pesquisador trabalha em uma geladeira magnética com vistas a que este eletrodoméstico venha a ser antipoluente – os gases emitidos pelo aparelho são danosos à camada de ozônio, causando efeito estufa. No caso da teoria da relatividade, um estudioso abordou “as possibilidades de chegarmos à estrela mais próxima da Terra, Alfa Centauro, há quatro anos-luz do nosso planeta”. No debate, o fato de o Brasil não ter tecnologia para essas pesquisas. Outro tópico foi a evolução estelar, tendo como um dos exemplos o caso dos buracos negros.

O projeto tem evoluído bem, com a produção de várias videoconferências. Entre elogios e expectativas, um desejo: a participação de pesquisadoras. O objetivo é “dar visibilidade às mulheres dentro das ciências e aumentar o interesse das meninas para as pesquisas”, salientou Adriana Bernardes, que também é mestre em Física.

Entre os pontos fortes do projeto, a discussão para formulação de dúvidas e perguntas após apresentação do conteúdo, a interação com o cientista e a participação ativa. Dos pontos frágeis, os recursos da escola, nem sempre em condições de oferecer internet e outras possibilidades que poderiam melhorar a comunicação.

À guisa de conclusão, Adriana Bernardes enfatizou as falas interessantes de que a Física não ficará restrita à sala de aula. Ela acompanhou os jovens à sua casa. “Muitos comentam com os pais que conversaram com um cientista naquele dia. Isso sem dúvida faz com que acabem percebendo a escola como um local diferente do que geralmente pensam”. Afinal, convenhamos, não é todo dia que nossos filhos chegam em casa e comentam que estiveram com um especialista em energia nuclear da Universidade Federal Fluminense falando sobre teoria da relatividade, acelerador de partículas…


Por Sandra Martins
Colégio Estadual Canadá
Rua Jardel Holtz, s/nº – Bairro Olaria
Nova Friburgo/RJ
CEP: 28621-130
Tel.: (22) 3016-0180
E-mail: adrianaobernardes@bol.com.br
Coordenadora do projeto: professora
Adriana Bernardes
Fotos cedidas pela docente

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