Explorando a Nave do Conhecimento


Alunos exploram novos saberes fora dos muros da escola e fazem uma viagem ao universo literário

Numa manhã ensolarada de outubro, Kayque de Oliveira acordou mais cedo que de costume. Na verdade, nem dormira direito. Estava ansioso para que os primeiros raios de sol iluminassem aquele dia tão esperado. Ele, aluno do 8º ano da Escola Municipal General Tasso Fragoso, já estava com o texto do seu personagem na ponta da língua. Iria interpretar o protagonista da obra “O santo e a porca”, de Ariano Suassuna. “A história relata as desventuras de um homem, devoto de Santo Antônio, que guarda as economias de toda a vida numa porca de madeira. O desfecho desta história é inesperado”, avisa Kayque, que já se considera um veterano na arte de encenar. Naquele dia, ele e os demais colegas de turma, assim como os estudantes de outras cinco escolas do bairro de Padre Miguel, se dirigiram à Nave do Conhecimento da região para participar da primeira edição de um evento que promete entrar para o calendário anual de atividades culturais: o Festival Literário de Padre Miguel (Flipam).

O projeto tornou-se a união de professores e alunos em busca da formação de uma comunidade de leitores

O projeto nasceu da iniciativa das professoras regentes das salas de leitura das Escolas Municipais Roberto Simonsen e General Tasso Fragoso. Juntas, as professoras Neilda Silva e Eliane Mentzingen, perceberam a necessidade de criar um evento que marcasse no calendário um dia voltado para a leitura, a literatura e as manifestações artísticas na comunidade do bairro. O evento começou sem a intenção de ser tão grandioso, mas, com a adesão das escolas do entorno, o projeto do 1º Festival Literário de Padre Miguel tornou-se a união de professores e alunos em busca da formação de uma comunidade de leitores. “Com esse projeto estabelecemos o objetivo de levar para fora dos muros da escola todo o movimento literário que acontece dentro dela, alcançando a comunidade e contribuindo para aproximá-la da literatura e de toda riqueza cultural que a permeia, pois acreditamos que uma sociedade leitora é uma sociedade mais tolerante, mais rica e mais justa”, explica Eliane.

Sua colega, Neilda Silva, da Escola Roberto Simonsen, complementa: “Pretendemos formar um jovem que tenha o hábito da leitura e não apenas aquela prática acadêmica, visando uma nota numa avaliação. Queremos despertar o prazer de ler. Quanto mais o indivíduo se entrega a esse costume, mais abre o seu horizonte, amplia o seu vocabulário, muda a forma de se expressar, de escrever. Mas, como ensinar alguém a ter prazer por alguma coisa? Muitas pessoas dizem que não gostam de ler porque, talvez, ainda não tenham descoberto qual o seu estilo. Se não tiverem essa experiência, nunca saberão. Quando nós preparamos alguns alunos para fazer uma roda de leitura com estudantes menores, eles tiveram de ir à sala de leitura, escolher de quais livros iriam contar as histórias e construir os fantoches. Houve todo um envolvimento. O que acreditamos é que, com essa semente, eles possam retornar depois, independente desse movimento, porque descobriram ali o prazer, a imaginação e a alegria de estar com o livro”, justifica.

As escolas envolvidas no projeto levaram para a Nave do Conhecimento uma diversidade de trabalhos e atividades ligadas à literatura e à arte. Enquanto um telão exibia vídeos produzidos pelos alunos baseados em livros infantojuvenis, no salão principal ocorriam rodas de leitura e contação de histórias com teatro de fantoches, além de um espaço dedicado à troca de livros. Cada escola também montou suas exposições de trabalhos realizados a partir do projeto de formação de leitores desenvolvidos por cada uma delas durante o ano. Enquanto isso, no anfiteatro, os alunos faziam várias apresentações de dança, música, esquetes cênicos, jograis, cordéis e declamação de poesias.

Atividades que possibilitam expressar a arte e a literatura

O projeto também estimulou a participação de professores de Língua Portuguesa, como é o caso de Raquel Marinho, que leciona na escola Tasso Fragoso. “Todas as atividades que possibilitam expressar a arte e a literatura são sempre bem-vindas. Na nossa escola estamos, este ano, realizando um projeto que envolve três grandes autores, um para cada nível de escolaridade. O 7º ano ficou com as obras de Ana Maria Machado, o 8º com Ariano Suassuna e o 9º ano com Machado de Assis. A proposta foi aproximar os alunos de obras literárias em um formato menos tradicional, buscando alternativas lúdicas e atraentes para essa faixa etária. Além do trabalho desenvolvido pela Eliane na sala de leitura, a professora Isanete Rocha também realizou uma atividade interessante com o 7º ano, fazendo com que alunos fossem contar histórias para crianças de outra escola”, revela.

Para Ruth Nóbrega, professora regente de sala de leitura da Escola Municipal Engenheiro João Thomé, o festival literário possibilita a troca de experiências e o compartilhamento das vivências dos alunos em suas respectivas escolas. Para a mostra ela reeditou uma justa homenagem ao escritor Ziraldo: “Ano passado, para comemorar os seus 85 anos, fizemos um desfile com todas as turmas divididas em alas, no formato das escolas de samba, retratando toda a obra do autor. Para o Flipam, trouxemos todos os trabalhos produzidos pelos alunos, incluindo os desenhos feitos por eles para um concurso realizado na nossa escola. No palco, fizemos apresentações homenageando, através de jogral, a poetisa Cecília Meireles e uma paródia para celebrar a obra de Ana Maria Machado, outra grande personagem da nossa literatura”.

Os estudantes fizeram apresenta­ções de dança, música, esque­tes cênicos, jograis, cordéis e declamação de poesias

Fernanda Barros Silva, professora da sala de leitura e também do 2º ano da Escola Municipal Bangu, também comemora a iniciativa de criação do festival literário. “Compartilhar esse momento com alunos de outras escolas é uma experiência que acrescenta. Eles ficam tanto tempo dentro da sala de aula e, muitas vezes, questionam o fato de ficarem restritos a cadernos e livros. O grande desafio é levar o aprendizado teórico para a vida real e esse evento possibilita isso”, justifica a professora que, para o Flipam levou trabalhos sobre o continente africano. “O nosso tema é Pérola negra desvendando a África, cujo propósito é valorizar o resgate da etnia e da cultura negra, estimulando os alunos a se sentirem incluídos, valorizados e empoderados”, complementa. Além de trabalhos expostos, os estudantes também encenaram contos africanos.

As professoras Alice da Silva e Márcia de Faria, do Ciep Mestre André, lecionam em classes de alunos especiais. No festival literário eles fizeram uma apresentação com instrumentos musicais. “É um trabalho de suma importância, que envolve o letramento e a arte, trabalhando o desenvolvimento global do estudante. Essa apresentação é proveniente do nosso projeto político-pedagógico, cujo objetivo, além de destacar a cultura afrodescendente, também divulga as potencialidades do indivíduo portador de deficiência”, ressalta Alice. Márcia conta que a escola possui três turmas formadas por alunos especiais (duas de DI – déficit intelectual – e uma de TGD – Transtornos Globais Diversos). “Eles sempre fazem trabalhos em conjunto, nos quais um supre a deficiência do outro”, destaca.

Já os estudantes da Escola Municipal Anna Amélia levaram para o Flipam vários poetrix, composições literárias formadas por um título e três versos. “É um gênero literário contemporâneo, criado na Bahia, pelo poeta Goulart Gomes. Engloba a Língua Portuguesa e a Produção Literária”, relata Ana Maria Alvarez, professora de sala de leitura. A coordenadora pedagógica da escola, Juliana Muniz, também acompanhou as apresentações: “Atividades como essas estimulam o protagonismo juvenil e despertam a vontade de ler e escrever, atuando não apenas na formação cultural como também na construção da cidadania”.

Escolas que participaram do 1º Festival Literário de Padre Miguel:

E. M. Roberto Simonsen

E. M. General Tasso Fragoso

E. M. Engenheiro João Thomé

E. M. Bangu

E. M. Anna Amélia

Ciep Mestre André


Por Tony Carvalho
Nave do Conhecimento de Padre Miguel
Av. Marechal Marciano, s/nº – Bangu – Rio de Janeiro/RJ
CEP: 21870-330
Tel.: (21) 99011-4933
Site: navedoconhecimento.rio
Fotos: Tony Carvalho

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