Encaixando as peças


Entenda como o ensino naturalista alinhado a uma qualificada mediação escolar pode trazer excelentes resultados no desenvolvimento do aluno com autismo

O processo de inclusão escolar requer uma parceria entre pais, escola e profissionais envolvidos que atendam o aluno. Mas sabemos que isso vai muito além de estar em uma sala de aula, é preciso que o estudante faça parte da turma, interaja com os professores e as demais crianças, compreenda as questões pedagógicas e se desenvolva de acordo com as suas particularidades e o seu ritmo de aprendizado. Por isso a importância do mediador escolar para auxiliar nas conquistas desses objetivos e dos demais que surgirão com o decorrer do desenvolvimento do aluno através do Currículo Funcional Natural.

Em uma entrevista exclusiva à Revista Appai Educar, Nathália Araújo Sá, Mestre em Educação, Especialista em Educação Especial e Palestrante do Benefício Educação Continuada da Appai, explica que o currículo funcional natural refere-se a um modelo de intervenção educacional que se caracteriza por empregar uma proposta de trabalho que visa ensinar/desenvolver habilidades funcionais (úteis) para a vida dos alunos com autismo que apresentam comportamentos inadequados, estereotipados e/ou autolesivos em situações sociais diversas, como na escola, em família e em outros ambientes que requerem deles comportamentos adaptativos. “Vale ressaltar, no entanto, que o currículo funcional natural não se restringe apenas às atividades de vida diária (AVD) e atividade de vida prática (AVP).

Seu contexto de ação e abrangência é muito maior e envolve promover autonomia, fazer escolhas e repensar as formas de acesso ao currículo acadêmico por parte dos alunos com autismo incluídos na escola regular”, explica. Esse tipo de ensino consiste em enfatizar/focar naquilo que a pessoa que apresenta esse problema precisa aprender para ser utilizado no momento atual da sua vida, seja em médio prazo ou no futuro. A proposta de aprendizagem tem como objetivo ser o mais natural possível aproximando-se das situações que podem ocorrer no cotidiano do aluno em convivência com outras pessoas e com a sua família. A sua função principal quanto à metodologia de ensino do Currículo Funcional Natural (CFN) é tornar a pessoa com autismo o mais independente possível, ou seja, incluída e participante das práticas sociais, envolvida e inserida em contextos diversos de aprendizagem.

A mestre ainda destaca que atender a essas demandas requer rigor no planejamento. “Isso exige maleabilidade, e as escolas ainda resistem a mudanças que implicam um novo paradigma e formas de compreender o papel da escola, ensino e educação. Efetivar a matrícula para o estudante com autismo ou qualquer outro com deficiência não é garantia de que a instituição está sendo inclusiva, pois isso implicaria garantir, além do acesso, o aprendizado e a permanência”, enfatiza. Em uma longa análise sobre as principais necessidades de um aluno com autismo, Nathália ressalta que “todos os profissionais envolvidos na educação e formação da pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na escola – e isso inclui professores regentes, equipe pedagógica e de gestão – precisam estar atentos à elaboração e efetivação das ações do projeto político-pedagógico, o que significa compreender e atender as necessidades emergenciais do aluno com autismo, inserido no contexto da sala de aula regular como o aprendizado para toda a sua vida”.

Como um professor pode identificar um aluno com autismo leve? E quais medidas tomar?

O professor em sala de aula, em contato diário com os estudantes nas diversas situações de aprendizagem, sobretudo na primeira infância, na educação infantil, onde o contato é mais próximo, por razões óbvias, pode fazer algumas observações a respeito de determinados comportamentos peculiares que um de seus alunos pode vir a apresentar. O momento da brincadeira e da roda de conversa propicia e/ou favorece um olhar mais atento do docente tendo em vista que o aluno que apresenta características do TEA tende a buscar o isolamento nesse momento da atividade, assim como também pode se caracterizar por descontrole emocional. Nathália evidencia outro momento importante, que é o de observação no manuseio dos brinquedos, já que o aluno com quadro do TEA não manipula os objetos de maneira funcional.

De acordo com Nathália, o professor munido dessas informações e com anotações das observações diárias sobre o comportamento do aluno em situações variadas de aprendizagem deve, em conjunto com a equipe pedagógica, chamar os responsáveis à escola para conversar e buscar informações com eles, caso esses comportamentos apresentados na instituição também estejam sendo reproduzidos em casa. “Outra medida importante é indicar aos pais uma primeira avaliação com o pediatra, tendo em vista que só o médico e uma equipe multidisciplinar podem, por meio de variadas e diversas avaliações, dar o diagnóstico de autismo, não cabendo ao professor essa tarefa”, esclarece a especialista.

 

O preconceito ainda é vivo na escola e no âmbito familiar

Infelizmente o preconceito pode ocorrer tanto na escola como também na esfera familiar. Em específico, dentro do sistema de ensino, os alunos com autismo enfrentam reiteradas situações de exclusões e isolamento. Há certa dificuldade por parte de alguns docentes, equipe pedagógica e de gestão em compreender, acolher e respeitar as diferenças dentro do espaço escolar. De acordo com Nathália, com frequência esses alunos são comparados com os demais para que sejam enfatizados os seus comportamentos não adaptativos. “A escola deveria lidar com as especificidades e peculiaridades desses estudantes orientadas em outro viés: na organização do trabalho pedagógico que propicie à pessoa com autismo usufruir de diferentes situações de aprendizagem em conjunto com os seus pares; oportunidade de convivência com grupos da mesma faixa etária para estimular a sua capacidade interativa; atividades que visem à promoção de habilidades sociais; tarefas dirigidas que proporcionem ao aluno aumentar o seu repertório de linguagem verbal e não verbal; ampliação do tempo para realização dos trabalhos desenvolvidos em sala de aula como também o uso da tecnologia assistiva e comunicação alternativa”, pontua.

Como se vê no esclarecimento de Nathália, são variadas as formas de promover a inclusão desses alunos ao sistema escolar, entretanto o acesso e a permanência deles no ensino regular são dificultados. No âmbito familiar, os responsáveis da criança e/ou adolescente autista sentem-se sós e isolados com sentimento de culpa e muitas das vezes sofrem situações de preconceito entre seus próprios parentes. “São raros os momentos em que esses pais são chamados a participar de eventos como festa de aniversário, entretenimento, dentre outros. A falta de apoio e orientação por parte da escola e de outras redes de assistência aos responsáveis reforça o estigma e as barreiras que levam à exclusão e segregação dentro da sociedade. O meio mais notável para enfrentar e promover a inclusão é fortalecer as famílias, instruindo-as e instrumentalizando-as para defender o direito e a dignidade da pessoa com autismo de viver em sociedade, tendo suas necessidades reconhecidas e atendidas”, enaltece.


 

Por Richard Günter


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