Educa Rio 2018


Evento reuniu profissionais renomados para debater sobre diversos assuntos que permeiam a educação

 

A tecnologia vai substituir o papel e a caneta? Os métodos de ensino devem permanecer exatamente iguais aos de anos atrás? Esses e outros questionamentos foram debatidos no Educa 2018, iniciativa realizada pela Revista Educação e pela PUC, com intuito de debater sobre mídia-educação, educação infantil e neurociência. A equipe da Revista Appai Educar esteve presente no evento e fez a cobertura completa. Confira.

Com curadoria de Silvana Gontijo, que é jornalista e presidente da planetapontocom, o evento teve início com o tema mídia-educação. Pesquisadora da área, Silvana ressaltou a importância dos recursos tecnológicos, mas advertiu que na busca por este caminho o foco das pessoas não pode se distanciar das relações interpessoais: “O mais irretocável planejamento escolar não pode deixar de levar em conta o valor humano. Educadores inovadores precisam aprender a superar o medo do novo e, para serem eficazes, as relações de trabalho necessitam sair do modelo competitivo para o colaborativo. Só assim trabalharão de forma interdisciplinar”, frisa Silvana.

A especialista também apresentou o trabalho da planetapontocom, que, ao longo de oito anos de experiência, desenvolveu uma série de produtos educacionais com diferentes formatos, tamanhos e descrições, que têm como fio condutor os conceitos de inovação e de mídia-educação. Para conhecer mais sobre a planetapontocom, acesse o site planetapontocom.org.br e o canal no Youtube.

A diretora da MAG Consultoria Cultural, Maria Arlete Gonçalves, também esteve no evento e reforçou a necessidade de professores e gestores buscarem novos caminhos para a escola da atualidade, que apresenta demandas diferentes das do passado. “Não posso nem dizer para pensarem fora da caixa porque, hoje, não existe mais ‘caixa’. Lembrando que a compreensão de ensino passa pela escuta e por aceitar se transformar”, conclui.

Durante o evento foram discutidos temas como mídia-educação, literatura e cultura, educação infantil e neurociência

 

DA PERIFERIA PARA A UNIVERSIDADE

E por falar em buscar novos caminhos, a professora emérita de Teoria da Cultura da Escola de Comunicação da UFRJ, Heloísa Buarque de Hollanda, defende em suas atividades a vivência prática da periferia na instituição de ensino, através do projeto Universidade das Quebradas. Uma experiência acadêmica na área da cultura que pretende consolidar um ambiente de troca entre saberes e práticas de criação e produção de conhecimento, articulando experiências culturais e intelectuais desenvolvidas dentro e fora da academia. “Este projeto pretende ser de duas vias: para as comunidades que estão produzindo cultura mas não têm acesso à produção intelectual das universidades, mas também para o mundo acadêmico, que denuncia carência similar em relação ao acesso a outros saberes e formações culturais fora de seus ambientes característicos”, explica Heloísa.

Segundo ela, ainda é rara na universidade a articulação de espaços permanentes de diálogo, capacitação e criação compartilhada entre segmentos culturais diversificados. O projeto Universidade das Quebradas, por sua vez, pretende atender a essa demanda em função do atual impacto do desenvolvimento da cultura das periferias e dos recursos gerados pelas novas plataformas digitais. Heloísa conta que escolheu o salão dourado, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, lugar nobre da universidade, para a periferia entrar permitindo às pessoas afirmarem-se como sujeitos. “Fazendo um curso bancado por eles, já que pagam impostos”, enfatiza.

 

CRIANÇA, EXPERIÊNCIA E MEMÓRIA: POR UM COTIDIANO SIGNIFICATIVO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Para falar sobre Educação Infantil, a PhD em Educação pela PUC-Rio, Maria Leonor Pio Borges de Toledo, trouxe diversas pesquisas e exemplos nos quais mostrou situações comuns do dia a dia de um profissional da Educação Infantil. A especialista fez questão de destacar que nessa fase existem crianças e não alunos, e que o currículo não deve ser pensado como preparatório para o Ensino Fundamental.

Para ela, a atual organização do tempo, do espaço e do currículo desumaniza as crianças e professores envolvidos no processo. “Sentar com perna de chinês, parar de falar, abaixar a cabeça, a rotina não deve massacrar os envolvidos, engessá-los. O controle corporal excessivo – cadeira, mesa, papel – deve ser evitado. Quanto menor a criança, maior é a sua necessidade de se expressar. A escola precisa oferecer experiências que criem significados, que gerem desenvolvimento”, justifica Leonor.

A especialista em Educação Infantil ressalta ainda que aprendizagem é fruto das interações sociais. “Aprender não é um processo que se restringe a cognição. Envolve também os sentidos e experiências significativas das crianças pelo afeto e pelas sensações corporais. O professor tem que brincar com elas. É ali que o educador encontra pistas para o trabalho pedagógico e entende os interesses dos pequenos. Através da brincadeira eles aprendem sobre si mesmos, sobre o outro e sobre o mundo”, explica.

 

POTÊNCIAS E FRAGILIDADES NA ADOLESCÊNCIA: AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA

A doutora em Ciências pela USP, Carla Tieppo, falou sobre a transformação biológica que se opera do corpo infantil à juventude e esclarece sobre o funcionamento do sistema nervoso e suas relações com a mente e o comportamento humano. “Na adolescência, o cérebro praticamente dá um reset, impelindo o jovem a investigar o mundo para além do que lhe é familiar. É preciso apaziguar a ebulição emocional do adolescente para que ele possa aprender. Precisamos contribuir com o seu amadurecimento e não apenas passar o conteúdo previsto. Possibilitar a interiorização deles de forma genuína ajuda nesse processo”, afirma.

Uma pesquisa publicada na Revista de Saúde Pública da USP, em 2014, mostrou que o número de adolescentes com ansiedade e depressão a partir de 12 anos é alto, atingindo, em média, 45% das meninas com 17 anos. Os meninos também são afetados, mas em menor escala. O levantamento foi feito em cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes. “As sociedades ocidentais pressionam excessivamente por resultados. É preciso intervir precocemente tão logo se identifique o sofrimento. A ansiedade pode levar à depressão e a comportamentos de risco, seja sexual ou com entorpecentes”.

A especialista ressalta que, com o amadurecimento, um cérebro saudável é capaz de aprender com o passado, fazer previsões sobre o que pode acontecer de acordo com o modo como se comporta e, desse modo, existir no mundo. “Temos que aprender a lidar com um sistema emocional pré-histórico para que nossas emoções nos levem onde quisermos ir. O desenvolvimento do adolescente deve ser integral. O conteúdo é um meio para levá-lo a alcançar outros objetivos. Não devemos especializá-los precocemente”, finaliza.


Por Jéssica Almeida

Fotos: Richard Günter


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