O dia de Portugal, uma declaração de amor à Língua Portuguesa


Hoje é comemorado o Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas, uma data que acaba sendo direcionada para uma atenção especial para a Língua Portuguesa, um dos mais importantes traços a unir os nove países que utilizam o idioma. Aqui no Brasil ela está entre os símbolos nacionais e faz jus a essa condição na medida em que é um dos poucos exemplos em nível mundial de países com grandes extensões territoriais e diversidade cultural onde um único idioma satisfaz a função comunicativa e garante a integração entre um número muito grande de pessoas.

Os números mundiais da língua portuguesa também são bastante relevantes, apesar de à primeira vista não parecer. Algo em torno de 260 milhões de pessoas no planeta utilizam a língua de Camões. Isso faz com que ela seja atualmente a quarta mais falada no mundo, perdendo apenas para o mandarim, o inglês e o espanhol. É também a terceira mais falada no Ocidente, a mais utilizada no hemisfério sul da terra e uma das poucas presentes em quase todas as latitudes do planeta (só não é falado na Oceania).

As projeções para o futuro também são animadoras com relação à expansão do idioma. Segundo dados recentes divulgados pela ONU, é provável que em 2050 o número de falantes chegue a quase quatrocentos milhões. Outro dado interessante é que essas previsões afirmam que a explosão demográfica hoje observada em países africanos como Angola e Moçambique deverá fazer com que os falantes de português desse continente ultrapassem o do Brasil lá pelo final do século XXI, quando se deverá chegar a meio bilhão de usuários de língua portuguesa no mundo.

A tradição poética, um dos grandes traços da personalidade portuguesa, herdada principalmente de suas raízes árabes e celtas, se encaixaria muito bem na verve imaginativa e mágica que se formou do lado de cá do Atlântico. Uma singularidade que pode ser bem expressa nos famosos “ser” e “estar”, que na língua portuguesa constituem duas ideias diferentes, enquanto que em todas as outras línguas derivadas do latim são praticamente uma coisa só. No mundo lusitano “ser” não é “estar”. Eu posso estar de uma maneira sem de fato ser; e posso ser de uma forma apesar de não estar em dado momento. Uma alternância difícil de explicar para os não lusófonos, mas que reflete bem a alma instável que somos, dada a improvisos, rompantes, inspirações e criatividade. Em que outro matiz cultural se pode, por exemplo, “amanhecer alegre”? Quem amanhece é o dia e nele podemos estar alegres, mas preferimos entender que as forças da natureza nos conduzem daqui para ali.

O “dono” da língua, o pequeno e discreto Portugal, para ver seu idioma desfrutar da abrangência mundial que possui, teve que contar com a colaboração de sua maior colônia. O Brasil, com seus aproximadamente 206 milhões de habitantes, responde por 80% dos usuários da língua portuguesa. E, modéstia deixada de lado, o que nós não fizemos do tesouro linguístico que os colonizadores nos deixaram?! Basta ver, por exemplo, o formal “vossa mercê” do colonizador, que se transformaria no “vosmecê” do período colonial; seria simplificado num “micês”; daí a um “você”, que carimbou lugar na galeria oficial de pronomes de tratamento inclusive da norma culta; não satisfeito, gerou um doce “ocê” na fala mansa do homem do campo, e por fim um “comé que ce tá?”, que os brasileiros de norte a sul, de todas as classes e níveis de instrução utilizam para negar qualquer formalidade ao dia a dia. Fatos como esse, muito abundantes no modo brasileiro de falar a língua portuguesa, confirmam frases clássicas de dois grandes mestres do idioma. “A minha pátria é minha língua”, diz o português Fernando Pessoa, ao que se pode acrescentar o gênio de Manuel Bandeira quando decreta que “o povo é que fala gostoso o português do Brasil”.

Aliás a língua portuguesa que falamos (pra muitos língua brasileira), que hoje tanto influencia o falar dos próprios portugueses, tratou de levar para o mundo lusófono toda a diversidade da nossa cultura. Basta dizer que o nosso português se construiu a partir de uma espécie de plataforma deixada pela chamada língua-geral, uma criação dos missionários jesuítas, compilando palavras do tronco tupi-guarani. Quando o marquês de Pombal decreta no século XVIII a obrigatoriedade de o português circular como idioma oficial da colônia abolindo qualquer outra, é sobre os falares que se diferenciam nos aldeamentos de norte a sul que a língua portuguesa se apoia. Vem daí a riqueza léxica, prosódica, o fraseado, os sotaques, enfim a deliciosa sonoridade que só quem viaja pelo Brasil pode perceber.

Se falares africanos já haviam influenciado a própria formação da língua portuguesa na Europa, avalie entre nós, que recebemos através do nefando instituto da escravidão dezenas de milhões de almas e uma infinidade de culturas? Eles ajudaram a moldar o jeito doce e musical que seduz tanta gente, além de legar um sem-número de palavras que hoje falamos em ocasiões tão especiais: samba, caçula, cafuné… Ainda hoje a herança africana que compõe o Brasil tem atuação preponderante na difusão do idioma, como se pode constatar nessa verdadeira embaixada da língua portuguesa que são os grupos de capoeira espalhados pelo mundo. Seja qual for a latitude do planeta em que se tenha aberto uma roda, todos os participantes forçosamente sabem alguma coisa de português. Imagine a experiência de gente de todo tipo – orientais, caucasianos, mestiços – jogando/dançando/lutando e se comunicando através de termos tão familiares como rabo de arraia, macaco, bananeirinha…

Enfim, pra terminar esse texto, aproveito primeiro para expressar a minha felicidade de poder estar em contato diário com essa língua em condição, digamos, mais especial do que a de mero falante, o que já não seria pouca coisa. Como profissional que tem como matéria-prima esse idioma, sou levado diariamente a vivenciar a gratificante experiência de penetrar num acervo tão rico de histórias, ideias, sensações e pensamentos. Cada palavra traz em si um universo indefinível de significados, de vivências humanas que ajudaram a construir uma cultura multicontinental como a que parte da Península Ibérica e que já é, por si só, o resultado de tantas outras culturas, línguas e povos.

Assim como eu, cada professor, cada estudioso, cada acadêmico, cada escritor, mas também cada leitor ou apenas falante, somos todos, de uma forma ou de outra, cultores de uma língua, construtores de um imenso acervo cultural, trabalhadores que dia a dia aumentam o patrimônio de uma parte da humanidade e o deixam para o conhecimento universal, para a memória da espécie humana. Os parabéns vão para todos aqueles que de alguma forma têm como materna a língua de Camões, mas também de Machado, de Semedo, de Agualusa, de Mia Couto, de joões, de marias, de beltranos, fulanos e sicranos…


Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.