Curiosas origens de expressões que usamos na língua portuguesa de hoje


Ao contrário do que muita gente pensa, nem só de lições e regras vive a nossa amada língua materna. Uma parte importante dos estudos de um idioma diz respeito à fraseologia, que abrange os muitos aspectos que presidem a formação das frases que empregamos no cotidiano. Algumas delas ganham uma espécie de fixidez e se tornam sentenças com vida própria, que acabam sendo utilizadas pela maior parte dos falantes. Um estudo bem interessante sobre essa questão se refere à maneira como essas frases foram geradas. É o que vamos abordar agora, trazendo alguns exemplos descontraídos de como surgiram expressões que com certeza você conhece bem.

É preciso cuidado para não comprar gato por lebre.

Aparentemente essa expressão começou a ser usada em épocas de forte carestia, como catástrofes naturais ou guerras. A carne de animais como lebre e semelhantes era muito apreciada, mas tornou-se difícil de adquirir e cara em tempos de incerteza. Assim, alguns comerciantes (de caráter duvidoso, é claro) tentaram substituir por outro bicho menos, digamos, glamoroso. Mas o valor quase sempre permanecia o do alimento de melhor qualidade. Daí a necessidade de quem podia comprar lebre de se assegurar que não estava levando para casa um belo bichano disfarçado.

Ele sempre foi a ovelha negra da família.

Esse termo, ao que parece, tem origem na Antiguidade, onde em muitas culturas os animais de pelo negro eram considerados amaldiçoados. Por esse motivo, estavam no topo da lista na hora de oferecer sacrifícios a deuses cultuados por essas coletividades. O conceito então se estendeu aos seres humanos, que se tornavam “malditos” quando destoavam do padrão ético ou desobedeciam aos costumes de suas sociedades. É uma expressão tão popular que existe também em várias outras línguas.

De tanto gastar acabou ficando ao deus dará.

Essa expressão, ao contrário da anterior, é bem brasileira. Teria surgido no Recife em torno do comerciante Manuel Álvares, conhecido por prover tropas de soldados que lutavam contra os holandeses que ocupavam o estado no século XVII. Reza a lenda que, quando faltavam recursos, ele costumava acalmar as pessoas dizendo “Deus dará”. O fraseado ficou tão popular que conseguiu a proeza de extrapolar os limites da capital pernambucana e se espalhar por todo esse continente chamado Brasil.

Ela se preparou com carinho para a lua de mel.

Essa maneira de chamar o período (curto, infelizmente) em que os recém-casados se dedicam à nova vida tem origem provavelmente na Irlanda durante o período Medieval. Os pombinhos passavam um tempo de aproximadamente um mês (uma lua) ingerindo uma bebida chamada mead, composta de água, malte, levedo e mel, sendo este último considerado naquele país um alimento afrodisíaco. Esse período era tido, como ainda hoje, como uma fase muito especial para quem passava a jogar no time dos casados. A forma de celebrar esse momento variou com o tempo, mas o nome – uma combinação de dois belos produtos da natureza – permaneceu.

Diante da dúvida, optou por lavar as mãos.

Esse nosso último exemplo é muito conhecido nas culturas cristãs e você provavelmente já “matou” a sua origem. Se você pensou que ela se refere ao célebre ato de Pôncio Pilatus, governador da Judeia, depois de ele ter deixado o povo escolher entre libertar um malfeitor ou o pacífico Jesus, acertou. A expressão passou a ser utilizada para ilustrar todo ato de omissão, algumas nem tão graves como essa, com tão importantes consequências para a história da Humanidade.

Viu como estudar língua portuguesa pode também ser algo descontraído? E o que é melhor: sem deixar de ser ao mesmo tempo um ato de aquisição de cultura e conhecimento. Até a próxima, pessoal!


*Graduado em Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa, Revisor da Revista Appai Educar, Colunista do blog da Appai, Escritor e Mestre em Literatura Brasileira.


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