Cantando e contando o Nordeste brasileiro


Projeto revela cultura e desmistifica preconceitos

A equipe pedagógica da Escola Municipal Dr. Nelcy Noronha, que atende ao Ensino Fundamental II, acredita na literatura como o caminho para levar o adolescente a desenvolver a imaginação e emoções de forma prazerosa e significativa. Com objetivo de fazer uma homenagem ao Nordeste, os educadores aproveitaram o centenário de Luiz Gonzaga para realizar a II Flinn – a Feira Literária, com o tema “A Flinn canta e conta o Nordeste brasileiro”.

A proposta era divulgar a cultura dessa região além dos estereótipos e homenagear nomes como Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga, Jorge Amado, incluindo as lendas e histórias desse povo. A atividade aconteceu no decorrer do 3º bimestre e, na semana do evento, os estudantes assistiram a filmes relacionados à cultura nordestina como “Lisbela e o prisioneiro”, “Lampião e Maria Bonita” e “O auto da compadecida”. Os jovens pesquisaram na Internet, estudaram a geografia da região, trabalharam com diversas linguagens e gêneros literários, confeccionaram artesanato com argila, entre outras atividades. O logotipo da feira foi escolhido em concurso realizado na escola. Mauro, do 6º ano, foi o vencedor e levou o maior prêmio: seu desenho estampado na camisa do evento.

A professora Márcia Lucindo, da Sala de Leitura, escreveu a peça “Books Stories”, com alunos do 7º ano, enfocando a importância da contação de histórias. No enredo, os livros ganham vida, os personagens conversam e, no final, cada autor dança com seu livro. Com o 9º ano os professores criaram números em homenagem ao Rei do Baião, apresentados durante a culminância. Para completar outra equipe apresentou uma entrevista com Luiz Gonzaga em vídeos. A surpresa, segundo Carla Maria Oliveira, de Ciências, é que muitos jovens conheceram a música e a biografia de Luiz Gonzaga durante o trabalho. Mônica Gomes, de Língua Portuguesa, apresentou o coral Asa Branca, com turmas do 1º ano, e mostrou que o artista, por onde passava, levava alegria com sua música. O professor Rafael foi convidado e tocou acordeom para as turmas, que ficaram em emocionadas.

Muitas histórias

O “Xote das meninas”, um dos maiores sucesso do artista, foi trabalhado pelas professoras de Língua Portuguesa Márcia Guedes e de História, Fernanda Palomari, ambas do 8º ano. A partir dos primeiros versos, falou-se sobre o mandacaru, um cacto que independe da chuva para florescer, fazendo uma comparação entre a flor dessa planta e a menina que enjoa da boneca e torna-se mulher.

Josemar Barbosa, que leciona Geografia, contou a história do Boi-bumbá através de uma peça com a turma do 6º ano. Segundo a lenda, a mulher do empregado tem desejo de comer língua de boi do patrão. O empregado então mata o boi e leva a língua para a esposa. Ao descobrir a verdade, o patrão se indigna, exige que ele ressuscite o animal e convoca algumas autoridades religiosas.

Carla Maria levantou questionamentos sobre a vida de Luiz Gonzaga com alunos do 9º ano. Os estudantes pesquisaram sobre a fascinação do mestre pelo Rei do Cangaço – Lampião, e acabaram conhecendo a história do “Cangaço Brasileiro”. Caracterizados de cangaceiros, Marias Bonitas e sertanejos, os alunos denunciaram a miséria na caatinga e o poder de fogo dos cangaceiros ao som de Asa Branca, Mulher Rendeira e Eu só quero um Xodó. “Foi gratificante ver os jovens descobrindo como o artista venerava o sertão, a figura do Lampião, vendo que se vestia de cangaceiro para homenagear o movimento”, conta a docente.

O Tropicalismo foi lembrado pelos alunos do 9º ano, orientados pela docente Rita Simone, que levou os estudantes a compreenderem o tema e a influência que exerceu na cultura pop brasileira e até internacional. Rita conta que os jovens, que se apresentaram cantando a canção “Alegria, Alegria”, assimilaram a importância do movimento no contexto político como combate à ditadura militar.

Outro homenageado foi Jorge Amado através da dramatização de suas obras como “Gabriela”, “Pedro Bala”, “Dona Flor e seus dois maridos”, “Tieta”, entre outras. Os estudantes criaram um diálogo entre Luiz Gonzaga e o escritor baiano em “Viajando nas asas da Literatura”, um dia em que os dois dançaram um forró. Alunos do 7º ano exploraram “Estereótipos e a Paraíba”, um miniteatro que levou as turmas a refletirem sobre preconceito e discriminação, revelando que existem termos de “humor” que são manifestações de racismo e intolerância.

Para completar a festa, o colégio contou com a presença do poeta José Maria, que conversou com as turmas. Não faltaram no trabalho artistas populares renomados como Romero Brito, Chico Anísio e Renato Aragão. Carla lembra que alguns nordestinos que fazem parte do corpo docente, como Fátima de Oliveira, foram homenageados como todos os “famosos”, afinal são artistas do cotidiano, que transformam o Nordeste sofrido das grandes secas e retirantes na poesia compromissada do homem com a terra.

Segundo a coordenadora pedagógica Claudia Mayrink, a experiência foi muito importante para os dias atuais, em que se fala em inclusão e combate ao preconceito. Uma das propostas do projeto, segundo ela, foi minimizar os estereótipos que temos em relação ao povo nordestino, a visão de uma terra seca, onde só há miséria e retirantes: “Uma pessoa que nasce em qualquer lugar do Nordeste é chamada de ‘paraíba’, como se a região fosse homogênea. Há outras coisas lá além da seca, como turismo, o litoral, vários climas, cultura. Muitas empresas estão se instalando nessa parte do Brasil e já há um movimento migratório no sentido contrário. São peculiaridades que os nordestinos não conheciam”, conclui.


Por: Cláudia Sanches
Escola Dr. Nelcy Noronha
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E-mail: emnoronha@rioeduca.net
Direção: Claudia Maria Nunes Machado
Fotos cedidas pela escola

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