Bandeira de Fé – 80 anos de Martinho da Vila


Projeto Martinho da Vila leva alunos ao Theatro Municipal

Como parte das comemorações dos 80 anos de Martinho da Vila, completos em fevereiro, alunos do Ensino Médio da rede pública fluminense ganharam um presente: assistir o ensaio geral de “Bandeira de Fé”, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, um espetáculo musical que reuniu o popular e o erudito. Certamente um marco para os estudantes que durante o ano letivo integraram o projeto Na minha escola todo mundo é bamba: todo mundo lê, mesmo quem não samba, ação de incentivo às artes e à leitura da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc).

Os cerca de 1.500 alunos, e seus professores, não conseguiam esconder o nervosismo e a ansiedade quanto ao show do personagem de suas pesquisas. Ele se apresentava em um dos mais belos e imponentes prédios da cidade, cuja história se mescla com a trajetória cultural do Brasil. Para muitos daqueles jovens – em geral, oriundos de famílias de classe média baixa – a impressão era de uma verdadeira viagem no túnel do tempo da história nacional e da elite brasileira. No Municipal do Rio, inaugurado em 1909, transitaram renomados artistas e personalidades – nacionais e estrangeiros –, entre eles, Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, em 2011. E agora os secundaristas apreciadores da extensa obra do intelectual de Vila Isabel, nascido, em 1938, Martinho José Ferreira, no município fluminense de Duas Barras.

O estudo da obra do multifacetado músico possibilitou o desenvolvimento de variadas abordagens, como violência contra as mulheres, produção intelectual de personagens brasileiros negros, formação superior e luta pela igualdade racial.

O estudo da obra do multifacetado músico possibilitou o desenvolvimento de variadas abordagens, como violência contra as mulheres, produção intelectual de personagens brasileiros negros, formação superior e luta pela igualdade racial. Na análise, também as inferências com os contextos da época e da atualidade realizadas por meio de inúmeras atividades – leituras, músicas, literatura em audiovisual, documentários, comparação com outros gêneros e produção de outros autores. Posteriormente, a produção de paródias, poesias, redação e pintura, havendo seleções em cada uma dessas modalidades.

Ao longo das dinâmicas, os discentes conheceram a trajetória pessoal e profissional do músico, que com mais de sete décadas fez sua primeira graduação, por conta de seu trabalho como embaixador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Tal como o samba “O Pequeno Burguês” (1969), estudou em uma instituição privada: “Felicidade! / Passei no vestibular / Mas a faculdade / É particular / Particular! / Ela é particular / Particular! / Ela é particular…”.

Essa música virou um verdadeiro hino dos estudantes pobres que sonhavam com o ensino superior e dos de classe média, também em busca das universidades públicas. Conhecedora do teor das reivindicações, a plateia acompanhava emocionada cada estrofe do laureado com o título de Doutor Honoris Causa em Letras, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Entre as caravanas presentes ao evento, alunos do Colégio Estadual Santos Dias, do bairro de Neves, São Gonçalo; do Colégio Estadual Oscar Batista, de São João do Paraíso, distrito de Cambuci, no noroeste fluminense; do Instituto de Educação Professor Joel Monnerat, de Três Rios; e do Ciep 223 Olympio Marques dos Santos, de Santíssimo, Zona Oeste do Rio.

Violência contra a mulher foi o tema tratado pela professora Maria José Pires Simão, do Colégio Estadual Santos Dias, tendo como referência a música “Mulheres” (1995). O assunto começou a ser desenvolvido desde o ano letivo anterior. “O conteúdo é do 4º bimestre em Literatura é Pré-Modernismo e, dentre as obras trabalhadas, estudamos a crônica de Lima Barreto intitulada “Não as matem”. Depois de mãos à obra com pesquisas entre os anos 1917 e 2017, o que se avaliou foi que houve poucas mudanças: “as mulheres continuam sendo mortas por motivos banais”.

Com o Projeto de Leitura Escolar (PLE) sobre Martinho da Vila, Na minha escola todo mundo é bamba: todo mundo lê, mesmo quem não samba, foi possível se ampliarem os debates. No processo, ouvir, interpretar e analisar a produção de versões autorais. Como aconteceu com Dorallyce e Sílvia, da turma 2.001, quando cada uma declamou um verso. Ao final da leitura homenagens a uma personalidade feminina de destaque com o coro: “Presente!”.

Nas análises, a percepção da presença do machismo nas letras de sambas e rodas. Falar sobre o tema, segundo a professora, é um bom começo de mudança de cultura. “A mulher já teve sua utilidade relacionada às prendas domésticas e, pra ser boa, tem que ser bela, recatada e do lar. Músicas como “Baile de favela”, “Amiga da minha mulher”, “Um tapinha não dói”, “Mulheres vulgares”, entre outras, “carregam em suas letras mensagens extremamente ofensivas e que reforçam o sexismo, mas mesmo assim cantamos e dançamos”. Em “Mulheres” viram a idealização da criatura perfeita e ao lado os diversos estereótipos, como a desequilibrada, a donzela ou a meretriz. Mulher perfeita? Perfeita pra quem? Quem determina isso?”, questionou Maria José Pires Simão, ao referir-se aos debates suscitados pelos alunos, que somavam um total de 41, levados pelo colégio.

As surpresas com o refino do pensamento do intelectual Martinho da Vila foram marcantes para os secundaristas, acostumados a ver o samba e seus compositores de forma estereotipada. Foi o que comentou a professora Solange Gonçalves Diniz, do Colégio Estadual Oscar Batista. As paródias e resenhas revelaram que todos “eram bambas”, como comprovado pelos alunos Pedro Henrique Gonçalves Diniz Leal, 16 anos, e Vitória Ribeiro Gonçalves, 18 anos, ambos do 2º ano. Para eles, o projeto possibilitou descobrir e compreender a riqueza das composições produzidas pelo intelectual Martinho da Vila: “não se julga o livro pela capa”, enfatizaram contentes de poderem assistir ao show do grande mestre.

O mesmo ocorreu com a caravana do Instituto de Educação Professor Joel Monnerat, do município de Três Rios, conforme destacado pela professora Rosania Pereira de Souza, à frente do grupo maravilhado com tudo o que presenciou. Mas as surpresas e o encantamento provocados com o projeto, focado nas Salas de Leituras, contagiaram outras disciplinas, como ocorreu com o Ciep 223 Olympio Marques dos Santos, originário do bairro de Campo Grande, na Zona Oeste. Sua diretora-geral, Adriana Candida de Souza, informou que toda a escola aderiu ao estudo. Como no samba “Devagar, devagarinho” (1995), com passos firmes a boa música foi “driblando os espinhos” que encontrava pelo caminho e seguiu seu próprio roteiro para chegar até onde quis. No caso do menestrel do samba: mais de 50 discos e 16 livros.


Por Sandra Martins
Participaram desse projeto as escolas: Colégio Estadual Santos Dias, Colégio Estadual Oscar Batista, Instituto de Educação Professor Joel Monnerat, Ciep 223 Olympio Marques dos Santos
Fotos: Marcelo Ávila

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