Histórias que ensinam para além da sala de aula

Três relatos que revelam como a escuta, a inteligência emocional e os gestos de afeto também transformam vidas



A educação acontece de muitas maneiras. Está na orientação oferecida a um estudante nos corredores da escola, no acolhimento que ajuda jovens e famílias a lidarem com suas emoções e até na homenagem inesperada que revela o carinho de uma turma por sua professora. São experiências diferentes, mas que têm algo em comum: a capacidade de mostrar que ensinar também é construir vínculos que permanecem.

Nesta edição da campanha “40 educadores que transformam vidas”, conheça três histórias que revelam o alcance dessa missão. São trajetórias que mostram como a presença, a escuta e o compromisso com a educação podem fazer diferença dentro e fora da sala de aula. Relatos que valorizam quem educa diariamente e nos lembram que, muitas vezes, os resultados mais significativos aparecem nos gestos, nas palavras e nas lembranças que os estudantes levam consigo.

 

Um troféu para quem ensina com amor

A professora de Espanhol que descobriu, em uma homenagem inesperada dos alunos, o valor de sua escolha profissional

A primeira aula depois das férias e da final da Copa do Mundo reservava uma surpresa especial para a professora Mariana, que leciona a disciplina de Espanhol, na escola xxxx. Ao chegar à sala, ela foi recebida pelos alunos com um troféu e muito carinho. Sem entender o motivo da homenagem, perguntou o que havia feito para merecer aquele prêmio. A resposta veio com a espontaneidade que torna alguns momentos inesquecíveis.

“Se a Espanha ganhou o campeonato, você também merece o prêmio, porque é a nossa professora de Espanhol”, disseram os alunos. A brincadeira carinhosa a emocionou. Os estudantes talvez não imaginassem o significado daquele gesto, mas, para a docente, a homenagem representou muito mais do que uma associação divertida entre a vitória da seleção espanhola e sua disciplina. Foi uma demonstração de afeto que a fez refletir sobre a importância de sua presença na vida dos alunos.

Quando escolheu a docência, ela carregava o desejo de transformar o mundo por meio da Educação. Ao mesmo tempo, enfrentava os receios de quem assume uma missão tão importante, com medo de errar ou de não ser suficiente para corresponder às responsabilidades da profissão.

Com o tempo, as experiências em sala de aula e o reconhecimento dos estudantes passaram a ajudá-la a enxergar sua trajetória de outra maneira. As mensagens e homenagens recebidas reforçaram a percepção de que ela oferece o melhor de si à profissão e de que seu trabalho deixa marcas na vida daqueles que passam por suas aulas.

Hoje, ensinar Espanhol é a realização de um de seus maiores sonhos. Seja nas salas de aula presenciais ou no ambiente virtual, ela encontra na docência a oportunidade de viver diariamente aquilo em que acredita.

Ao celebrar o Dia dos Professores, sua história também expressa um desejo que ultrapassa a própria trajetória, o de que o caminho seja generoso com todos aqueles que escolheram a Educação por amor e coragem.

 

Inteligência emocional também se ensina

A psicóloga que aproximou saúde mental, escolhas profissionais e educação

Karla Souza iniciou sua trajetória com a formação de professora pelo Instituto Educacional Sarah Kubitschek. A experiência como técnica em Administração despertou seu interesse pela questão humana e a levou à graduação em Psicologia. Hoje, é psicóloga clínica, com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e especializações em diferentes áreas, entre elas Neuropsicopedagogia, Psicologia Organizacional e Orientação Profissional e de Carreira pela PUC-Rio. Embora não atue em uma sala de aula tradicional, encontrou na educação emocional uma forma de continuar ensinando, o que também levou a que se aproximasse de temas como inteligência emocional, orientação profissional e desenvolvimento humano.

“Não atuo em sala de aula tradicional, mas considero-me uma verdadeira professora da inteligência emocional”. Nos atendimentos de orientação profissional e de carreira, Karla identificou uma preocupação recorrente entre os jovens. A pressão para escolher uma profissão cada vez mais cedo, muitas vezes antes mesmo de conhecer as possibilidades existentes, provoca ansiedade e insegurança. No convívio entre famílias e escolas, também percebeu dificuldades para lidar com questões comportamentais e de aprendizagem, especialmente quando o cuidado emocional acaba sendo tratado como responsabilidade exclusiva da instituição de ensino.

A partir dessas experiências, decidiu unir seus conhecimentos em Psicologia, Neuropsicopedagogia e Educação para promover palestras, orientações e atendimentos destinados a escolas, empresas e famílias. “Passei a compartilhar minha própria história para mostrar que a trajetória não precisa ser linear. Podemos escolher uma área, seguir por algum tempo e depois migrar para onde nos sentimos mais felizes”.

A própria mudança de percurso tornou-se uma ferramenta de trabalho. Ao compartilhar sua experiência, Karla procura mostrar que as escolhas profissionais não precisam ser definitivas e que mudar de direção também pode representar amadurecimento e autoconhecimento.

 

Cuidar das emoções também faz parte da aprendizagem

Em suas atividades, ela orienta pais e educadores a compreenderem melhor o comportamento humano, reconhecerem necessidades relacionadas à atenção e construírem uma relação mais colaborativa entre família e escola. A proposta é reduzir conflitos e criar condições para que o desenvolvimento acadêmico aconteça em conjunto com o bem-estar emocional.

Segundo Karla, essa aproximação contribui para diminuir a sobrecarga, o estresse e a ansiedade, além de ajudar jovens e profissionais a recuperarem a confiança para fazer escolhas mais alinhadas aos próprios interesses e objetivos. Para ela, ensinar também significa preparar as pessoas para compreenderem a si mesmas, enfrentarem desafios e assumirem o protagonismo de suas decisões. “Ensinar a cuidar da mente é o caminho mais seguro para conquistar autonomia e transformar vidas”, afirma.

 

O cuidado que também educa

A inspetora escolar que faz da escuta e do diálogo parte de sua missão na educação

Marta trabalha na área da educação desde 2014 e, atualmente, atua como inspetora escolar na Escola Municipal Panaro Figueira, em Seropédica. Sua rotina acontece principalmente nos corredores e nos momentos de convivência com os alunos, onde encontra oportunidades para orientar e conversar com os estudantes.

Ao longo dos anos, ela foi percebendo que os desafios mudam a cada turma. Um deles é a falta de participação e apoio de algumas famílias, aspecto que considera importante para o desenvolvimento e a disciplina dos alunos. Diante dessas situações, Marta procura agir por meio do diálogo, buscando compreender o que cada estudante está vivendo antes de intervir em seu comportamento.

Em sua rotina, a escuta ocupa um lugar importante. Para ela, educar não significa apenas ensinar ou chamar a atenção, mas também reservar tempo para conversar, aconselhar e incentivar os alunos a fazerem escolhas melhores e a não desistirem dos estudos.

Uma das experiências que mais a deixam feliz acontece quando estudantes que já saíram da escola retornam para conversar e contar como está sua vida educacional. Nesses reencontros, Marta percebe que as orientações oferecidas durante a convivência podem permanecer na trajetória dos alunos. “Minha missão é estar presente, ouvir e orientar, tentando deixar em cada aluno um pouco de carinho, respeito e a certeza de que ele pode escolher um caminho melhor”, afirma.


Por Antônia Figueiredo