Copa do Mundo 2026 na escola

Quando o maior espetáculo esportivo do planeta se transforma em território de aprendizagem


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Em 2026, a Copa do Mundo alcançará uma escala inédita: três países-sede, Estados Unidos, México e Canadá, 48 seleções e 104 jogos. A ampliação transforma o torneio em um fenômeno ainda mais complexo, marcado por circulação intensa de símbolos, narrativas, disputas econômicas e tensões políticas. Mas, para além do espetáculo, o que esse evento pode representar para a escola? Quatro educadores, Eugênio Cunha, Adriana Maria, Luiz Felipe e Jonathan Aguiar, convergem em um ponto essencial. A Copa pode e deve ser lida como território pedagógico. Mais do que isso, ela pode se tornar um laboratório privilegiado para a formação de leitores críticos do mundo. 

 

A escola não é uma ilha  

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Para Eugênio Cunha, ignorar um evento que mobiliza muitas pessoas seria negar a própria função social da educação. “Quando milhões se mobilizam, a postura da escola deve ser de análise e mediação”. Celebrar sem crítica, segundo ele, é renunciar ao papel intelectual e formativo da instituição. O interesse dos estudantes é energia. A intencionalidade pedagógica é o motor. É essa consciência que transforma entusiasmo em aprendizagem significativa. Não se trata de “fazer por fazer”, mas de “fazer para ensinar”: planejar, definir objetivos claros e conectar o evento aos objetos de conhecimento. 

Nesse contexto, a Copa torna-se campo fértil para múltiplas abordagens. A Geografia ganha concretude ao discutir fusos horários e deslocamentos. A História emerge nas relações diplomáticas entre países. A Matemática se revela na análise de dados e probabilidades. As Linguagens investigam discursos midiáticos e a construção de heróis nacionais. A emoção não é descartada. Ela é ponto de partida, nunca de chegada. 

 

Pertencimento: o jogo que começa no território

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Se o evento é global, seus impactos são profundamente locais. Para Jonathan Aguiar, a Copa revela marcadores intensos de identidade, especialmente nas periferias. “Desconsiderar a cultura do estudante é também excluir seu direito de sonhar”. O futebol, nesses territórios, é linguagem cultural, sonho e possibilidade simbólica de ascensão social. Sonhar em ser jogador não é mera fantasia infantil. É projeção de futuro. É construção de identidade. 

Quando a escola ignora as culturas juvenis, reforça processos de exclusão simbólica. Muitos estudantes chegam carregando saberes e referências de seus territórios. Se esses elementos são desconsiderados, a mensagem implícita é clara: sua identidade não cabe aqui. Ao incorporar a Copa como objeto de estudo, e não apenas como atividade recreativa, a escola cria pontes reais para aprendizagens significativas. 

“O lúdico, longe de ser oposição ao conhecimento, pode ser via potente de acesso a ele”. A partir do evento, é possível discutir racismo estrutural no futebol, desigualdades econômicas entre países, construção midiática de ídolos e participação feminina no esporte. “O que pulsa no cotidiano transforma-se em análise crítica”, destaca Jonathan. 

 

Ampliar não é incluir

A edição de 2026 será a maior da história da competição. Mas a ampliação do número de seleções garante inclusão efetiva? “Ampliar não é incluir”, afirma Adriana Maria. Com trajetória na Educação Especial, ela propõe um olhar atento. “O aumento quantitativo precisa vir acompanhado de condições concretas de participação, investimento e reconhecimento”. Caso contrário, corre-se o risco de produzir presença formal sem justiça substantiva. 

Adriana relembra que, historicamente, nações com menor poder econômico tiveram menos protagonismo esportivo. Esse cenário dialoga com processos mais amplos de exclusão social, os mesmos que atravessam a escola quando determinados grupos enfrentam menos recursos, menor visibilidade e oportunidades desiguais.  

“O esporte fortalece pertencimento coletivo, mas identidade nacional não é sinônimo de homogeneidade”. Trabalhar a Copa criticamente implica analisar discursos midiáticos, questionar narrativas hegemônicas e perguntar quem aparece e quem permanece invisibilizado. 

 

Como trabalhar a Copa do Mundo 2026 na escola

Se os três primeiros especialistas ampliam o olhar crítico, o mestre e professor de matemática Luiz Felipe Lins demonstra como o evento pode se transformar em prática concreta de aprendizagem. Em seu projeto Geometria nas Bandeiras dos Países da Copa do Mundo Fifa, os estudantes reproduzem os pavilhões de cada nação utilizando a técnica de String Art. Madeira retangular representa o plano. Pregos simbolizam pontos. Lã colorida forma segmentos de reta. 

O que poderia ser apenas atividade manual torna-se análise rigorosa de conceitos geométricos: paralelismo, perpendicularidade, ângulos, simetria e proporcionalidade. “Ao mesmo tempo, cada grupo pesquisa aspectos culturais, econômicos e históricos do país estudado. Matemática e Geopolítica dialogam”. A bandeira deixa de ser símbolo distante e transforma-se em objeto de investigação científica e cultural.  

De acordo com Luiz Felipe, o projeto está alinhado à Base Nacional Comum Curricular ao desenvolver raciocínio lógico, pensamento crítico, comunicação matemática e trabalho colaborativo. “Mais do que decorar bandeiras, os alunos argumentam matematicamente, apresentam dados e constroem sínteses”. A Copa, aqui, torna-se ponte entre abstração e realidade. 

Mas se, no espaço da sala de aula, o evento já se revela como território de investigação científica e cultural, fora dela o espetáculo ganha outra dimensão. Em 2026, a experiência da Copa não se limitará aos estádios nem aos projetos interdisciplinares desenvolvidos nas escolas. Ela será vivida em tempo real nas telas dos celulares, nas redes sociais, nas transmissões digitais, nos memes compartilhados no intervalo e na avalanche de conteúdos que circulam com velocidade inédita.  

Formar leitores críticos, portanto, implica também ensinar a ler o espetáculo midiático. É nesse cenário que o letramento digital deixa de ser complemento e passa a ocupar lugar central na formação dos estudantes. 

 

Educação midiática: Ler a Copa para além do placar

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Nada é tão midiático quanto a Copa do Mundo. Poucos eventos, talvez apenas as Olimpíadas, conseguem mobilizar simultaneamente emoção, identidade nacional e uma circulação massiva de informações. Em 2026, com jogos no Canadá, Estados Unidos e México, o volume de conteúdos digitais tende a ser ainda mais intenso, atravessando redes sociais, plataformas de vídeo e aplicativos de mensagens em ritmo acelerado. 

Para ampliar esse olhar dentro do eixo midiático, a reportagem ouviu o jornalista e educador Marcio Gonçalves, formador de professores em Educação Midiática. Para ele, trabalhar a Copa na escola é também ensinar os estudantes a compreenderem como as narrativas são construídas e disseminadas. 

“A escola deve atuar como uma curadora da realidade”. Segundo Marcio, durante grandes eventos esportivos, a desinformação encontra terreno fértil justamente na emoção. Vídeos fora de contexto, manchetes apelativas e conteúdos criados para gerar engajamento exploram sentimentos intensos para garantir compartilhamentos. “Precisamos ensinar os alunos a identificar não apenas o conteúdo, mas a intenção por trás da mensagem”.

 

“Quebrar essa barreira emocional exige uma mediação docente sensível.” 

 

O trabalho, explica, começa pela análise da anatomia da notícia. Quem publicou? Com qual objetivo? Trata-se de um conteúdo produzido para gerar receita publicitária? Um vídeo editado para provocar indignação? Entre as estratégias recomendadas está a leitura lateral, prática que ensina o estudante a abrir novas abas, investigar a fonte e verificar a credibilidade de quem publicou antes de validar a informação como verdadeira. 

Ao abordar os desafios de grandes espetáculos midiáticos, Marcio aponta o viés de confirmação como um dos principais obstáculos. A paixão pelo futebol e o nacionalismo podem criar uma espécie de blindagem cognitiva, levando o estudante a acreditar naquilo que deseja que seja verdade. “Quebrar essa barreira emocional exige uma mediação docente sensível”. 

Por outro lado, ele enxerga na própria Copa uma oportunidade pedagógica singular. Diferentemente de textos históricos analisados retrospectivamente, o evento permite observar a desinformação em tempo real, compreender como ela nasce, se propaga e ganha força nas bolhas digitais. “É o momento em que a teoria da sala de aula encontra o meme do WhatsApp no intervalo”. 

 

“O aluno precisa compreender que liberdade de expressão carrega responsabilidade ética.” 

 

O educador também destaca que esse debate dialoga diretamente com o campo jornalístico-midiático previsto na BNCC e com os três eixos da BNCC Computação, cuja implementação se amplia a partir de 2026. 

No eixo do Pensamento Computacional, ele sugere a criação do que chama de “VAR da informação”, um fluxograma de decisão para checagem de notícias. O estudante identifica a fonte, verifica a data, cruza dados e somente então valida ou descarta o conteúdo. O objetivo é trabalhar decomposição, reconhecimento de padrões e pensamento algorítmico aplicados ao combate à desinformação. 

No eixo do Mundo Digital, a proposta é compreender o funcionamento da tecnologia que sustenta o espetáculo. Sensores em campo, geração de dados, gráficos em tempo real e algoritmos de recomendação tornam-se objeto de análise. O estudante passa a entender que o feed não é neutro, mas organizado por critérios que priorizam conflito e engajamento. 

Já no eixo da Cultura Digital, o debate se amplia para a ética e a responsabilidade. A análise de imagens geradas por Inteligência Artificial, torcidas fictícias ou jogadores em situações inexistentes permite discutir autoria, manipulação, respeito à diversidade e responsabilidade no compartilhamento. “O aluno precisa compreender que liberdade de expressão carrega responsabilidade ética”. 

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Para Marcio, o trabalho com educação midiática durante a Copa contribui diretamente para a formação cidadã. Ao aprender a analisar criticamente o espetáculo esportivo, o jovem desenvolve ferramentas para exercer sua soberania intelectual no ambiente digital. Deixa de ser apenas torcedor ou consumidor de conteúdo e passa a atuar como sujeito consciente em uma sociedade hiperconectada. 

No fim, o futebol é o ponto de partida. O pensamento crítico construído ali ultrapassa o campo e se estende à política, à saúde e às escolhas de vida. 

 

Educar é ensinar a ler o espetáculo

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As cinco vozes convergem em um princípio comum. A escola precisa escolher o que faz com o entusiasmo social: ignorá-lo ou transformá-lo em formação. Para esses educadores, a Copa não é conteúdo em si mesma. É ponto de partida. Pode gerar superficialidade, se reduzida a murais decorativos. Mas pode produzir aprendizagem profunda quando mediada com intencionalidade. 

Entre emoção e análise, pertencimento e crítica, expansão e equidade, campo e rede, a escola encontra um terreno fértil para formar leitores do mundo e das mídias. A Copa do Mundo 2026 pode ser espetáculo. Pode ser fenômeno cultural. Mas, nas mãos de educadores comprometidos, transforma-se em exercício de cidadania, desde a Educação Infantil ao Ensino Superior. Talvez essa seja a maior vitória possível: ensinar nossos estudantes a torcer sem deixar de pensar. Dentro e fora das telas. 


Por Antônia Figueiredo 

 

Fontes: Eugênio Cunha é Doutor em Educação, psicopedagogo, professor do ensino su- perior e da educação básica, pedagogo da Fundação Municipal de Educação de Niterói, especialista em educação especial inclusiva e autismo, além de autor de várias obras | Jonathan Aguiar é Doutor em Educação, Mestre em Educação, psicopedagogo e pedagogo, com várias obras publicadas | Adriana da Silva Maria Pereira é Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação – Faculdade de Educação/Uerj; Mestre em Educação Inclusiva pela Unesp, com graduação em Letras, Ciências Sociais e Pedagogia. Atua como docente nos ensinos Fundamental, Médio e Profissionalizante e como tutora/mediadora em cursos de capacitação/aperfeiçoamento na área da Educação Especial e Inclusiva na Fundação Cecierj no estado do Rio de Janeiro | Luiz Felipe Lins é professor de Matemática nas redes pública municipal do Rio de Janeiro e privada. Mestre pela Unirio e graduado pela Uerj, foi Educador do Ano no Prêmio Educador Nota 10, além de vencedor do Prêmio Shell de Educação Científica e do Global Teacher Award 2023. Já recebeu 14 premiações pelo desempenho de seus alunos na OBMEP e é apresentador do programa “E aí, Professor – Matemática”, no Canal Futura | Marcio Gonçalves é jornalista, educador e formador de professores em Educação Midiática.

 

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