A leitura que faz diferença


Algumas vezes a vida nos desafia com algo que julgamos extremamente difícil ou até mesmo praticamente inalcançável. Foi assim que me senti ao receber minha turma de 2016. Havia sido agraciada com uma turma que tinha muitos problemas. Era uma classe de terceiro ano composta de alunos com idade até 16 anos. Muitos haviam sido retidos diversas vezes, entrado e saído de projetos escolares e havia alunos que mal sabiam ler.

Claro que sabemos todas as situações que os trouxeram a esse momento e a essa turma. Conhecemos todos os problemas e defeitos do sistema, questões sociais, familiares e de saúde que afetam diretamente a vida escolar dos alunos. Podemos passar horas e escrever vários textos falando de cada um deles, mas naquele momento precisava agir. Não adiantaria ficar reclamando e elencando todos os motivos pelos quais a turma poderia não atingir os resultados que eram propostos. Não importava qualquer coisa que tivesse acontecido antes, agora eles eram meus alunos e isso significava que precisava dar tudo de mim para tentar, ao menos tentar.

Mas, o que fazer com crianças de terceiro ano que não leem? A resposta veio de algo que simplesmente amo… ler! Não uma leitura mecânica e sem significado, mas o ler que é necessário à vida, que tem sentido e que nos traz prazer. Por isso começamos a ler. Ler de tudo, ler sempre, ler cada vez mais.

No início não foi fácil. Eles mal escutavam o que eu lia. Não conseguiam parar para ouvir, não tinham esse hábito, nem vontade. Somente aos poucos, cada dia um pouco mais, uns dias melhores do que outros, foram aprendendo que ler pode ser algo bom.

Iniciamos diversos projetos, todos envolvendo leitura. Leitura individual, coletiva, ler para entender, ler para interpretar ou ilustrar, ler para se divertir, ler por ler, ler por prazer de ler.

Espalhamos livros por todos os lugares da sala, não só num cantinho. A sala inteira era um cantinho da leitura. Não esperávamos os momentos da sala de leitura, a sala de leitura foi trazida até eles. Confeccionamos livros, alguns de autoria deles, cada um contribuindo com suas habilidades, respeitando seus limites no momento, mas todos se sentiam importantes, participantes e, aos poucos, começamos a observar os resultados.

Com muito esforço e trabalho a turma foi avançando, desenvolvendo seu potencial, e no final do ano estava tão apegada a eles, ansiosa por prosseguir o trabalho iniciado, que pedi, sim, pedi para continuar como professora desta turma no quarto ano em 2017.

Claro que continuamos nossos projetos de leitura e ainda criamos outros mais. Sinto uma alegria imensa ao ouvi-los lendo, ao vê-los correr para acabar a atividade para pegar um livro para ler, até mesmo “brigando” para levar algum para casa. Nosso clube do livro os incentiva a conhecer novas e antigas histórias e já tem uma lista de obras, votada por eles, esperando para serem iniciadas.

Hoje sinto orgulho de cada um. Descobri possibilidades infinitas e potenciais que antes estavam escondidos atrás da agressividade e problemas de comportamento. Vivemos a cada dia histórias de superação e desafio, em um caminho que sabemos ainda ter muito a percorrer, sem milagres, mas com muita dedicação.

Olhando para esta jornada só temos uma certeza: a leitura pode sim mudar vidas, trazer esperança e nos ajudar a construir algo novo e inesperado. Assim percebemos que fazer a diferença começa em cada um de nós, mesmo nas dificuldades, como disse Fernando Sabino:

 

“De tudo ficaram três coisas…

A certeza de que estamos começando…

A certeza de que é preciso continuar…

A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar…

Façamos da interrupção um caminho novo…

Da queda, um passo de dança…

Do medo, uma escada…

Do sonho, uma ponte…

Da procura, um encontro!”

(O Encontro marcado, Fernando Sabino)


Priscila de Albuquerque Lima Gaia é professora da rede Municipal de Educação, graduada em Serviço Social e especialista em Alfabetização e Letramento.


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