Movimento Abolicionista Popular, a abolição que quase ninguém conhece


As salas de aula brasileiras nos habituaram a entender os acontecimentos que culminariam na Abolição da Escravatura pela ótica das ações que se estabeleceram nos grandes centros, nas proximidades do poder imperial e com a participação de instituições de prestígio social, como a imprensa e as tribunas políticas. Nesse contexto, a marcha da Abolição no Brasil teria se dado a partir da atuação de grandes figuras que passariam para a história como protagonistas desse episódio da vida nacional. Assim, personagens como Joaquim Nabuco, com suas ideias lúcidas e visionárias; José do Patrocínio, que ficaria marcado pela sua atuação na imprensa da capital federal; André Rebouças, pela sua fina habilidade ao tecer diálogos políticos; e Luiz Gama, que se notabilizaria pela capacidade de empregar as brechas da lei para viabilizar juridicamente a queda da escravidão, entraram para a história como grandes motores do movimento Abolicionista.

Pesquisas e produções acadêmicas mais recentes, porém, têm mostrado que a participação nas ações abolicionistas fora do âmbito dos grandes centros foi muito mais eficaz do que se pensa, e de certo modo a essa modalidade de luta contra a escravidão se deve ser atribuído o protagonismo do movimento. Essas ações, que ficariam conhecidas como Movimento Abolicionista Popular, contaram com a mobilização não só de pessoas seduzidas pelo ideal de dar fim ao funesto instituto da escravidão, como também dos próprios cativos, que, ao contrário do que normalmente se propaga, atuaram de forma incisiva e determinante para que o movimento mais tarde se transformasse numa questão nacional.

Essas ações práticas e até certo ponto radicais ganharam destaque a partir da década de 1880 e começaram a chamar a atenção das elites principalmente por ameaçar a soberania da propriedade dos barões da terra e por provocar episódios de evidente risco para a ordem pública. Dentre os muitos grupos que se entregaram a esse tipo de atividade pode-se citar os Caifazes, liderados pelo advogado e promotor, egresso das elites imperiais, Antônio Bento de Souza e Castro. Utilizando-se de suas funções em órgãos ligados à justiça, encaminhava situações como por exemplo a de indicar prepostos abolicionistas para determinar preços em cartas de alforria. Fixadas em valores que o cativo poderia mais facilmente adquirir, muitos “passaportes” para a liberdade chegariam às mãos de escravos, processo com o qual foi possível alforriar um número muito grande de pessoas.

Muitos dos que alcançavam a liberdade ingressavam no movimento, que assim ia ganhando as ruas e principalmente chegando às senzalas. Não demoraram a ocorrer as temidas fugas em massa e a organização de grandes comunidades que se formavam para acolher os cativos que ganhavam liberdade nessas ações, como foi o caso do quilombo de Jabaquara, que chegou a acomodar 10 mil pessoas. Por conta da adesão de pequenos fazendeiros e comerciantes às ações abolicionistas, muitos ex-cativos acabavam conseguindo emprego e se firmando como trabalhadores livres. Nessas ações concentradas nas senzalas, se destacaria a figura de Antonio Paciência, cujo apelido era devido a sua habilidade de esperar o momento propício, em que a segurança se afrouxava, para empreender a ação de fuga de escravos.

Os chamados “cometas” eram outro tipo de colaboradores das ações abolicionistas populares. Constituído principalmente de caixeiros-viajantes que tinham amplo acesso a fazendas e latifúndios, esse grupo atuava secretamente como informantes que facilitavam a execução das ações de fuga em massa. Frequentemente a rede de solidariedade abolicionista se completava com o engajamento de funcionários das companhias ferroviárias simpáticos ao movimento, que clandestinamente embarcavam os cativos em trens que os levavam a cidades do litoral, onde eram absorvidos como mão de obra nos portos. Não eram raras também ações que libertavam escravos enquanto eram transportados pela força policial, quando tumultos provocados aleatoriamente davam oportunidades de arrancá-los à força, muitas vezes os deixando abrigados em residências de cidadãos comuns, que simpatizavam com a causa abolicionista.

À medida que atividades dessa natureza prosperavam e esboçava-se o perigo de que o país fosse tomado por rebeliões de escravos, o movimento Abolicionista se organizava nas principais cidades do país, com destaque para a capital Rio de Janeiro. Por isso, muitos historiadores classificam a chegada dos anseios abolicionistas aos meios intelectuais e políticos como uma espécie de reação, que garantisse aos grupos mais privilegiados socialmente a condução do processo em detrimento daqueles que vinham se organizando de forma autônoma, através do consórcio entre pessoas das classes menos abastadas, libertos, cativos e estudantes. A chegada das ações abolicionistas aos espaços institucionalizados, transferindo o protagonismo para jornalistas, intelectuais e políticos, se por um lado serviu para viabilizar a queda da escravidão em âmbito legislativo e encampado pela força do estado, por outro permitiu que participasse do movimento representantes de setores favoráveis à Abolição, mas divergentes em vários outros pontos, o que acabaria criando muitos condicionantes que no final das contas dificultariam a integração dos libertos depois da assinatura da Lei Áurea.

O longo processo político que culminaria na promulgação final pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888 se encarregaria de acomodar o interesse das várias partes envolvidas, motivo pelo qual o acontecimento entra para a história brasileira com todo o simbolismo do velho atavismo brasileiro das soluções “pacíficas”, representado pelo clima de quase consenso que se verificaria na votação da lei no congresso nacional, com apenas quinze parlamentares se declarando contrários à Abolição no Brasil. A modalidade do movimento que passou a ser a narrativa oficial do fim da escravidão trazia, no final das contas, a garantia de que, sem uma Abolição como resultado da luta direta nas frentes populares, a integração dos libertos se daria de modo bem mais confortável aos interesses das classes que exerciam sua influência no país naquele quase final de império.

*A ilustração para esse texto foi extraída do livro “Da colônia ao império, um Brasil para inglês ver”, de Miguel Paiva e Lília M. Schwarcz.

Leia também: “Por que nem sempre foi a lei da chibata o que predominou durante a escravidão no Brasil”, em http://migre.me/wBq3g


Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.