Muito antes do ABC
O que toda escola de Educação Infantil precisa saber sobre alfabetização emergente

Muito antes de decifrar a primeira palavra, a criança já está construindo, silenciosamente, as bases que vão sustentar toda a sua trajetória como leitora e escritora. Esse processo começa ainda dentro da barriga, quando o bebê já reconhece a voz dos pais e reage a músicas e sons do ambiente, criando os primeiros circuitos cerebrais ligados à linguagem.
Depois do nascimento, ouvir histórias no colo, folhear um livro, rabiscar um desenho ou perceber que aquelas letrinhas na embalagem significam algo, tudo isso já é alfabetização em curso, mesmo sem nenhuma letra sendo ensinada formalmente. Esse processo tem nome, chama-se alfabetização emergente, e especialistas defendem que ignorá-lo na Educação Infantil pode comprometer justamente o resultado que as escolas mais desejam alcançar mais adiante.
Na edição de novembro, a Revista Appai Educar Digital reuniu as contribuições de dois estudiosos que ajudam a compreender como a alfabetização emergente se desenvolve e de que maneira a Educação Infantil pode favorecer esse processo. O professor doutor Geraldo Peçanha de Almeida, especialista em Educação Infantil, e Luciana Maia, especialista em Alfabetização, Avaliação Educacional e Neurociências aplicadas à Educação Inclusiva, abordam aspectos que vão do repertório cultural da criança às experiências com a escrita espontânea, passando pelo ambiente escolar, pela participação da família e pela relação entre corpo e linguagem.
A alfabetização vai além das letras
Aprender a ler e escrever envolve muito mais do que reconhecer letras, decodificar palavras e compreender o que está registrado no papel. Antes de dominar o sistema de escrita, a criança constrói um repertório de experiências, conhecimentos e referências culturais que contribuem para sua relação com a linguagem.
O professor doutor Geraldo Peçanha de Almeida chama a atenção para essa dimensão mais ampla da alfabetização. Para ele, o processo está relacionado às experiências culturais e às práticas sociais vivenciadas pela criança. “A alfabetização é feita da arte, da música, da dança, da história, dos costumes, dos valores e dos momentos em que todos estes saberes se confluem em práticas sociais coletivas”, destaca o docente.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que as experiências da infância têm um papel importante na construção das bases da alfabetização. Brincadeiras, conversas, músicas e histórias não são apenas atividades que antecedem o ensino da leitura e da escrita. Quando planejadas com intencionalidade, elas ampliam o repertório infantil e oferecem oportunidades para que a criança atribua sentido à linguagem.
Outro ponto levantado pelo educador é a pressão para que os pequenos aprendam a ler e escrever precocemente. Segundo ele, a expectativa das famílias pode levar a uma valorização excessiva da capacidade de decodificar códigos, deixando em segundo plano a qualidade das experiências que sustentam a aprendizagem. “Não importa a qualidade dessa alfabetização. A simples capacidade de codificar e decodificar códigos já é o bastante para esses pais não apreciarem o restante”, observa o doutor em educação.
O desafio, portanto, não está em afastar as crianças da escrita, mas em compreender que a aproximação com a essa cultura pode acontecer de diferentes maneiras antes do domínio formal. É nesse equilíbrio que a alfabetização emergente encontra seu espaço, respeitando a infância e ampliando as oportunidades de aprendizagem.
A escrita espontânea como descoberta

Desenhos, rabiscos, letras inventadas e tentativas de registrar palavras fazem parte das primeiras aproximações da criança com a escrita. Mesmo quando ainda não correspondem às convenções ortográficas, essas produções podem revelar o que ela está tentando comunicar e como começa a compreender a representação gráfica da linguagem.
Luciana Maia explica que a escrita espontânea permite à criança perceber que aquilo que ela expressa também pode ser registrado. Por isso, defende que essas experiências façam parte da rotina da Educação Infantil, sem se transformar em treino precoce ou cobrança por resultados. “A escrita espontânea é uma das formas pelas quais a criança começa a compreender que aquilo que pensa e fala também pode ser representado graficamente”, explica Luciana Maia.
Na prática, o professor pode propor situações que despertem o interesse pela escrita, como elaborar uma lista de compras durante uma brincadeira de mercado, produzir um bilhete para um colega, criar legendas para desenhos ou registrar uma história inventada pela turma. O propósito não é exigir que todos escrevam da mesma maneira, mas permitir que participem de uma experiência significativa.
A estudiosa ressalta que esse processo não deve ser confundido com ausência de orientação pedagógica. Cabe ao educador observar as produções, compreender as intenções das crianças e oferecer referências que contribuam para suas descobertas. “O mais importante é entender que escrita espontânea não é escrita sem intenção pedagógica”, ressalta.
Em cada traço, uma expressão, uma história

Quando uma criança apresenta alguns traços e afirma que escreveu o nome da mãe, por exemplo, o professor pode perguntar o que está registrado ali e convidá-la a explicar sua produção.
Em outro momento, pode mostrar a escrita convencional da palavra, estabelecendo uma relação entre a hipótese infantil e a forma utilizada socialmente.
O nome próprio também oferece oportunidades importantes de exploração. Por estar ligado à identidade, costuma despertar a curiosidade dos pequenos e pode servir de referência para observar letras, comparar nomes e reconhecer semelhanças entre palavras. Essas descobertas ganham sentido quando surgem em situações reais, como a chamada, a identificação dos pertences e a organização das produções da turma.
O cuidado, portanto, está em não corrigir cada tentativa como se a criança já tivesse obrigação de dominar a escrita convencional. Valorizar suas hipóteses e, ao mesmo tempo, apresentar modelos adequados permite aproximá-la da cultura escrita sem transformar essa experiência em uma sequência de cobranças.
Um ambiente que dá sentido à escrita
A presença de livros, cartazes, rótulos e outros materiais escritos pode ampliar as oportunidades de aprendizagem na Educação Infantil. No entanto, o simples fato de esses recursos estarem expostos não garante que as crianças compreendam sua função. Para que o ambiente contribua efetivamente para a alfabetização emergente, é importante que a escrita faça parte das experiências cotidianas.
Luciana Maia pondera que os materiais precisam ser utilizados em situações reais, nas quais as crianças possam observar sua finalidade e participar de seu uso. “Um ambiente visualmente carregado não garante aprendizagem. O que faz diferença é a forma como esses recursos são utilizados nas interações diárias”, assegura a especialista.
Um painel com a rotina, por exemplo, ganha significado quando professor e crianças consultam suas informações. A identificação das caixas de brinquedos torna-se uma oportunidade de leitura quando os pequenos utilizam palavras e imagens para encontrar o que procuram. Já um cartaz produzido coletivamente permite que reconheçam a escrita como resultado de uma conversa e de uma intenção compartilhada.
Luciana também destaca a importância de construir esse espaço com a participação da turma. Listas elaboradas a partir das ideias das crianças, registros coletivos de descobertas e legendas criadas para desenhos podem ter mais significado do que materiais prontos que não fazem parte das experiências do grupo.
Outro cuidado é considerar as diferentes necessidades de aprendizagem. Uma sala organizada, com informações visuais claras e recursos acessíveis, pode favorecer a participação de toda a turma, inclusive de crianças neurodivergentes. A intenção não é retirar os estímulos, mas selecionar aqueles que realmente contribuem para a compreensão e a interação.
Ampliar repertórios é uma questão de equidade
As crianças chegam à Educação Infantil com experiências diferentes de contato com livros, histórias, conversas e materiais escritos. Para a escola, reconhecer essas diferenças é fundamental para ampliar as oportunidades de aprendizagem sem transformar desigualdades de acesso em expectativas reduzidas sobre o potencial infantil. Luciana Maia propõe que os educadores se concentrem nas experiências que ainda podem proporcionar, em vez de interpretar as diferenças de repertório como incapacidade para aprender. “Prefiro perguntar que experiências essa criança ainda não teve e o que a escola pode oferecer de forma sistemática?”, comenta.
A leitura em voz alta é uma das práticas que podem contribuir para essa ampliação. Histórias, poemas, parlendas, receitas, convites e outros gêneros textuais permitem que as crianças conheçam diferentes formas de organização da linguagem. As conversas que acompanham essas leituras também favorecem a expressão oral, a compreensão e o desenvolvimento do vocabulário.
Em projetos sobre animais, plantas ou outros temas de interesse da turma, o professor pode apresentar palavras novas relacionadas a imagens, objetos e experiências concretas. O objetivo não é acumular termos, mas ajudar as crianças a compreender conceitos e ampliar suas possibilidades de expressão.
A circulação de livros entre a escola e a casa também pode aproximar as famílias da cultura escrita. Uma sacola literária, por exemplo, permite que a criança compartilhe uma história com seus responsáveis sem que eles precisem assumir o papel de professores. Observar as ilustrações, ouvir a narrativa e conversar sobre os personagens já são formas importantes de participação.
Ainda segundo Luciana, revisitar uma história pode aprofundar a experiência de leitura. A cada novo contato, a criança tem a oportunidade de reconhecer expressões, antecipar acontecimentos e perceber detalhes que talvez não tenha observado anteriormente.
A família participa sem transformar a casa em escola
A participação dos responsáveis não precisa estar associada a exercícios formais ou à cobrança de resultados. Conversas, histórias, músicas e situações cotidianas oferecem oportunidades para que a criança perceba como a linguagem oral e escrita está presente em diferentes momentos da vida.
Luciana Maia recomenda que a casa não se transforme em uma extensão da escola. A contribuição familiar, explica, está em criar experiências naturais e afetivas com a linguagem, sem exigir que a criança aprenda a ler antes do momento adequado. “Na alfabetização emergente, a contribuição mais valiosa da família não está em antecipar exercícios formais, cobrar letras ou exigir que a criança ‘já saiba ler’”, orienta.
Uma história antes de dormir, uma conversa durante uma caminhada ou a participação na elaboração de uma lista de compras podem se tornar momentos de aprendizagem. Ao observar um adulto escrevendo um bilhete ou consultando uma receita, a criança começa a perceber que a escrita atende a diferentes necessidades.
Brincar com a linguagem merece espaço
As brincadeiras com a linguagem também merecem espaço. Cantigas, parlendas, rimas e jogos de adivinhação ajudam os pequenos a explorar palavras e sons de maneira prazerosa, sem que cada experiência precise assumir o formato de uma atividade escolar.
Outro cuidado importante é evitar comparações entre crianças. Cada uma percorre seu caminho de desenvolvimento, e transformar a leitura e a escrita em provas constantes de desempenho pode associar essas descobertas à frustração. O mais importante é compreender que apoiar a alfabetização emergente não significa ensinar antecipadamente o conteúdo do primeiro ano. Significa oferecer condições para que a criança desenvolva curiosidade, amplie seu repertório e construa uma relação positiva com a linguagem escrita.
Corpo, linguagem oral e alfabetização caminham juntos
A aproximação com a leitura e a escrita não acontece isoladamente. Antes de registrar palavras convencionalmente, a criança explora o mundo com o corpo, participa de brincadeiras, observa movimentos, escuta sons, conversa e aprende a organizar suas experiências.
Luciana Maia ressalta que essas dimensões do desenvolvimento se relacionam. Ao correr, encaixar objetos, modelar, desenhar, dançar ou participar de brincadeiras com regras, a criança vivencia situações que mobilizam percepção, atenção, coordenação, planejamento e organização espacial.
Isso não significa que seja necessário cumprir uma sequência rígida de etapas motoras antes de apresentar letras e palavras. A especialista chama a atenção para o risco de fragmentar processos que acontecem de maneira integrada. A criança pode explorar movimentos, ampliar a linguagem oral e entrar em contato com a cultura escrita simultaneamente.
Consciência fonológica

Uma conexão importante nesse percurso é a consciência fonológica, que envolve a percepção de aspectos sonoros da língua. Ao brincar com rimas, identificar termos que começam com sons semelhantes ou acompanhar as partes faladas de uma palavra com palmas, a criança começa a prestar atenção não apenas ao significado, mas também à forma sonora da linguagem.
O professor pode explorar essas relações em atividades que associem movimento e oralidade. Em uma brincadeira com os nomes da turma, por exemplo, as crianças podem acompanhar com palmas as partes faladas de cada nome. Depois de ouvir uma história, podem dramatizar os personagens, organizar as cenas na sequência dos acontecimentos e recontar a narrativa.
O desenho e as experiências gráficas também integram esse percurso. Oferecer lápis, giz, pincéis, massinha e papéis de diferentes tamanhos permite explorar materiais e formas de representação. O importante é não reduzir o desenvolvimento motor a exercícios repetitivos quando existem tantas possibilidades de aprendizagem por meio de experiências significativas.
Segundo Luciana Maia, o princípio é compreender a criança em sua integralidade. Movimento, linguagem, brincadeira e escrita não precisam disputar espaço na rotina pedagógica. Quando planejados com intencionalidade, podem se complementar e ampliar as experiências infantis.
A leitura em voz alta como experiência cotidiana
A leitura compartilhada permite que as crianças escutem diferentes formas de expressão, conheçam novas palavras e participem de experiências coletivas com a linguagem. Para que essas oportunidades contribuam para o desenvolvimento infantil, porém, precisam fazer parte da rotina, e não aparecer apenas em momentos isolados.
Luciana considera essencial que a leitura em voz alta seja uma prática diária na Educação Infantil. Histórias, poemas, parlendas, pequenas notícias, receitas e convites podem ampliar o contato com diferentes gêneros textuais e favorecer a compreensão da linguagem.
Repita, leia em voz alta, convide e pergunte
Depois da leitura, o professor pode conversar com a turma sobre os personagens, convidar as crianças a antecipar acontecimentos ou perguntar qual parte mais chamou sua atenção. Essas interações ajudam a desenvolver a expressão oral, a imaginação, o vocabulário e a compreensão dos textos.
A repetição também tem seu valor. Ao ouvir novamente uma história conhecida, a criança pode antecipar falas, reconhecer expressões e perceber detalhes que passaram despercebidos na primeira leitura. Em vez de representar uma atividade sem novidade, revisitar um livro pode aprofundar a experiência.
A leitura em voz alta, portanto, não precisa estar condicionada a uma ficha de interpretação ou a uma produção escrita ao final. O encontro com a história, a conversa e a possibilidade de imaginar já constituem experiências importantes. O professor pode ampliar essas vivências com dramatizações, desenhos, recontos e registros espontâneos, respeitando o interesse e as formas de participação das crianças.
Preparar para a alfabetização é ampliar experiências
A alfabetização emergente convida a escola a olhar para além das primeiras letras. O desenvolvimento da linguagem escrita envolve experiências culturais, interações sociais, brincadeiras, histórias, desenhos, conversas e oportunidades de compreender como a escrita funciona no cotidiano.
As contribuições de Geraldo Peçanha de Almeida e Luciana Maia ajudam a compreender a importância de reconhecer o repertório infantil e criar condições para ampliá-lo. Isso exige intencionalidade pedagógica, atenção às diferentes formas de participação e respeito ao desenvolvimento de cada criança.
Na prática, significa oferecer livros acessíveis, ler em voz alta, explorar poemas, incentivar a escrita espontânea, valorizar as produções infantis e criar situações reais de leitura e registro. Significa também aproximar as famílias desse processo, sem transferir a elas a responsabilidade pelo ensino formal.
A Educação Infantil não precisa antecipar etapas para preparar melhor as crianças. Precisa garantir experiências que deem sentido à linguagem e despertem o desejo de compreender o mundo por meio dela. Muito antes de reconhecer as letras e decifrar palavras, a criança já observa, pergunta, imagina, conta histórias e procura maneiras de expressar o que pensa. Cabe à escola acolher essas manifestações e transformá-las em oportunidades de aprendizagem.
Por Antônia Figueiredo
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Fontes:
- Prof. Dr. Geraldo Peçanha de Almeida é Especialista em Educação Infantil e Pós-graduado em TEA pela PUC-PR. Psicanalista pela Sociedade Internacional de Psicanálise de SP, pedagogo e psicopedagogo pela Unesp-SP.
- Luciana Maia é Especialista em Alfabetização, Avaliação Educacional e Neurociências Aplicadas à Educação Inclusiva. Coautora do livro “Guia de Letramento e Alfabetização” (WAK Editora).










