Histórias que continuam transformando

Relatos de educadores que mostram como a escola também se constrói nos encontros


A campanha “40 educadores que transformam vidas”, que integra a celebração das quatro décadas da Appai, segue reunindo histórias que revelam a força da educação no cotidiano. A cada edição, professores compartilham experiências marcadas pela escuta, pela criatividade, pelo acolhimento e pela capacidade de transformar desafios em possibilidades reais dentro e fora da sala de aula.

Nesta edição, os relatos mostram que ensinar vai muito além do conteúdo. Está no incentivo que muda trajetórias, no vínculo construído ao longo dos anos e na coragem de fazer da escola um espaço onde alunos possam se reconhecer, crescer e acreditar em si mesmos. Histórias diferentes, mas atravessadas pela mesma certeza de que toda transformação começa quando alguém decide acreditar primeiro. Boa leitura!

 

 

O dia em que a fada mudou a história

A professora que transformou representatividade em inspiração

Alessandra de Souza Rangel carrega na memória uma cena simples, mas decisiva. Ainda estudante, participou de um evento na escola e recebeu uma atribuição que mudaria sua forma de enxergar a si mesma.

“Uma professora me deu o papel de fada em uma apresentação escolar. Pode parecer simples, mas, para mim, menina negra, ocupar o papel principal, um lugar que quase nunca era destinado a crianças como eu, mudou tudo”. Naquele instante, pela primeira vez, percebeu que também podia ocupar espaços de mais relevância. “Senti que eu podia ser protagonista da minha própria história”.

Anos depois, essa experiência se transformou em propósito. Alessandra tornou-se docente de História levando para a sala de aula o desejo de fazer outros jovens se reconhecerem em suas próprias trajetórias. “Tornei-me professora com o desejo de oferecer aos meus alunos esse mesmo sentimento de pertencimento”.

Ao longo da caminhada na educação, viveu experiências que ultrapassaram o conteúdo curricular. Entre elas, momentos delicados em que a escuta e o acolhimento se tornaram essenciais. “Já acompanhei jovens em situações muito difíceis, inclusive ajudando a impedir que um aluno desistisse da própria vida”.

Mas também testemunhou mudanças profundas dentro da sala de aula. Estudantes que rejeitavam a disciplina passaram a enxergar nela um espaço de identidade, reflexão e possibilidade. “Vi alunos que diziam odiar História passarem a se reconhecer nas aulas e a acreditar em si mesmos”.

Um desses encontros retornou de forma inesperada anos depois. Já na universidade, um ex-aluno procurou Alessandra para entregar livros e um bilhete de agradecimento. “Ele escreveu contando o quanto eu o inspirei e dizendo que queria me ver na universidade formando outros estudantes”. O gesto marcou a professora e abriu um novo caminho em sua própria trajetória acadêmica. “Aquele momento me impulsionou a dar mais um passo: ingressei no mestrado”.

Hoje, Alessandra compreende a educação como um movimento contínuo de encontros e permanências. “Fui inspirada, inspirei e sigo transformando vidas todos os dias”. Porque, para ela, educar é justamente isso, criar ciclos de inspiração que continuam ecoando muito além da escola.

 

Meus olhos ainda brilham

A professora que fez da escuta um convite para aprender

Rosimary da Silva Alves dos Reis é professora e coordenadora pedagógica em Nova Iguaçu. Atuou na Escola Estadual João do Vale e, atualmente, integra o Colégio Estadual Dom Adriano Hipólito. São 44 anos dedicados à Educação, atravessando diferentes etapas do ensino, dos Anos Iniciais ao Ensino Médio, sempre movida pela mesma convicção: ensinar é ampliar horizontes.

“Minha missão sempre foi transformar a sala de aula em um espaço de aprendizagem significativa, que valorize a identidade dos alunos e desperte neles o desejo de aprender”. Foi justamente essa percepção que passou a orientar sua prática pedagógica. Na Escola Estadual João do Vale, Rosimary observava alunos desmotivados e pouco conectados com a própria aprendizagem.

“Percebia que muitos estudantes não se reconheciam como protagonistas do próprio aprendizado. Era preciso reacender o interesse e fortalecer o vínculo entre escola e comunidade”. E foi a partir dessa necessidade que nasceram os projetos desenvolvidos pela professora. A leitura, a escrita e as práticas colaborativas passaram a ocupar o centro das atividades, estimulando os estudantes a produzir suas próprias narrativas e compartilhar experiências.

“Busquei criar estratégias que aproximassem os alunos da escola e deles mesmos”. Como coordenadora pedagógica, também passou a investir na formação continuada dos professores, incentivando metodologias ativas e o uso de recursos inovadores em sala de aula. “As formações continuadas oferecidas pela Appai, especialmente as on-line, foram fundamentais para a assertividade das ações realizadas”.

Os reflexos apareceram no cotidiano escolar. Os alunos passaram a participar mais das atividades, desenvolveram autonomia e fortaleceram competências socioemocionais. Aos poucos, a escola se consolidou como um espaço de pertencimento e valorização da educação. “Desde o início, procurei romper os muros da escola, ampliando a visão de mundo dos meus alunos e abrindo um leque de possibilidades”.

Hoje, atuando com estudantes do Ensino Médio, Rosimary afirma carregar a mesma motivação dos primeiros anos no magistério. “Trago comigo toda essa bagagem e o mesmo brilho nos olhos de quando comecei”. E é essa permanência do encantamento que sustenta sua missão como educadora. “Educar é semear possibilidades e acreditar que cada aluno pode florescer e transformar o mundo”.

Flores que nasceram da transformação

A professora que fez da reciclagem um aprendizado para a vida

Durante 25 anos, a professora Flor Lopes atuou em uma área rural do município de Japeri, em uma pequena localidade chamada Santo Antônio. Em um cenário de poucos recursos materiais, encontrou justamente na realidade ao redor a matéria-prima para ensinar, criar e transformar. “Era um lugar com poucos recursos, porém rico em possibilidades para desenvolver atividades de enriquecimento no crescimento dos educandos e dos educadores”. Foi desse olhar sensível para o cotidiano que nasceu o projeto Flor Artes Reciclando Atitudes, desenvolvido de forma multidisciplinar e conectado às experiências vividas pelos próprios alunos.

“Trabalhávamos agregando experiências do dia a dia, sempre com o objetivo de avançarmos e crescermos, mesmo diante das dificuldades apresentadas”. A reciclagem deixou de ser apenas tema ambiental e passou a representar também mudança de comportamento, consciência coletiva e valorização do que muitas vezes parecia não ter importância.

“Aprendíamos juntos que transformar materiais também podia transformar atitudes”. Ao longo dos anos, o projeto fortaleceu vínculos, despertou criatividade e mostrou aos estudantes que o aprendizado pode nascer justamente dos contextos mais simples. Hoje aposentada, a professora olha para a própria trajetória com a certeza de missão cumprida: “Hoje estou aposentada, porém realizada”.

 

Onde a escola vira lar

A professora que fez da permanência um gesto de transformação

“Desde 2004, a Escola Municipal Professora Maria Felisberta Baptista da Trindade é meu lar, onde cada dia é uma jornada de amor e aprendizado”, pontua com orgulho a docente Alessandra dos Santos Prates. Ao longo dos anos, ela atuou em diferentes funções, convivendo de perto com estudantes, famílias e outros educadores. E foi nesse cotidiano que consolidou uma prática guiada pelo compromisso com a transformação social.

“Com estudantes e famílias, construí vínculos que me transformaram. Atuei em muitos papéis, sempre com o mesmo sonho: educação como transformação social”. Na gestão escolar, participou de mudanças importantes para a comunidade. Entre elas, a alteração do nome da instituição e a implementação do ensino em tempo integral, ampliando oportunidades para as crianças atendidas pela unidade.

“Minhas mãos ajudaram a mudar o nome da escola e a trazer o tempo integral para nossas crianças”. Mas sua atuação foi além da organização pedagógica. A professora também encontrou na arte, na consciência ambiental e nas discussões antirracistas caminhos para fortalecer a formação dos alunos. “Dancei com as crianças no Mais Educação e plantei sementes de consciência ambiental e antirracista”.

O interesse por inovação e tecnologia abriu novas possibilidades dentro da escola. Inspirada pelo mestrado em tecnologias, criou o projeto Felisberta Digital, aproximando educação e inovação no cotidiano escolar. “O mestrado em tecnologias me inspirou a criar um site de inovação”. Hoje, olhando para a própria trajetória, ela reconhece que cada experiência reforçou a mesma convicção. “Cada passo foi guiado pela crença de que, juntos, podemos mudar o mundo”.


Por Antônia Figueiredo