São Sebastião, a história do seu martírio


Falar de São Sebastião e seu martírio é lembrar de alguém há muito tempo convertido à fé cristã, apesar de servir no exército de um dos maiores perseguidores dos praticantes dos ensinamentos de Jesus. A história conta que ele costumava visitar as prisões do Estado, onde se encontravam milhares de pessoas acusadas de repudiar a fé do Império, e se dirigia a todos os cárceres para falar diretamente aos cristãos que aguardavam o momento de serem submetidos aos julgamentos nos quais iam ser constrangidos a abjurar de sua fé. O jovem militar então expunha ensinamentos desde criança aprendidos e usava os elevados conceitos deixados por Jesus para fortalecer os prisioneiros.

Ele lhes falava da importância de servirem como emissários da doutrina exemplificando a força e a coragem de que deveriam se revestir a fim de mostrar aos que ainda não tinham se convertido a força daqueles ensinamentos. Lembrava-lhes que era o próprio Cristo quem lhes requisitava aquele sacrifício e que as recompensas por aqueles atos heroicos haveriam de vir na vida futura que se iniciaria a partir daquele momento.

Certamente que muitos cristãos, intimidados com as ameaças de tão cruéis suplícios, recobraram a fortaleza interior ao perceberem que não estavam sozinhos, e que Deus teria colocado nas próprias fileiras inimigas ajuda para aquela hora tão grave.

Depois de alguns anos de muitos serviços prestados ao consolo a seus companheiros de crença e também de muitas conversões (pois sempre que sentia situação favorável aproveitava para propagar a fé) o jovem militar foi alvo de denúncias por parte de pessoas da corte romana que naturalmente desejavam adquirir prestígio frente à autoridade máxima, ao mesmo tempo conseguindo desalojar alguém que gozava de grande conceito com as elites governantes.

Ao tomar conhecimento da situação de seu dileto subordinado, o então imperador Diocleciano mostrou-se extremamente indignado e ferido em sua condição de chefe supremo. Para um romano a traição à pátria era algo deplorável e, partindo de alguém com tão importantes atribuições, esse ato era visto como ainda mais abominável, o que certamente exigiria uma reparação que servisse de exemplo contra outros atos semelhantes.

Assim, o general Sebastião foi aprisionado, acusado de traição e de praticar um credo proibido, e estava nas mãos do colérico e vaidoso perseguidor dos cristãos de Roma. Diocleciano desejava então infligir ao seu outrora homem de confiança uma morte que pudesse marcar a gravidade do crime, satisfazendo assim sua sede de vingança. Havia também a vontade do Imperador de que a morte fosse lenta e obviamente dolorosa.

Decidiu então que a pena capital que seria aplicada a Sebastião ocorreria através de um método raro, talvez inédito: o flechamento, para o qual se utilizaria a habilidade dos arqueiros da Numíbia, uma possessão romana na África. Esses combatentes apresentavam uma destreza incomparável com as flechas, pois essa era a única maneira segura à época de abater as feras da savana.

O atirador podia ficar a grande distância da presa e, se a acertasse, fatalmente a levaria à morte, tamanha era a eficácia dos projéteis. Um método portanto exótico e infalível para marcar na população romana a gravidade do ato cometido, o que certamente tenderia a impedir novas ações de contestação ao regime.

O jovem militar foi colocado sem roupa, amarrado a uma árvore, com as mãos para trás da cabeça, configurando o tradicional quadro com que o martírio do santo é retratado na tradição cristã. Os arqueiros, homens altos e fortes, bem treinados na arte de arremessar setas de pontas metálicas, foram um a um fazendo seus tiros, jamais errando, e perfurando o indefeso corpo do futuro santo. A figura clássica, ao que parece, ameniza o fato real, pois algumas narrativas antigas informam que o corpo de Sebastião ficou tão coberto de flechas, que ele mais se assemelhava a um porco-espinho.

Ao fim daquela interminável sequência de arremessos o corpo do ex-militar jazia imóvel, mas expressando impressionante serenidade. Terminado o sombrio espetáculo, o corpo, ou aquilo a que teria ficado reduzido, foi entregue a uma mulher do povo, que pedia para que a deixassem realizar o sepultamento. Chamava-se Irene (mais tarde também canonizada) e pertencia a uma comunidade de cristãos do local que, conhecendo os secretos procedimentos de Sebastião, havia se disposto a dar o devido reconhecimento a mais aquela martirização.

Com tal quantidade de ferimentos e a gigantesca perda de sangue seria lógico supor que o Imperador havia atingido seu intento, mas qual não teria sido a surpresa das pessoas ao perceber que, quando já se achava tudo pronto para o sepultamento, alguém percebe um sutil movimento naquele corpo aparentemente sem vida. As atenções se voltam para o cadáver ali presente e não demora para que alguém identifique um suspiro discreto, outro presencie um certo movimento e enfim se constate o que parecia impossível: o jovem militar surpreendentemente ainda vivia.

Passa imediatamente a ser tratado com os recursos curativos da época e, depois de alguns meses, Sebastião era, ele próprio, alvo do primeiro milagre dos muitos que seriam a ele atribuídos. Depois de restabelecido, não arreda pé um milímetro de sua convicção e resolve novamente apresentar-se em público na presença do Imperador, a fim de mostrar o poder do seu deus, do qual ele mesmo era a maior prova.

No dia 20 de janeiro, aparentemente no ano de 286, Sebastião aproveita uma importante cerimônia consagrada a deuses pagãos e aparece na frente de Diocleciano, chamando atenção das pessoas para seu discurso a favor do deus cristão e desaprovando as práticas pagãs. Também tentava conclamar o Imperador a desistir de suas perseguições religiosas e a render-se ao culto do deus verdadeiro.

Diocleciano mostrava-se completamente perturbado, primeiro por perceber na figura daquele ousado jovem o seu antigo guarda pessoal que inexplicavelmente escapara ao suplício que lhe fora imposto, e também pela destemida atitude de dirigir-se com tamanha severidade às crenças predominantes das autoridades romanas.

Passado o susto inicial, Diocleciano ordena aos subordinados que capturem o ex-militar, o que acontece naturalmente regado a socos e pontapés sem dó nem piedade. Desta vez não haveria milagre e Sebastião encerrava a sua nobre missão, não só de proteger e amparar seus irmãos de fé, como também de expor a própria integridade física, com a finalidade de servir de exemplo a que outras pessoas pudessem conhecer a força do deus apresentado por Jesus.

Mas Diocleciano ainda não estava totalmente satisfeito e, temendo novas surpresas, mandou que os soldados se certificassem de que estava morto e depois atirassem o corpo na conhecida “cloaca máxima”, uma das construções voltadas para saneamento básico mais antigas do mundo. Com isso desejava também infligir uma humilhação ao condenado, ao indicar onde finalmente iam parar aqueles que desafiam a força do poderoso império.

Mesmo as águas do escoadouro sendo alimentadas pelo rio Tibre, que conduziu o corpo ao longo de uma correnteza, o cadáver foi encontrado e entregue novamente a alguma comunidade cristã, que tratou de realizar nas catacumbas, onde podiam praticar a religião com relativa tranquilidade, as justas homenagens. Daquele momento em diante São Sebastião passava a figurar no “hagiológio” do então jovem movimento cristão, sendo venerado pelos seguidores de Jesus que ainda tinham que continuar sua luta contra as perseguições de Diocleciano.

Sua bravura e comprometimento com a causa haveriam de tornar a veneração a São Sebastião uma das mais populares do mundo católico, atravessando com muita força a fé cristã, principalmente depois que os raios da liberdade voltaram a iluminar o caminho da religião deixada pelo carpinteiro de Nazaré.

 

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Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.