O sertão nas letras


Era uma das primeiras vezes que o Brasil saberia de verdade o que acontecia nas suas regiões mais afastadas do eixo principal do país. O imaginário brasileiro começava a receber a referência dos sertões, que não era mais aquele espaço sórdido e sangrento de Euclides da Cunha e nem a terra idealizada pelo romantismo de um José de Alencar. Era sim uma realidade viva, com cores, sabores, cheiros, pessoas reais de todos os tipos. Um Brasil diferente e mágico era oferecido como opção àquilo que até então predominava numa literatura feita a partir dos centros mais próximos do desenvolvimento das primeiras décadas no século XX.

Um congresso realizado em 1926 no Recife, que contou com a participação de vários escritores nordestinos, parece ter sido o pontapé inicial para um dos movimentos mais importantes da literatura brasileira: o romance regionalista da geração de 30. A criação literária, até aquele momento influenciada pelas vanguardas europeias, devia se afastar dos salões da “aristocracia paulistana” e buscar um diálogo com outras realidades nacionais.

A evidente preocupação social presente entre a maior parte dos autores motivou obras de caráter realista, com forte ênfase na denúncia das condições de vida da população economicamente deserdada do ambiente rural brasileiro.

Assim, o romance regionalista do século XX vai desenvolver uma estética baseada na verossimilhança. O objetivo de ser uma arte de diálogo com o leitor impunha uma narrativa linear, onde o tempo cronológico é privilegiado raramente havendo rompimentos temporais. Essa aparente rigidez lógica também está presente nos enredos escolhidos, onde há um predomínio de situações e acontecimentos cotidianos e racionais. Não há a ação do maravilhoso ou do místico como acontece na tradição romântica e em muitas obras do próprio modernismo, com seu “olhar visionário”.

Com narrativas que tenderão a abordar o linguajar típico das classes oprimidas, com seus caracteres de fala popular, como forma de sublinhar as flagrantes diferenças em relação aos poderosos locais, o Romance de 30, na sua valorização das questões sociais e no seu objetivo de construir uma narrativa que enfatize o ambiente em que as ações se passam, vai apresentar alguns temas que vão frequentar com bastante regularidade a produção literária de vários autores dessa geração, como a seca, o poder das oligarquias locais, as migrações do homem do sertão, a família patriarcal, a decadência econômica dos engenhos e a força da religiosidade popular.

As críticas mais comumente feitas por alguns críticos à geração de 30 nem sempre resistem à observação de certos aspectos. A de um retrocesso em termos de linguagem é uma delas. Isso porque, se por um lado os regionalistas de 30 se reaproximaram da poética do século XIX, por outro herdaram da própria geração modernista uma liberdade fantástica de experimentação linguística. E o exemplo maior disso talvez seja Guimarães Rosa, cujo trabalho com as palavras fez dele certamente um dos autores brasileiros de maior reconhecimento universal.

A crítica de que o romance de 30, ao valorizar as temáticas sociais e ambientais, seria por isso uma literatura menor, também pode ser questionada em várias obras. Na abordagem dos personagens, principalmente aqueles que mais sofrem com as injustiças descritas nos livros, há todo um foco na sua realidade interior, revelando aspectos como a solidão e a dúvida.

Por outro lado, o conflito entre um país do passado e as possibilidades futuras que se desenham refletem uma crise do espaço e do tempo, que também podemos vislumbrar em autores de abrangência universal, como Cervantes, Kafka e até no nosso Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Além disso é preciso considerar que muitas obras classificadas como regionalistas se passam na realidade em ambientes urbanos, como por exemplo vários romances de Jorge Amado, que trouxeram para o imaginário brasileiro o misticismo e a africanidade da Bahia.

Por fim, é importante ressaltar que o romance de 30 foi o primeiro a exercer influência relevante sobre outras escolas literárias. Autores portugueses daquele momento beberam na fonte de várias obras, sobretudo interessados nas experiências com o falar regional dos personagens, o que tentaram empregar nas suas construções literárias específicas.

Da mesma forma, autores africanos de língua portuguesa se identificaram com o romance de 30, elegendo elementos do uso idiomático brasileiro como forma de romper com as referências linguísticas do colonizador, já que nessa primeira metade do século XX já haviam se iniciado os primeiros movimentos em prol da independência dessas nações, o que acabaria dando frutos algumas décadas mais tarde.

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Por Sandro Gomes | Professor, escritor, mestre em literatura brasileira e revisor da Revista Appai Educar.


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