Identidade que fortalece, educação que transforma
Histórias de professores que transformam pertencimento em protagonismo
Dando continuidade à série especial em celebração aos 40 anos da Appai, a Revista Appai Educar Digital apresenta, nesta edição, novos relatos que reafirmam a potência do educador como agente de transformação. A campanha “40 educadores que transformam vidas” segue ampliando a escuta e dando visibilidade a práticas que nascem no cotidiano escolar e reverberam para além dos muros da escola.
Nesta edição, as histórias revelam um ponto em comum, quando o professor fortalece identidade, desperta consciência e cria oportunidades concretas, pois os estudantes passam a ocupar espaços que antes pareciam distantes. Seja pela valorização da ancestralidade, pela ciência e tecnologia ou pela cultura como ferramenta de pertencimento, o que se vê é a mesma convicção: a escola pública é lugar de potência.
Seguimos construindo, mês a mês, o mosaico que reunirá 40 histórias de transformação. Porque, quando o educador acredita, o aluno se reconhece. E quando o aluno se reconhece, o mundo se amplia.
Dificuldade vira potência
O professor que fez da robótica um caminho para o mundo

Guilherme Machado é professor da rede pública estadual do Rio de Janeiro e atua no Colégio Estadual Bernardino Mello Junior. Sua história com a robótica educacional começou em um cenário que, à primeira vista, não indicava pódios nem viagens internacionais.
Em 2018, o obstáculo era estrutural e simbólico. “O maior desafio era a falta de estrutura e de perspectivas para os alunos. A escola não possuía laboratório, ferramentas modernas ou tradição em projetos tecnológicos. Mas o que mais inquietava não era apenas a ausência de equipamentos. Muitos estudantes não se viam capazes de competir, criar ou ocupar espaços científicos. Acreditavam que essas oportunidades não eram para a escola pública.

Foi diante desse contexto e com a ajuda do diretor do C. E. Bernardino Mello Junior, Gabriel Miranda, que foi possível criar do zero uma atividade ligada à Robótica Educacional, utilizando metodologia ativa e aprendizagem baseada em projetos. Os primeiros passos foram simples, quase improvisados. Começamos com tapetes feitos de cartolina, treinos no chão e robôs antigos.
O projeto transformou trajetórias e fez da escola pública uma referência em ciência e tecnologia

Os alunos participaram de tudo, escolheram nome, criaram identidade visual, organizaram equipes. A robótica deixou de ser apenas atividade extracurricular e passou a integrar pesquisa científica, programação, trabalho em equipe e resolução de problemas reais. Os alunos passaram a acreditar em si mesmos, desenvolveram autonomia, disciplina, raciocínio lógico e protagonismo.

Com o tempo, as conquistas ganharam dimensão pública. Foram 2º lugar regional no TBR 2018, 6º lugar nacional em 2021. Em 2024, com a Spartan Team, 1º lugar nacional e 3º lugar mundial em robótica. “O projeto transformou trajetórias, garantiu bolsas de estudo, envolveu famílias e tornou a escola pública referência em ciência e tecnologia”, afirmou o professor. Hoje, sua missão continua sendo a mesma que o fez começar. “Acreditar onde ninguém acredita, transformar dificuldades em potência e mostrar que a escola pública pode alcançar o mundo”.
Sou porque somos
A professora que consolidou identidade e consciência racial como prática cotidiana

Alessandra Maria Almeida de Aguiar tem 50 anos e 23 dedicados à escola pública. Professora dos anos iniciais e pedagoga, leciona atualmente nas escolas municipais Professora Zilla Junger, em Duque de Caxias, e Santos Dumont, em Niterói. Mas sua trajetória começa antes da sala de aula. “Sou oriunda do Pré-vestibular para Negros e Carentes de Belford Roxo, que revolucionou minha consciência”.
A experiência redefiniu seu modo de existir e ensinar. “Desde o início, em sala de aula, importava saber quem somos e o que temos a dizer de belo, de bom, de generoso e da nossa força e ancestralidade”.
Vivendo e atuando na Baixada Fluminense e em favelas de Niterói, ela encontrou na própria comunidade a base do seu método. “Vi a potência da cultura negra nas manifestações, nos mutirões e na mobilização política. Presenciei a solidariedade nas comunidades. Isso orientou meu trabalho”.
A leitura diária tornou-se ritual
Na prática, identidade virou ação pedagógica concreta. “Vieram os pequenos dicionários poéticos, as listas de alegrias, as biografias. Fiz perguntas sobre sonhos e realidade para situarmos nossas condições objetivas, nossa luta e nossos direitos”.
Lemos as literaturas mais belas todos os dias como primeira atividade. Eram duzentos textos, se fossem duzentos dias. Eram nossos próprios textos e os de escritores negros e indígenas. O estudo constante aprofundou o caminho. Aprofundei estudos sobre relações raciais e história e cultura afro-brasileira, africana e indígena, em cursos, leituras e na militância”.
A ancestralidade ganhou nome e rosto. “Construí materiais sobre nossa ancestralidade a partir de trisavós reis e rainhas, heróis de quilombos, de revoltas e da luta negra de todo o mundo”. Mais do que conteúdo, era reparação histórica. “Alunos e professores tiveram contato com um mundo e uma história de outros, que na verdade é o que nos foi negado em nossa existência”.
“Lemos as literaturas mais belas todos os dias como primeira atividade”
Esse mundo e essa história são reinventados e vividos dia a dia na arte que fazemos, na solidariedade que cultivamos, na fé que professamos, na força dos que nos antecederam. Para Alessandra, há uma palavra que sintetiza tudo. “Ubuntu, sou porque somos, é a expressão do ser negro. E é dessa perspectiva que nasce sua concepção de educação. Educar nessa perspectiva é sonho dos meus ancestrais. É dever dos meus descendentes, destaca”.
Cultura que cria raízes
O professor que fez da cultura a ponte para o pertencimento

Rafael Leon Gomes Rodrigues é professor e animador cultural do Colégio Estadual Dom Adriano Hipólito, em Nova Iguaçu (RJ). São 30 anos de docência, 23 deles dedicados à mesma escola. Tempo suficiente para entender que ensinar é também construir memória.
“Atuo há 30 anos na área da Educação, sendo 23 deles dedicados ao C. E. Dom Adriano Hipólito, em Nova Iguaçu, onde venho implementando cultura, construindo conhecimentos e aprendendo diariamente com meus alunos. Ao longo desse período, desenvolvi diversos projetos nas áreas de Educação e Cultura, sempre com o objetivo de fortalecer o desenvolvimento intelectual, afetivo e o sentimento de pertencimento dos estudantes. Para mim, um dos grandes desafios em sala de aula sempre foi despertar nos alunos o interesse pela própria história, pela cultura local e nacional, promovendo identidade e protagonismo. Era necessário ir além do conteúdo tradicional e tornar o aprendizado mais vivo, significativo e conectado à realidade”.
“Aprender e ensinar caminham juntos. A escola é espaço de construção coletiva.”

E foi assim que a cultura passou a ocupar o centro da prática pedagógica. Por meio de parcerias com o Sesc Nova Iguaçu, realizamos o projeto Viajando e Aprendendo, no qual visitamos os Quilombos de São José da Serra, em Valença, a Fazenda Machadinha e o município de Quissamã, proporcionando aos alunos vivências diretas com a história e a cultura afro-brasileira. Também promovemos leituras dramatizadas na Academia Brasileira de Letras, valorizando grandes nomes da literatura nacional.
Realizamos ainda passeios históricos pela Baixada Fluminense, especialmente em Nova Iguaçu, explorando suas fazendas, igrejas, portos e o desenvolvimento das culturas da cana-de-açúcar, do café e da laranja iguaçuana, que tiveram grande importância na economia brasileira. No campo artístico, coordenamos a montagem de espetáculos teatrais e leituras dramatizadas com os estudantes, entre eles “O Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, com o subtítulo “Cortaram a Cabeça do Líder; Um Brasil de Ouvintes”, um passeio pela história dos programas de auditório das rádios brasileiras; e “Auto do Boi-Bumbá – Uma Festa Brasileira”, valorizando as manifestações culturais populares.

Os resultados foram transformadores: alunos mais participativos, conscientes de sua história, orgulhosos de sua identidade e mais envolvidos com a comunidade escolar. A cultura tornou-se ponte para o conhecimento, para o respeito às diferenças e para a construção de cidadãos críticos e sensíveis. Ser professor, para mim, é semear cultura, despertar pertencimento e transformar vidas por meio do conhecimento. E quando a cultura cria raízes, a escola floresce”, finaliza o professor Rafael Leon.
Por Antônia Figueiredo
Fontes: Alessandra Maria Almeida de Aguiar, professora dos anos iniciais e pedagoga. Leciona nas escolas municipais Professora Zilla Junger, em Duque de Caxias, e Santos Dumont, em Niterói (RJ) | Rafael Leon Gomes Rodrigues é professor e animador cultural do Colégio Estadual Dom Adriano Hipólito, em Nova Iguaçu (RJ) | Guilherme Machado é professor da rede pública estadual do Rio de Janeiro e atua no Colégio Estadual Bernardino Mello Junior.
Fotos cedidas pelos professores Alessandra Maria Almeida de Aguiar, Rafael Leon Gomes Rodrigues e Guilherme Machado.











