40 histórias e um propósito que une educadores
A cada mês, novas histórias que revelam quem transforma a educação por dentro

Na edição anterior, a Revista Appai Educar deu início à série especial que integra a celebração dos 40 anos da Appai, colocando em evidência quem faz a educação acontecer todos os dias: os professores. A campanha “40 educadores que transformam vidas” nasceu para dar visibilidade a experiências reais do chão da escola, marcadas por escolhas, superações e impacto verdadeiro. A cada mês, quatro educadores compartilham uma história que atravessou sua trajetória profissional e transformou a vida de seus alunos. São relatos que mostram, com humanidade, como a prática pedagógica pode abrir caminhos e ressignificar futuros. Nesta edição, seguimos construindo esse mosaico que, ao longo do ano, revelará 40 histórias de transformação. Porque, quando o professor se reconhece como agente da mudança, a educação se move, e vidas também.
Quando a identidade acende
A professora que ensinou pertencimento e transformou vidas

Para Ariadne Nunes Monteiro Lima, ser professora da Rede Municipal do Rio de Janeiro é um ato de amor, de afirmação e de compromisso com a história que cada criança carrega. “Eu amo ser professora. É o que me move todos os dias”, ela diz com a convicção de quem transforma, com as próprias mãos, tudo o que toca.
Em 2025, movida pelo desejo de ampliar horizontes e aprofundar diálogos, Ariadne decidiu criar, por conta própria, um projeto para trabalhar as leis 10.639 e 11.645 com sua turma do 4º ano: ancestralidade, memória e identidade emergindo de cada atividade e encontro. O que ela não imaginava era que, ao ensinar pertencimento, também seria profundamente transformada por ele.
Quando o projeto virou movimento
O projeto começou simples, uma ideia que nascia do compromisso e do afeto.
Mas, como ela mesma conta: “Ele foi pegando corpo, pegando gosto, pegando sentido. Era como se cada aula chamasse outra”. As crianças ouviam, perguntavam, pesquisavam, levavam para casa. E a ancestralidade, antes distante de muitos, passou a estar nos cadernos, nas conversas, nas famílias. A escola começou a pulsar outra vibração.
O encontro que virou espelho
No evento Escola Aberta, quando a comunidade ocupa a escola com orgulho, Ariadne viveu algo que transformaria sua percepção sobre o impacto do seu trabalho. Durante a apresentação da turma, a responsável pela aluna Helena se aproximou, emocionada. “Professora, minha filha mais velha está cursando formação de professores… e quer ser igual a você. Ela diz que você é a professora que inspira ela”.
A mãe continuou: “A Helena chega em casa falando das aulas, das histórias, das pesquisas… e a gente aprende junto. Hoje minha filha mais velha ficou encantada com o que viu aqui”. Ariadne ouviu. Sentiu. Silenciou por um instante. E algo se iluminou dentro dela. “Meu trabalho atravessou as paredes da escola. Atravessou gerações. Chegou onde nem eu imaginava”.
Quando a representatividade encontra caminho
Ser referência para três mulheres de uma mesma família trouxe um entendimento profundo. “Eu percebi que não preciso ser conhecida nacionalmente para inspirar. Eu inspiro daqui, da minha sala de aula, como mulher preta, professora preta, construindo caminhos na Zona Norte do Rio de Janeiro. Isso já é grande. Isso já transforma”. Ali, naquele encontro simples e imenso, Ariadne entendeu que seu trabalho não apenas ensina sobre identidade, ele é identidade. Ele abre portas para que outras meninas e mulheres sonhem, se reconheçam, se fortaleçam.
A educação como herança afetiva
O projeto que começou como uma iniciativa individual virou movimento, virou afirmação, virou legado. Entre histórias afro-brasileiras, pesquisas sobre povos originários e conversas sobre raízes, Ariadne mostrou às crianças que cada uma carrega dentro de si uma história que merece ser contada. E foi assim que descobriu algo essencial. Ao ensinar pertencimento, ela devolveu esse sentimento perante o mundo. Porque, quando a identidade acende, ela ilumina caminhos.
O futuro que nasce das mãos
Conheça a história do professor que transformou sucata em futuros possíveis

Para o professor Lucio Panza, aprender começa no reconhecimento do outro e de si. “A educação só acontece quando o aluno se vê no processo. Quando ele sente que o conhecimento também lhe pertence”, afirma. Especialista no ensino de Ciências, articulador do Colaboratório e criador de metodologias lúdicas que misturam mapas mentais, mandalas e cultura maker, Lucio construiu sua trajetória acreditando que a escola pode ser um lugar de descoberta e de encantamento.
Quando a escola parecia distante
Ao chegar à turma, o cenário era duro. “Eu via potenciais enormes, mas observava também muitos olhos desacreditados. A escola parecia distante demais para eles”, recorda. A desconexão não era só com o conteúdo, era com a própria capacidade de aprender, criar, concluir. “Eu sabia que, antes de ensinar Ciências, eu precisava devolver a eles a confiança”, diz.
Transformar sucata em invenção e invenção em esperança
A virada veio quando Lucio decidiu começar pelo simples: pelas mãos. “Se eles não se viam capazes, eu precisava criar experiências em que se percebessem criadores”. E assim nasceu o projeto Maker, que transformaria o cotidiano escolar: tudo que parecia sem valor, caixas, tampas, fios, pedaços de papelão, virou ponto de partida. “A sucata mostrava exatamente o que eu queria que eles entendessem: o valor não está no material, está no olhar”, explica.
A sala se encheu de aviões reinventados, jogos criados coletivamente, protótipos inesperados. O erro virou etapa natural. A tentativa virou coragem. E o conteúdo passou a ter textura, forma, presença. “Quando uma criança me dizia ‘eu fiz’, eu sabia que ali havia algo maior do que o objeto criado. Havia autoestima sendo construída”.
A sala virou lugar de experiência
Com projetos interdisciplinares e metodologias ativas, o ambiente se transformou em laboratório vivo. “Eu não queria que eles repetissem o que eu dizia. Queria que perguntassem, testassem, discordassem, criassem. A sala era deles, eu só media o caminho”, conta Lucio. E assim, pouco a pouco, aqueles estudantes antes silenciosos começaram a ocupar seu espaço com outras posturas: mais curiosos, mais confiantes, mais protagonistas. “A maior mudança foi ver que eles passaram a se orgulhar do que criavam. O brilho no olhar voltou, e isso muda tudo”.
Quando a escola toca o território, o território responde
O impacto ultrapassou os muros. “As famílias começaram a vir mostrar fotos, contar histórias… Diziam: ‘Professor, meu filho não parou de falar do projeto’. Esse retorno mostrou que a escola estava chegando onde precisava chegar”, relata. A comunidade passou a enxergar valor nos protótipos, nos jogos, naquilo que nascia de restos e renascia em forma de pertencimento.
Criar para acreditar. Acreditar para transformar
Depois de tantas experiências, Lucio resume em uma frase que virou filosofia de trabalho. “Quando o aluno cria, ele acredita, e, quando acredita, transforma sua própria história”. E é isso que ele faz diariamente: abre caminhos, acende possibilidades, cria experiências que devolvem voz e autoria. Porque, onde há invenção, há futuro. E, onde há futuro, há transformação, daquelas que atravessam gerações.
A arte vira ponte
A história do professor que transformou design em consciência ambiental

Para o professor José Antonio Perez Oreiro, autor da oficina Planeta Água em Traços e Cores, a educação sempre foi um convite para olhar o mundo com mais cuidado. “A arte tem a força de dizer o que às vezes a ciência não consegue explicar sozinha”, ele costuma dizer. É nesse diálogo entre ciência e sensibilidade que ele construiu seu método, sua prática e sua forma de ensinar.
Quando falar de oceano parecia longe demais
Petrópolis não tem mar. Tem serra, tem rios que desenham a paisagem e alimentam bacias que descem até o litoral. E foi justamente ali, em uma cidade sem praia, que José Antonio recebeu o desafio de trabalhar o tema nacional da SNCT 2025: Cultura Oceânica. “Eu me perguntava como falar do oceano com quem nunca o viu de perto. A resposta veio rápido, pelo simbolismo, pela imagem, pelo desenho”, relembra ele, destacando que o desafio não era apenas técnico. Era emocional. Era pedagógico. Era civilizatório.
A oficina como experiência viva
Assim nasceu a oficina de quatro horas, realizada durante a 22ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. O professor escolheu o software livre Inkscape para garantir que todos pudessem criar sem barreiras. “A tecnologia precisa ser democrática. Se um estudante não pode continuar o que aprendeu em casa, algo se perde no caminho”, explica ele. A proposta era simples e poderosa: transformar ciência em linguagem visual acessível. Os alunos, vindos das escolas do entorno da Faeterj-Petrópolis, mergulharam nas telas. Traços viraram metáforas. Cores viraram argumentos. Design virou consciência. “Eu dizia a eles: vocês não estão desenhando por desenhar. Vocês estão comunicando algo que importa”, lembra José Antonio.
O oceano que nasce na serra
No final da oficina, algo essencial tinha acontecido, os estudantes entenderam que o oceano começa ali mesmo, nas águas que cortam Petrópolis. “Quando eles perceberam que o mar começa na serra, vi que algo tinha despertado”, conta o professor. O resultado foi a criação de um banco de imagens vibrante, autoral, repleto de mensagens de preservação e responsabilidade ambiental. Cada peça gráfica traduzia, de forma simples e potente, a importância da água no território, no planeta, na vida.
Criar para acreditar. Acreditar para transformar
Depois de tantas oficinas e tantos encontros, José Antonio guarda uma certeza que orienta sua prática. “Quando o jovem entende que pode comunicar algo importante para o mundo, ele se transforma”. E foi isso que aconteceu ali. A oficina não foi apenas um exercício técnico, foi um despertar. Os estudantes descobriram que o design é mais do que estética, é voz, é autoria, é possibilidade de impacto. No fim, é isso que move o professor José Antonio, empoderar jovens para que transformem ciência em significado e significado em ação.
Sonhar mais alto muda destinos
A professora que levou seus alunos da leitura aos títulos nos torneios de robótica

Adriana Igrejas é professora e escritora. Atuou por muitos anos na rede privada, lecionando Inglês e Português, e desde 2002 integra a Rede Estadual de Ensino. Atualmente, é diretora-geral do Colégio Estadual Maria Justiniano Fernandes, em Nova Iguaçu. Para ela, “educar é investir na capacidade do outro de aprender e evoluir, enquanto nós próprios aprendemos e evoluímos enquanto fazemos isso”, Adriana Igrejas.
“Como professora de Língua Portuguesa, percebi o desafio de fazer meus alunos praticarem a leitura e desenvolvi um método que funcionou de verdade, levando a uma taxa de 75% dos estudantes efetivamente lerem 4 livros por ano: a roda de leitura com prova oral, além de implementar um Sarau Cultural no C. E. Dom Adriano Hipólito, onde trabalhei por 18 anos. Já na direção da escola, com todas as demandas da gestão, meu principal desafio foi implementar um projeto de robótica. Com a ajuda dos professores Guilherme Santos Machado – diretor do C. E. Bernardino Mello Junior – e Gabriel Miranda, ambos especialistas no assunto, consegui criar na escola uma equipe de robótica para torneios, a Rex Tech. Acumulamos 7 troféus, entre eles um de um Nacional e dois de um Mundial. Estamos entre as duas únicas equipes estaduais de robótica do Estado.
“Lembro-me de nossa primeira viagem com hospedagem em hotel, que foi em Volta Redonda, quando um aluno me perguntou, no café da manhã, se ele podia comer aquilo tudo mesmo.”
Esse projeto transformou a escola e os alunos que passaram por ele ou que ainda fazem parte dele. Estudantes que nunca haviam saído da Baixada Fluminense, nunca haviam se hospedado em um hotel na vida, tiveram essas experiências, e provavelmente nãos as teriam se não tivessem se tornado campeões de robótica, participando de torneios em nível nacional. Lembro-me de nossa primeira viagem com hospedagem em hotel, que foi em Volta Redonda, quando um aluno me perguntou, no café da manhã, se ele podia comer aquilo tudo mesmo.
“São muitas vitórias, mas a principal é o desenvolvimento desses alunos.”
Em 2023 estivemos no Nacional do Fira em Juazeiro do Norte, CE. Em 2024, participamos do Nacional do FLL em Brasília e do Mundial do Fira, no Maranhão, além do TBR Nacional no Espírito Santo. Em 2025, estivemos no TBR Nacional em Belo Horizonte, mas um dos projetos de robótica também os levou à Febic (Feira Brasileira de Iniciação Científica), em Santa Catarina. A equipe está classificada para participar em São Paulo, do FLL Nacional agora em março de 2026. São muitas vitórias, mas a principal é o desenvolvimento desses alunos. Eles ganham autonomia, aprendem a pesquisar, desenvolvem raciocínio lógico e científico.
A escola já se tornou referência para toda a comunidade, para além da robótica, sendo muito procurada também pela disciplina e organização. E assim sigo. Enquanto escritora, escrevo romances juvenis para fazer “sorrir e refletir” também como uma forma de educar. Para mim, educar é investir na capacidade do outro de aprender e evoluir, enquanto nós próprios aprendemos e evoluímos enquanto fazemos isso”.
Por Antônia Figueiredo
Fontes: Professora Ariadne Nunes Monteiro Lima, Professor Lucio Panza, Professor José Antonio e Professora Adriana Igrejas Machado.










