Férias, telas e infância: hora de assumir o controle
Por Larissa Capito*

As férias escolares costumam ser um período aguardado com expectativa pelas crianças e, muitas vezes, vivido com ambivalência pelos adultos. De um lado, o desejo de descanso, convivência e leveza; de outro, o desafio de reorganizar a rotina, especialmente quando o trabalho segue ativo. Nesse cenário, é comum que as telas (celulares, videogames, TV) assumam um papel central no dia a dia infantil.
Não falo aqui do uso pontual da tecnologia, que faz parte da nossa realidade e pode, sim, ter espaço na infância. A preocupação surge quando as telas deixam de ser um recurso ocasional e passam a estruturar grande parte do tempo da criança durante as férias, criando hábitos que se consolidam silenciosamente e que, muitas vezes, só se tornam visíveis quando a rotina escolar é retomada.
Como psicóloga escolar e orientadora educacional, observo que o período de férias é especialmente sensível para a formação de hábitos digitais. O recesso costuma ultrapassar 30 dias e, nem sempre, há opções de lazer disponíveis diariamente. Nesse contexto, jogos, redes sociais e plataformas de streaming passam a ocupar o espaço do brincar, da convivência e até do tédio, elemento essencial para o desenvolvimento infantil.
Os impactos do uso excessivo de telas aparecem de diferentes formas. Irritabilidade, ansiedade, impulsividade, dificuldade de concentração, alterações no sono e redução das interações sociais são sinais recorrentes. No ambiente escolar, após o retorno das férias, é comum notar aumento de conflitos entre os alunos, maior dificuldade de foco e até comportamentos de isolamento social.
Esses efeitos estão diretamente ligados à diminuição das interações presenciais e ao excesso de estímulos digitais, que dificultam a autorregulação emocional e o engajamento em atividades que exigem atenção sustentada.
Em crianças menores, especialmente aquelas em fase de alfabetização ou consolidação da linguagem, os prejuízos podem ser ainda mais significativos. O uso prolongado de telas reduz as trocas verbais, empobrece o repertório linguístico e limita experiências fundamentais para o desenvolvimento da comunicação. A linguagem se constrói na interação, no diálogo, na escuta e na presença, elementos que nenhuma tela é capaz de substituir.
A falsa sensação de segurança
Um ponto que considero especialmente delicado é a falsa sensação de segurança que as telas oferecem aos adultos. Quando a criança está diante de um dispositivo, temos a impressão de que ela está protegida, parada e sob controle. No entanto, o ambiente digital apresenta riscos que nem sempre são visíveis: acesso a conteúdos inadequados, excesso de publicidade, estímulos à comparação estética e impactos diretos à saúde mental.
Nesse sentido, tanto o tempo de exposição quanto o tipo de conteúdo acessado merecem atenção. Pouco tempo diante de conteúdos violentos ou sexualizados pode gerar impactos profundos, enquanto o uso prolongado, ou seja, acima de quatro horas diárias, a depender da faixa etária, amplia significativamente os prejuízos ao desenvolvimento infantil e juvenil.
O papel dos adultos
Dificuldade de lidar com o tédio, agitação, alterações no sono e na alimentação, redução do vocabulário, ansiedade e irritação são sinais importantes de alerta. Quando esses comportamentos aparecem, é fundamental que os adultos revisitem a forma como as telas estão sendo utilizadas.
Acredito que o maior erro dos responsáveis seja liberar dispositivos sem monitoramento e sem limites claros. Educar para o uso consciente da tecnologia exige diálogo, orientação e mediação constante. Não se trata de proibir ou afastar totalmente as crianças das telas, mas de ensinar como, quando e por que usá-las.
Esse processo demanda tempo e coerência. Não é possível exigir interação, presença e menos tempo de tela se o adulto também está constantemente conectado. As crianças aprendem, sobretudo, pelo exemplo.
Limites que organizam e educam
As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria ajudam a nortear esse equilíbrio: nenhuma exposição para crianças menores de dois anos; até uma hora diária entre dois e cinco anos; até duas horas entre seis e dez anos; e até três horas para adolescentes. Ainda assim, mais importante do que o número exato de horas é a organização da rotina.
Definir horários, estabelecer combinados claros e reduzir gradualmente o tempo de uso são estratégias que ajudam a evitar conflitos. Criar zonas livres de telas, como quartos, mesa das refeições e banheiro, favorece o sono, a alimentação e as interações familiares, aspectos fundamentais para o desenvolvimento saudável.
O valor do brincar e do ócio
Em um mundo que ocupa constantemente as crianças, é preciso resgatar o valor do brincar livre e do tédio. É nesse espaço não estruturado que a criatividade emerge, que a criança inventa, ressignifica objetos e aprende a lidar com o tempo de forma saudável.
Mesmo em famílias em que os responsáveis trabalham fora, é possível cuidar desse equilíbrio. Alinhar combinados com outros cuidadores, reforçar o monitoramento e dedicar tempo de qualidade à criança nos momentos de convivência fazem uma diferença significativa.
As férias são uma oportunidade preciosa de fortalecimento dos vínculos familiares e do desenvolvimento emocional. As telas podem estar presentes, mas não devem ocupar o centro da experiência infantil. Defendo que sejam sempre o último recurso e nunca a principal ocupação das crianças nesse período.
* Larissa Guarnieri Ferreira Capito é orientadora educacional do Colégio Santa Catarina (Mooca), especialista em Psicologia Escolar e da Educação e mestranda do Programa de Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Unifesp.












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