Histórias que seguem transformando

Relatos de educadores que mostram onde a educação realmente acontece


Agora já são 20 professores que compartilharam suas histórias com tantos outros. Relatos que atravessam salas de aula, comunidades e trajetórias de vida, revelando, na prática, o que significa educar no Brasil de hoje. É nesse movimento que ganha força a campanha “40 educadores que transformam vidas”, que integra a celebração dos 40 anos da Appai. 

Ao longo dos últimos meses, essas experiências vêm compondo um retrato vivo da escola real. Aquela que se constrói no cuidado, na criatividade, na escuta e na persistência. Histórias diferentes entre si, mas que se encontram em um ponto comum, a certeza de que a transformação acontece no cotidiano, nas escolhas feitas todos os dias. 

Nesta edição, novas vozes se somam a esse percurso. São educadores que ensinam com o corpo, com a cultura, com a tecnologia, com a escuta e com a própria história de vida. Práticas que mostram que educar não é um ato único, mas um conjunto de gestos que, somados, têm o poder de mudar caminhos. 

Chegamos à metade dessa trajetória. E, se até aqui já são 20 histórias que inspiram, o que vem pela frente reforça uma certeza: ainda há muito a ser contado e, principalmente, muito a ser reconhecido. Porque, no fim, é isso que permanece. A educação que acontece todos os dias e as histórias que fazem questão de não deixar esse trabalho passar em silêncio. 

 

Educar é cuidar da vida

O educador que fez do território e da ancestralidade pilares da educação 

Fausto Madeira construiu sua trajetória como educador popular a partir de uma compreensão que nasce fora dos limites tradicionais da escola. Em seu trabalho junto à Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ), a educação se apresenta como prática integrada, onde cultura, alimentação, cuidado e conhecimento caminham juntos. “Educar, em muitos territórios, é um ato que começa antes da sala de aula. Começa no cuidado, no acolhimento e na garantia do básico para que a aprendizagem seja possível”.  

Foi nesse contexto que sua atuação ganhou forma, sempre em diálogo com o território e com as necessidades reais da comunidade. A OSFRJ se organiza como uma iniciativa coletiva que entende a formação humana de maneira ampla. “Uma iniciativa comunitária que integra educação, cultura, alimentação e saúde como dimensões inseparáveis da formação humana”. 

A partir de uma perspectiva afrocentrada, as práticas desenvolvidas valorizam a ancestralidade africana, o pertencimento territorial e a construção coletiva do conhecimento. “A educação acontece na partilha do alimento, nas rodas de conversa, na dança, na leitura, na escuta atenta e no fortalecimento dos vínculos comunitários”. 

Mais do que uma metodologia, trata-se de uma escolha construída no cotidiano. Em um território marcado por desigualdades históricas, o trabalho também se volta à mitigação da fome e à ampliação do acesso à cultura. “Não há aprendizagem possível quando direitos básicos são negados”. 

Cada ação educativa se torna, assim, um gesto de cuidado e resistência, capaz de reafirmar identidades, ampliar horizontes e fortalecer trajetórias. “A educação se conecta à cultura, à dignidade e ao cuidado coletivo, e transforma não apenas conteúdos, mas histórias, caminhos e futuros”. 

A experiência reafirma que educar, nesses contextos, é compromisso com a vida em sua totalidade e que, quando o território é reconhecido como espaço de saber, a educação ganha sentido e potência. 

 

O dia em que o mar se abriu

O professor que levou seus alunos a enxergar novos horizontes 

 

Gutemberg Coelho é docente de Geografia há mais de 20 anos e carrega na trajetória experiências diversas dentro da escola pública. Mas foi um projeto em especial que marcou profundamente sua prática docente e sua relação com os alunos. “Como professor de Geografia há mais de 20 anos, já vivenciei muitas coisas, mas o projeto Jovens do Mar mexeu de verdade comigo”. 

A proposta nasceu com um objetivo simples e, ao mesmo tempo, potente. Ampliar o olhar dos estudantes para além do território onde vivem. Gutemberg levou alunos da comunidade de Rio das Pedras, do Caic Euclydes da Cunha, para uma experiência pouco comum em suas rotinas. “A ideia era simples: aulas de vela para mostrar que o mundo é maior que o nosso bairro”. 

O destino foi a praia de Maria Gorda, em Ramos. No início, o cenário era de estranhamento. O mar, para muitos, ainda era um espaço desconhecido. “No começo, os alunos ficaram um tanto perdidos, mas começaram logo pegando o jeito do esporte, depois de algumas horas nas águas”. 

Entre tentativas, desequilíbrios e descobertas, a experiência foi ganhando outro significado. Houve sustos, um aluno quase caiu na água, outro quase virou o barco, mas também teve risos, superação e conquista. “No fim todos estavam rindo e se divertindo bastante”. 

O que parecia apenas uma atividade diferente se transformou em um marco coletivo. “E todos gritaram bem alto juntos: ‘isso é o melhor dia de nossas vidas’”. Para o professor, a vivência revelou algo maior do que o próprio projeto. Mostrou o impacto que experiências significativas podem ter na formação dos alunos. 

“Esse tipo de vivência não é algo corriqueiro e mostrou que, com esforço e trabalho em conjunto, podemos ir muito longe”. E, para vários desses estudantes, o horizonte deixou de ser limite e passou a ser possibilidade. “Para alguns, o mar pode ser o caminho a ser percorrido”. 

 

Sonho que resiste

A professora que fez da maternidade força para educar com sensibilidade 

Ingrid Lopes de Azevedo sempre soube que queria ser professora. O desejo não surgiu como algo passageiro, mas como uma certeza que atravessou diferentes fases da vida, inclusive as mais desafiadoras. “Sempre sonhei em estar em sala de aula. Não foi algo efêmero, mas uma certeza que me acompanhou mesmo quando a vida me levou por caminhos difíceis”. 

A maternidade chegou cedo e trouxe consigo novas responsabilidades. Mãe de quatro filhos, Ingrid precisou conciliar o cuidado com a família e a persistência no sonho de seguir na educação. “Tornei-me mãe de quatro filhos e, junto com a maternidade, vieram o cansaço, as responsabilidades e as dúvidas sobre se conseguiria seguir adiante”. 

Houve momentos em que estudar parecia impossível. A rotina requeria mais do que organização, exigia resistência. “Estudei com filhos no colo, entre tarefas domésticas, noites curtas e dias longos. Ainda assim, não desisti”. 

Cada desafio enfrentado reforçou sua convicção no poder transformador da educação. E foi essa vivência que passou a orientar sua prática pedagógica. “Minha experiência como mãe me tornou uma educadora mais sensível, atenta e humana”. Na Educação Infantil e no trabalho com inclusão, Ingrid encontrou um espaço onde sua trajetória pessoal se conecta diretamente com o fazer pedagógico. O olhar atento para cada criança passou a ser parte central do seu trabalho. “Aprendi que cada um tem seu tempo, sua história e sua forma única de aprender”. 

Hoje, ao entrar em sala de aula, ela leva consigo mais do que formação acadêmica. Leva experiência de vida, empatia e escuta. “Educo com acolhimento, com presença e com respeito à história de cada aluno”. Para Ingrid, sua própria trajetória é também uma mensagem. “Minha história é a prova de que a maternidade não interrompe sonhos, ela os fortalece”. 

E é com essa convicção que segue ensinando todos os dias. “Persistir também educa. E ensinar, para mim, é um ato diário de amor, resistência e esperança”. 

 

Pequenas mãos, grandes descobertas

A professora que levou a robótica à Educação Infantil com protagonismo e inovação 

Isabela Souza partiu de uma convicção clara. A transformação pela educação começa na primeira infância. Foi com esse olhar que, em 2024, decidiu dar um passo além do cotidiano da sala de aula e inscrever a Creche Municipal Vereador Gilberto Perez de Oliveira em um projeto de alcance internacional. “Movida pela convicção de que a educação transforma vidas desde a primeira infância, inscrevi a creche no Edital First Lego League, na categoria Discovery”. 

A iniciativa, promovida pelo Instituto Positivo, selecionou a escola como uma das vencedoras. No ano seguinte, o projeto ganhou vida com crianças entre 3 e 6 anos, em uma proposta que unia brincadeira, investigação e aprendizagem. “Em 2025, tivemos a alegria de colocar o projeto em prática com nossas crianças”. 

Com o recebimento dos kits Lego Education, as atividades passaram a integrar a Temporada Discovery, alinhada ao tema Submerged. Tudo foi pensado respeitando o tempo da infância, a curiosidade e o aprender fazendo. “Planejamos ações com foco na aprendizagem significativa, no trabalho em equipe, na criatividade e no desenvolvimento das competências Steam”. 

Mais do que trabalhar conceitos, o projeto abriu espaço para que as crianças experimentassem, criassem e se reconhecessem como protagonistas do próprio aprendizado. O momento de culminância aconteceu dentro da própria escola, reunindo famílias, professores e representantes da rede municipal. “As crianças participaram de um último desafio e receberam certificados e medalhas, valorizando o protagonismo infantil e o esforço coletivo”. 

A experiência ultrapassou os muros da creche. O trabalho foi convidado a integrar a Feira de Ciências de Queimados, ampliando o alcance da iniciativa e inspirando outros educadores. “Fomos convidados a apresentar o projeto para toda a rede de ensino”. 

Para Isabela, a trajetória reafirma uma escolha pedagógica. “Essa experiência reforça meu compromisso com uma educação pública inovadora, inclusiva e transformadora, capaz de inspirar vidas desde os primeiros anos”.  


Por Antônia Figueiredo