Histórias que seguem inspirando
Relatos de educadores que revelam a força transformadora da escola

No quarto mês da série especial em celebração aos 40 anos da Appai, a Revista Appai Educar Digital segue dando voz a quem faz a educação acontecer todos os dias: os professores. A campanha “40 educadores que transformam vidas” continua reunindo experiências que nascem no cotidiano da escola e mostram como o compromisso, a sensibilidade e a criatividade do educador podem abrir caminhos e transformar trajetórias.
Nesta edição, novos relatos revelam diferentes maneiras de ensinar e aprender. Há histórias que passam pela valorização da identidade, pela ciência e tecnologia, pela cultura como ferramenta de pertencimento, pelo movimento que fortalece a confiança e pela escuta sensível na educação especial. Caminhos distintos que convergem para a mesma convicção, a escola é espaço de transformação e escuta.
Já são 16 histórias compartilhadas ao longo do ano. Até dezembro, outras experiências se somarão a esse mosaico que celebra o papel do educador na construção de uma educação mais humana, potente e possível.
Quando a escola atravessa as paredes
A professora que fez do olhar atento e da escuta uma forma de ensinar

Estefanie Medeiros é professora e teve parte de sua trajetória marcada por um cenário pouco comum para muitos educadores: o atendimento pedagógico domiciliar, especialmente junto a estudantes com deficiência múltipla. Um espaço onde a escola acontece longe do barulho dos corredores e da rotina tradicional da sala de aula. “Houve um tempo em que a escola não tinha paredes. Ela acontecia em salas silenciosas, em quartos com luz suave, em casas onde o tempo seguia outro ritmo.”
Foi nesse ambiente íntimo que o trabalho pedagógico ganhou outro significado. Ensinar deixou de ser apenas transmitir conhecimento e passou a exigir presença, sensibilidade e espera. “Ali, ensinar nunca foi apenas ensinar. Foi aprender a estar, a esperar e a reconhecer o valor do quase imperceptível.”
Cada encontro começava pelo cuidado. Antes do planejamento vinha a escuta; antes da atividade, o olhar atento. Muitas vezes, a aprendizagem não se manifestava em palavras, mas em pequenos gestos, expressões breves ou respostas corporais.
Nesse processo, a Comunicação Alternativa e Aumentativa tornou-se ferramenta essencial. Símbolos, imagens, objetos e gestos passaram a dar forma ao que o corpo queria comunicar, desejos, recusas, escolhas e emoções.
Planejar também exigia outro ritmo
“O planejamento pedagógico precisou ser tecido com delicadeza. Cada proposta respeitou limites, acolheu pausas e compreendeu o cansaço como parte do processo.” Houve dias em que ensinar significou apenas estar presente. Sentar ao lado, respirar junto, sustentar o vínculo. E, muitas vezes, foi nesse silêncio que surgiram as maiores conquistas: um olhar mais atento, uma escolha apontada, uma resposta intencional.
No diálogo com as famílias, o aprendizado se ampliou ainda mais. A parceria permitiu que a comunicação alternativa ultrapassasse o atendimento e chegasse ao cotidiano, fortalecendo as possibilidades de interação e pertencimento. “Aprendi que educar é um gesto coletivo.”
Para Estefanie, a experiência no atendimento domiciliar revelou outra dimensão da Educação Especial. “Nem todo aprendizado precisa ser medido, mas todo aprendizado precisa ser reconhecido. Educar, muitas vezes, é oferecer presença, dar voz ao silêncio e dignidade ao tempo de cada um.” E assim, entre gestos sutis e conquistas silenciosas, a escola continuou existindo, viva, humana e profundamente necessária.
Tecnologia que abre caminhos
O professor que fez da educação técnica um ponto de partida para o futuro

O professor Geraldo Bergamo construiu sua trajetória na educação técnica, área à qual dedica grande parte da vida profissional. Formado professor de eletrônica em 1989 pela FABES, no Rio de Janeiro, encontrou no ensino uma forma de unir conhecimento, prática e formação humana.
“Em 1989 formei-me professor de eletrônica pela FABES, no Rio de Janeiro. Desde então, minha vida tem sido dedicada à educação na área técnica.”
Ao longo da carreira, atuou principalmente em colégios técnicos particulares, sempre incentivando os alunos a transformar ideias em soluções concretas. A participação em feiras científicas e tecnológicas tornou-se parte importante desse processo.
“Participei com vários alunos de feiras técnicas nacionais e internacionais, como a FEBRACE, na USP, e a ISEF, nos Estados Unidos.”
Nesses espaços, projetos desenvolvidos pelos estudantes ganharam visibilidade. Entre eles estavam um cortador de grama automático, um carro à prova de motoristas alcoolizados e um veículo que só funciona quando o cinto de segurança é colocado.
Mais do que as invenções, porém, o que mais marcou sua trajetória foi acompanhar o caminho seguido por aqueles jovens. “Hoje tenho a informação de que um deles é oficial do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Outros se tornaram empresários bem-sucedidos.”
Mesmo aposentado, Geraldo não se afastou completamente da sala de aula. Ainda compartilha sua experiência com novos estudantes, ministrando algumas aulas no SENAI. Ao olhar para a própria história, ele reconhece que a educação foi também o caminho que estruturou sua vida.
“Agradeço a Deus e aos meus pais por terem me direcionado para essa profissão, com a qual construí minha família.”
Hoje vê com orgulho os filhos seguindo seus próprios caminhos. Um servidor público em Brasília e outro advogado no Paraná. Para ele, a docência sempre foi mais do que uma profissão. Foi uma forma de ajudar jovens a descobrirem que o conhecimento também pode abrir caminhos para o futuro.
Movimento que transforma
A professora que fez da educação física um exercício de confiança e superação

Eliana Lauro é professora de Educação Física e escolheu a profissão acreditando que o movimento pode transformar vidas. Ao iniciar sua trajetória, não imaginava que esse caminho mudaria tanto a sua própria história quanto a de muitos alunos. “No começo, pensava que ensinar era apenas passar exercícios, mas logo entendi que meu verdadeiro trabalho era ajudar as pessoas a acreditarem nelas mesmas.”
Ao longo da carreira, trabalhou com diferentes públicos: crianças, adolescentes, jovens e também pessoas com necessidades especiais. Cada turma trouxe desafios e aprendizados. “Vi alunos inseguros ganharem confiança, alunos tímidos se tornarem mais fortes e pessoas que achavam que não conseguiam se movimentar descobrirem que eram capazes.”
Para Eliana, a aula de Educação Física vai muito além da prática corporal. É também um espaço de formação humana. “Em cada aula procuro mostrar que o movimento é mais do que força física. Ele é cuidado, respeito e amor-próprio. Não ensino apenas a executar exercícios, ensino a persistir, a levantar quando cair e a não desistir de si mesmo.”
Com o tempo, o envolvimento dos alunos chamou a atenção de colegas de profissão, que passaram a perguntar qual era o segredo daquele engajamento. A resposta dela sempre foi simples. “Eu ensino com o coração. Acredito que o educador físico é um agente de transformação social, alguém que pode mudar destinos pelo exemplo.”
Hoje, diz sentir orgulho ao ver alunos mais confiantes e colegas inspirados a seguir pelo mesmo caminho. Para ela, a missão do educador ultrapassa os limites da quadra. “Meu propósito é inspirar pessoas a se movimentarem, não apenas com o corpo, mas com coragem para viver melhor. E enquanto eu puder ensinar, continuarei espalhando essa mensagem: todos são capazes, basta alguém acreditar primeiro.”
Por Antônia Figueiredo
Fontes: Professora Eliana Lauro | Professor Geraldo Bergamo | Professora Estefanie Souza










