Dia Mundial da Síndrome de Down

Por Veronica Cruz*


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O Dia Mundial da Síndrome de Down, comemorado em 21 de março, é uma data de conscientização global para celebrar a vida das pessoas com a síndrome e para garantir que elas tenham as mesmas liberdades e oportunidades que todas as pessoas. É oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas desde 2012.  Vamos falar sobre o assunto! 

A neuroplasticidade é uma característica extraordinária do sistema nervoso central, referindo-se à capacidade do cérebro em modificar suas funções, conexões e estruturas, em resposta a toda e qualquer experiência. Essa capacidade é especialmente importante para indivíduos com T21 (Trissomia 21/Síndrome de Down), pois enfrentam desafios cognitivos, sociais, comunicacionais e de autogerenciamento. Este artigo explora a relevância da neuroplasticidade e suas aplicações nas intervenções neuropedagógicas, objetivando no que podem oferecer para o aprendizado e desenvolvimento de pessoas com T21. 

 

Neuroplasticidade: Conceitos e Mecanismos

A neuroplasticidade pode ser dividida em duas categorias principais: a neuroplasticidade funcional e a neuroplasticidade estrutural. A neuroplasticidade funcional envolve a reconfiguração das funções neurais em resposta a experiências, enquanto a neuroplasticidade estrutural se refere a alterações físicas no cérebro, como a formação de novas sinapses e neurônios (Kandel, 2001). Ambientes assertivos aumentam a plasticidade neural, promovendo o aprendizado e a memória (Wang & Sui, 2019). 

T21/Síndrome de Down e a Neuroplasticidade – A T21 (Trissomia 21/síndrome de Down) é uma condição genética, resultando na presença de uma cópia extra do cromossomo 21 em todas ou na maioria das células e é caracterizada por atrasos no desenvolvimento intelectual, motor e autogerenciamento. A neuroplasticidade pode e deve ser estimulada em crianças, adolescentes, jovens e adultos com T21. Tal como Higashida (2020) afirma, intervenções específicas promovem significativamente o desenvolvimento das habilidades cognitivas, motoras e sociais nestes indivíduos. 

Intervenções Neuropedagógicas – são intervenções e metodologias fundamentadas na neurociência e em técnicas pedagógicas, visando estruturar, adequar o aprendizado e as funcionalidades de alunos ou pacientes, especialmente aqueles com necessidades específicas (Nomenclatura utilizada a partir da Deliberação CEE nº 399, de 26 de abril de 2022.).  

 

Entre as estratégias eficazes destacam-se: 

Ambientes Estimulantes– Criar ambientes terapêuticos e de aprendizagem ricos em estímulos sensoriais, motores e sociais é essencial. Ambientes ativos e significativos aumentam a motivação e oportunizam a aprendizagem (Cruz, 2023). 

Rotina e Reforço Positivo– O uso da repetição e do reforço positivo é fundamental para estabelecer novas sinapses (conexões neurais). Metodologias fundamentadas nessas práticas demonstram eficácia no processo ensino-aprendizagem (Schmidt & Lee, 2014). 

Estímulo dos sistemas vestibular, tátil e proprioceptivo– Intervenções que estimulam múltiplos sentidos são especialmente benéficas para pessoas com T21. Aplicações práticas incluem música, jogos, experimentos e atividades que envolvem diferentes modalidades sensoriais, cognitivas e motoras (Meyer, 2015). 

Desenvolvimento das Funções Executivas– Atividades que busquem o fortalecimento da memória de trabalho, da atenção, do foco, da resolução de problemas, do controle inibitório e da flexibilidade cognitiva ajudam a desenvolver as funções executivas em indivíduos com T21, mostrando-se primordial (Biancalana, 2018). 

Apoio socioemocional– Oferecer um ambiente seguro e acolhedor aumenta a autoconfiança e a motivação para aprender a aprender, aprender a conhecer, aprender a ser, aprender a conviver (os quatro pilares de educação da Unesco). A emoção positiva (sim, porque ela também pode ser negativa) é fundamental para o processo de uma aprendizagem eficaz (Berk, 2013). 

Articulação Multiprofissional– A colaboração entre profissionais da educação e da saúde é essencial. Essa valorosa troca fornece um olhar profundo e amplo sobre como melhor atender às necessidades das pessoas com T21. 

 

Conclusão 

A neuroplasticidade é uma capacidade potente, viva e dinâmica que permite mudar quem somos, como pensamos e a maneira com que agimos, alterando não somente a função cerebral, mas também toda a sua estrutura. É de suma importância que profissionais da educação e da saúde apliquem esses conhecimentos de maneira efetiva. Ao utilizar metodologias neuropedagógicas que a desenvolvam, transformamos significativamente a aprendizagem e a qualidade de vida das pessoas com T21, promovendo de fato a inclusão e o reconhecimento de suas funcionalidades. 


*Veronica Oliveira de Araujo da Cruz é Doutora Honoris Causa e Mestra; assessora de inclusão na Diretoria de Educação Superior (Desup) Faetec; neuropedagoga institucional e clínica; professora; escritora; pesquisadora; autora e coautora da WAK com os livros: “Uma Neuroaventura do Saber” e “Práticas Neuropedagógicas para a Educação Infantil – Cap XIII” (2024). 

 

Referências Bibliográficas: 

– BERK, L. E. Development Through the Lifespan. Pearson Higher Ed. 2013. 

– BIANCALANA, V.; BELLINI, S.; e MODENA, P. Cognitive training in children with Down Syndrome: A systematic review. Research in Developmental Disabilities, 2018. 

– CRUZ, V.O.A. Uma Neuroaventura do Saber. WAK editora, 2023. 

– HIGASHIDA, H. Neuroplasticity and Down syndrome: Progress towards effective interventions. Developmental Disabilities Research Reviews, 2020. 

– KANDEL, E. R. The molecular biology of memory storage: A dialogue between genes and synapses. Bioscience Reports, 2001. 

– MEYER, C. R.  Sensory integration and motor performance in children with Down syndrome. American Journal of Occupational Therapy, 2015. 

– SANTOS, F. S.; SILVA, F. R. A neurociência na educação: desafios e contribuições no contexto brasileiro. Revista Brasileira de Educação, 2016. 

– SCHMIDT, R. A.; LEE, T. D. Motor Learning and Performance: From Principles to Application. Human Kinetics, 2014. 

– WANG, Y.; SUI, J. Environmental enrichment enhances neuroplasticity and cognitive functions and promotes recovery from brain injuries. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2019. 

– ZHOU, Y. Environmental enrichment and neuroplasticity: A systematic review. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2020. 


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