Onde a prática encontra sentido

Histórias do chão da escola que transformam vidas e reacendem esperanças


Ao longo de quatro décadas, a Appai construiu sua história lado a lado com a educação pública brasileira. São 40 anos de presença, escuta e compromisso com quem sustenta a escola todos os dias: o professor. Para marcar esse percurso, a Revista Appai Educar Digital inaugura uma série especial que atravessará todo o ano, edição após edição, dando voz a educadores e educadoras, associados Appai, que transformam a educação no lugar onde ela realmente acontece, na prática, no cotidiano, na sala de aula, na gestão escolar e nos projetos que conectam a escola ao mundo. 

A cada mês, quatro profissionais da educação assumem o centro da narrativa para contar, em primeira pessoa, uma experiência real de transformação. Não se trata de modelos prontos, fórmulas ou discursos idealizados. São histórias vividas, construídas em contextos muitas vezes desafiadores, nas quais escolhas pedagógicas, sensibilidade e compromisso humano fizeram a diferença na vida de estudantes, famílias e comunidades inteiras. 

O objetivo desta série é claro: reconhecer, valorizar e tornar visível o impacto transformador da prática docente, aquela que nasce no cotidiano da escola e reverbera muito além dos seus muros. Histórias que só se tornam possíveis porque encontram apoio em quem acredita, de forma consistente, que a educação é a base de todas as transformações sociais. 

É nesse ponto que a Appai reafirma seu papel histórico. Por meio da Revista Appai Educar Digital e do pilar Educação, a instituição sustenta, apoia e dá visibilidade a práticas que fortalecem o professor como agente central da mudança. Ao apostar na escuta, no reconhecimento e na circulação dessas narrativas, a Appai não apenas celebra seus 40 anos, ela renova seu compromisso com o presente e com o futuro da educação brasileira. 

Mais do que celebrar o passado, esta série olha para o agora e aponta para o que ainda pode ser construído. Porque, no momento em que a prática do professor ganha voz, a educação se fortalece. E quando essas histórias circulam, elas não apenas emocionam, elas continuam, inspiram e transformam. 

 

Onde houve abraço, houve escola

A história da professora que transformou afeto em aprendizagem na pandemia 

“O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço. Para Maura Cristina Silva, professora formada em Letras, com foco em Português e Literatura, essa frase nunca foi apenas bonita. Sempre foi método, escolha pedagógica e compromisso ético com a infância. Natural de São João delRei (MG), iniciou sua trajetória na rede municipal da cidade natal e, desde 2001, constrói sua história na rede municipal do Rio de Janeiro, dedicando-se especialmente à alfabetização ancorada na Pedagogia do Afeto, aquela que entende que aprender começa pelo vínculo. 

 

Até que o mundo parou 

Com a chegada da pandemia, vieram as escolas fechadas, o distanciamento absoluto, as crianças isoladas em suas casas. “O contato pelas redes sociais mostrou uma grande dificuldade de continuidade da aprendizagem”, relembra. Faltava algo essencial: a presença. Faltavam os olhos nos olhos. Faltavam os abraços. 

E foi justamente aí que Maura decidiu não aceitar a ausência como resposta. 

“Criei o Kit Abraço” 

Sem sala de aula, sem carteira, sem quadro, mas com o mesmo compromisso de sempre, Maura teve uma ideia que unia cuidado, criatividade e responsabilidade. “Tive a ideia de ir ao encontro dos alunos”, conta. Surgia ali o Kit Abraço. 

Vestida com equipamentos de proteção, capa, máscara, luvas e acompanhada de um carro de som, ela passou a visitar seus alunos. Tudo pensado para ser seguro, mas também mágico. O objetivo não era apenas manter contato, mas preservar o vínculo escolar, dizer às crianças e às famílias que a escola continuava viva, mesmo fora de seus muros. Era a pedagogia encontrando novos caminhos para continuar existindo. 

 

A escola entrou nas casas e nos corações

Mais do que garantir a aprendizagem formal, a iniciativa revelou algo ainda mais profundo. “Essa experiência reafirmou que o processo de aprendizagem se dá por vínculos”, afirma Maura. O afeto, quando colocado no centro da relação pedagógica, transforma. Melhora a autoestima, desperta a vontade de aprender, fortalece a confiança da criança em si mesma e no grupo. 

E há outro pilar essencial nessa história: a família. “Ela é fundamental no processo, que precisa acontecer não só na escola, mas também dentro de casa”. Durante a pandemia, essa parceria deixou de ser discurso e virou prática cotidiana. O impacto foi mútuo. Em um dos períodos mais difíceis da história recente, a escola se fez presença dentro dos lares. “Me tornei parte das famílias dos meus alunos, e eles da minha”. Houve partilha de dores, de alegrias, de apoio. Houve escuta. Houve cuidado. Houve abraço, mesmo quando ele precisava ser reinventado. 

 

Da sala de aula para o mundo

 

A força dessa iniciativa ultrapassou fronteiras. O Kit Abraço ganhou repercussão internacional e foi mencionado em uma reportagem do New York Times, que destacou estratégias inovadoras de professores brasileiros durante a pandemia. Mas, para Maura, o maior reconhecimento não veio de fora. Veio do brilho no olhar das crianças, da confiança das famílias e da certeza de que educar é, antes de tudo, estar disponível. 

Porque, mesmo em tempos de distanciamento, ela provou que a escola pode e deve continuar sendo um espaço de encontro. E que, às vezes, o melhor lugar do mundo continua sendo exatamente onde ela sempre acreditou: dentro de um abraço. 

Quando a inclusão deixa de ser discurso e vira escolha

A professora que transformou consciência em pertencimento dentro da sala de aula 

“Laudo não define ninguém. A primeira inclusão é atitudinal. Rosane Almeida dos Santos carrega mais de vinte anos de experiência na educação e uma certeza que atravessa toda a sua trajetória: educar é formar cidadãos capazes de viver em sociedade com ética, empatia e responsabilidade. Pedagoga, psicopedagoga, neuropsicopedagoga, palestrante, atualmente Professora Articuladora Pedagógica no Estado do Rio de Janeiro e Professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE) na rede municipal, ela acredita que a Educação é o caminho mais consistente para a construção de um mundo melhor. E foi essa convicção que orientou uma das experiências mais marcantes de sua carreira. 

 

Um aluno, uma turma, um desafio coletivo

Em junho de 2017, Rosane assumiu uma turma de 4º ano do Ensino Fundamental em uma escola municipal do Rio de Janeiro. Aquele grupo estava, desde o início do ano letivo, sem professora regente, uma lacuna que já dizia muito sobre os desafios enfrentados. Entre os alunos, havia um menino com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ainda sem laudo naquele momento. 

Inteligente, participativo, mas visivelmente isolado, ele enfrentava dificuldades de interação com os colegas. Em alguns momentos, a convivência era tensa. O problema, para Rosane, não estava na criança. Estava na urgência de construir um ambiente verdadeiramente inclusivo. “Aquele aluno precisava ser incluído e integrado de verdade à turma”, afirma. 

 

Inclusão se ensina e se aprende

Percebendo que o caminho passava pela conscientização, Rosane decidiu agir. Desenvolveu um trabalho contínuo com a turma, usando vídeos curtos, debates, pesquisas, rodas de conversa e explicações claras sobre inclusão, diversidade e respeito às diferenças. Falou sobre as particularidades de cada pessoa, sobre as diversas deficiências e, principalmente, sobre a importância de olhar o outro com humanidade. 

O trabalho não foi pontual. Aconteceu ao longo do tempo, desde o momento em que identificou a situação até o final do ano letivo. Inclusão, ali, não era evento, era processo. 

 

O dia em que o pertencimento aconteceu

O impacto se tornou visível em uma aula aparentemente simples: uma atividade em grupo. Ao organizar a proposta, Rosane observou algo que a emocionou profundamente. Dos cinco grupos formados, três convidaram para participar espontaneamente o colega que antes permanecia à margem. 

“Foi muito gratificante ver a fisionomia dele”, relembra. Pela primeira vez, o aluno não precisaria ficar com quem o aceitasse por falta de opção. Ele podia escolher. Podia pertencer. Como qualquer outro. A atividade foi um sucesso. Mais do que conteúdo, desenvolveu nos alunos valores que extrapolam a escola: tolerância, compreensão e empatia, aprendizados que a vida cobra em muitos momentos. 

Uma turma transformada e uma certeza reafirmada

A partir daquela experiência, a convivência mudou. A turma se tornou mais amiga, respeitosa e solidária. A inclusão deixou de ser um conceito abstrato e passou a ser vivida no cotidiano. Para Rosane, essa vivência reafirmou sua missão como educadora: lutar por uma inclusão real, concreta, possível. “Incluir é um grande desafio. Exige braços, consciência, conhecimento e sensibilidade”. E ela reforça: tudo começa pela atitude. 

Porque laudos não definem pessoas. Limites existem para serem superados. E a escola, quando escolhe incluir, ensina muito mais do que qualquer conteúdo previsto no currículo. Ensina a ser gente. 

 

Quando liderar foi aprender a escutar

A diretora que transformou diálogo em pertencimento e protagonismo 

“A educação transforma quando acredita no potencial de cada aluno e caminha com eles na construção do futuro”. Sandra Pereira de Oliveira nunca acreditou em uma escola conduzida de cima para baixo. Professora da rede pública estadual e ex-diretora do Colégio Estadual Dom Adriano Hipólito, no Centro de Nova Iguaçu (RJ), ela sempre enxergou a educação como um encontro, entre pessoas, histórias, expectativas e sonhos que ainda estavam aprendendo a ganhar forma. 

Mesmo em uma escola pública localizada em região central, onde muitos estudantes chegavam com esperança e planos para o futuro, o desafio persistia silencioso: como manter o brilho aceso todos os dias? Como fazer com que a escola continuasse fazendo sentido para quem entrava por seus portões? Sandra entendeu cedo que engajamento não se impõe. Se constrói. 

 

A escuta como ponto de partida

Durante sua gestão, ela fez uma escolha que não aparece em relatórios, mas muda tudo no cotidiano: escutar. Escutar alunos, professores, funcionários, famílias. Criar espaços reais de diálogo e transformar a gestão em um exercício diário de presença. 

A liderança democrática deixou de ser conceito para virar prática. Projetos interdisciplinares ganharam vida, ações culturais passaram a ocupar os corredores, e a escola começou a pulsar para além do currículo. Aos poucos, os estudantes passaram a perceber que suas vozes importavam. Que a escola também era deles. E quando o jovem se sente visto, algo muda. 

 

Quando a escola vira lugar de pertencimento

O clima foi se transformando. A escola se tornou mais organizada, mais acolhedora, mais viva. Os alunos passaram a participar com mais envolvimento, assumindo responsabilidades e se reconhecendo como protagonistas do próprio percurso. A escola deixou de ser apenas um espaço de passagem e passou a ser um lugar de construção de projetos de vida. Um lugar onde errar fazia parte do aprender, onde dialogar era regra, onde crescer era possível. 

Nada disso aconteceu por acaso. Foi resultado de escolhas feitas com coragem, sensibilidade e compromisso humano. Na trajetória de Sandra, fica uma certeza silenciosa e poderosa: liderar é caminhar junto. É confiar que, quando alguém  crê no potencial de um aluno, ele aprende a acreditar em si mesmo. E quando isso acontece, a escola cumpre sua maior missão. 

 

A leitura abriu caminhos onde antes só havia muros

A professora que transformou resistência em esperança 

 

Priscila de Albuquerque Lima aprendeu cedo que, quando tudo parece bloqueado, é preciso procurar uma fresta. Professora da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, atuando no Ciep Herivelto Martins, em Senador Vasconcelos, na Zona Oeste da cidade, ela não chegou à educação por acaso. Sua primeira formação foi em Serviço Social. Foi no contato com jovens em situação de vulnerabilidade que entendeu que aquele seria o caminho mais potente para transformar vidas. E, dentro dela, a leitura sempre ocupou um lugar central. 

O desafio se apresentou quando Priscila assumiu uma turma de 3º ano composta por alunos com idades que chegavam a 16 anos. Muitos enfrentavam extrema dificuldade de leitura e escrita, histórico de repetências, baixa frequência escolar e episódios constantes de agressividade. Eram estudantes marcados por sucessivas rupturas, que já haviam entrado e saído de projetos e carregavam pouca confiança na própria capacidade de aprender. 

Diante daquele cenário, Priscila fez uma escolha decisiva. “Não adiantava passar o ano listando todos os motivos pelos quais a turma não alcançaria os objetivos”. As falhas do sistema eram conhecidas, assim como as questões sociais, familiares e de saúde que atravessavam aquelas trajetórias. Mas, naquele momento, uma certeza se impôs: eles eram seus alunos. E era preciso encontrar um caminho. A resposta veio do lugar mais íntimo da sua história: ler. 

A leitura passou a ocupar todos os espaços da sala. Ler de tudo. Ler sempre. Ler juntos e sozinhos. Ler para compreender, interpretar, ilustrar, dramatizar. Ler por prazer. A sala inteira virou um convite permanente à leitura. Livros espalhados, produções autorais, releituras, jornais, diários, críticas literárias, jogos, dramatizações. Surgiu até um clube do livro. Cada aluno participava a partir de suas habilidades, com respeito aos limites, mas com a certeza de que todos tinham um lugar naquele processo. 

 

No início, houve resistência. Silêncio durante as leituras em voz alta. Desconfiança. Mas, dia após dia, algo começou a mudar. Aos poucos, os alunos passaram a perceber que ler podia ser bom. As brigas diminuíram, a frequência aumentou e a participação se tornou rotina. Os resultados pedagógicos começaram a aparecer, primeiro tímidos, depois consistentes o suficiente para devolver àqueles estudantes algo fundamental: a esperança em suas próprias trajetórias escolares. 

Com o tempo, as transformações extrapolaram a sala de aula. Os alunos passaram a querer ler por conta própria, disputavam livros para levar para casa e sugeriam títulos para o clube do livro, alguns contemporâneos, outros nem tanto. Talentos criativos e expressivos, antes escondidos atrás da agressividade e dos problemas de comportamento, vieram à tona. As famílias também passaram a perceber as mudanças. 

Hoje, ao revisitar essa trajetória, Priscila carrega uma convicção que orienta sua prática: os livros podem, sim, reconstruir caminhos. Sua história reafirma que não existem alunos inalcançáveis. Existem histórias que ainda não encontraram o livro certo, o tempo certo e o olhar disposto a insistir. Naquele Ciep da Zona Oeste, foi a leitura que abriu frestas, derrubou muros e ampliou horizontes. 

Porque educar, quando é feito com intenção e afeto, continua sendo uma das formas mais poderosas de transformar vidas. 


Por Antônia Figueiredo 

Fontes:

Priscila de Albuquerque Lima é associada Appai, professora da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, atuando no Ciep Herivelto Martins, em Senador Vasconcelos. 

Sandra Pereira de Oliveira é associada Appai, professora da rede pública estadual e ex-diretora do Colégio Estadual Dom Adriano Hipólito, Nova Iguaçu (RJ). 

Rosane Almeida dos Santos é associada Appai, pedagoga, psicopedagoga, neuropsicopedagoga, palestrante, atualmente professora articuladora pedagógica no Estado do Rio de Janeiro e professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE) na rede municipal. 

Maura Cristina Silva é associada Appai, professora formada em Letras, com foco em português e Literatura dedicando-se especialmente à alfabetização ancorada na Pedagogia do Afeto.