Planejar no início do ano: uma escolha de cuidado
Por Irene Reis*

Reorganizar o ciclo de planejamento para o início do ano letivo não é apenas uma mudança de agenda. É um posicionamento político e ético: planejar faz parte da jornada de trabalho e precisa ser feito em condições dignas, com calma, acolhimento, escuta, tempo.
O que muda quando priorizamos o planejamento em janeiro ou fevereiro, após a pausa ou recesso?
Corpo e mente mais descansados
Depois de um período real de descanso, os professores chegam com mais energia para pensar projetos, revisar práticas e propor caminhos novos. Ideias vêm com mais fluidez quando a cabeça não está atolada de pendências.
Mais vínculo com a realidade da escola
O início do ano permite que o planejamento seja construído a partir de diagnósticos atualizados: contexto das turmas, perfil das novas matrículas, desafios do território, prioridades da rede. Em dezembro, muitas dessas informações ainda são incertas.
Possibilidade de planejamento coletivo de verdade
Com tempo reservado em calendário, é possível organizar momentos de escuta, trocas entre pares, leitura de dados, construção de metas e ações com participação ativa da equipe e não apenas “preenchimento de modelos” nos intervalos.
Integração com a pauta dos riscos psicossociais
O começo do ano é o momento ideal para apresentar à equipe a NR 1, discutir riscos psicossociais e incluir essa agenda no PGR da escola. Assim, o planejamento pedagógico já nasce alinhado à “cultura do cuidado” e às exigências legais.
NR 1, riscos psicossociais e formação continuada: assunto para o ano todo
NR-1 (Norma Regulamentadora 1) é a base das normas de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil, estabelecendo as diretrizes gerais para as empresas gerenciarem os riscos ocupacionais.
Investir em NR 1 e riscos psicossociais não é fazer uma palestra isolada em janeiro e “riscar da lista”. É incluir essa pauta em todas as jornadas formativas e na formação continuada de todos os segmentos da escola: gestão, docência, equipe de apoio, serviços terceirizados, conselhos, grêmios, famílias.
Algumas ações possíveis ao longo do ano:
- Abrir o ano letivo com uma conversa sobre trabalho e saúde mental, apresentando o conceito de riscos psicossociais, ouvindo percepções da equipe e alinhando expectativas.
- Usar reuniões pedagógicas para mapear possíveis fontes de sofrimento e sobrecarga: conflitos recorrentes, uso de tecnologias, burocracias desnecessárias.
- Criar um grupo de trabalho de “Cultura do Cuidado”, com representantes de diferentes segmentos, responsável por acompanhar o PGR na dimensão psicossocial, propor ajustes e monitorar avanços.
- Incluir o tema nas formações sobre avaliação, currículo, inclusão, gestão de sala de aula – sempre articulando conteúdo pedagógico com condições reais de trabalho.
- Registrar e comunicar decisões que reduzam riscos: revisão de horários, reorganização de turmas, simplificação de formulários, ampliação de tempo de planejamento, canais de escuta protegida.
Quando a mensagem é coerente ao longo do ano, a equipe percebe que saúde mental não é “agrado” nem “benefício extra”, mas parte da responsabilidade institucional da gestão e um critério de qualidade da própria escola. Não há aprendizagem se quem ensina não está em condições de fazê-lo!
*Irene Reis é educadora, formadora de docentes e gestores, mestre e doutoranda em Ciências da Educação. Especialista em Neurociência e Comportamento, ativista da Saúde mental no desenvolvimento profissional. Autora do livro “Como ser um educador? Reinventando a educação de A a Z” (Wak Editora – 2025).












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