Inspirados na música Comida, do grupo Titãs, os alunos da 3.ª série montaram um grande painel intitulado A gente não quer só comida

Por Tony Carvalho

 

Muitas idéias na cabeça e uma câmera na mão. A busca por adaptações curriculares no trabalho com alunos da Educação Especial despertou na professora Cátia Regina Gutman o desejo de fugir das situações tradicionais de ensino. Foi, então, que ela decidiu implantar o projeto Imagens Especiais na turma de Educação Especial da Escola Municipal Leila Barcellos, na Cidade de Deus, que culminou com a produção de um filme envolvendo a participação dos alunos e de seus familiares.

Quando começou a trabalhar com a Educação Especial, Cátia sentiu que o grande desafio era oferecer algo novo a todo instante, propondo atividades que instigassem o pensamento dos alunos. “Encontrei uma enorme expectativa nos olhos de cada um deles e isso mexeu comigo. O aluno com retardo mental tem o tempo de concentração muito pequeno, o que exige muita criatividade. Por isso, decidimos encarar o desafio de mostrar que existe um mundo além da escola e da casa dele”, conta.

Formada em Pedagogia e pós-graduada em Psicopedagogia, Cátia realizou um trabalho diferenciado, de acordo com o nível de cada aluno.
Segundo a professora, o projeto teve como objetivo trazer a família para a escola. A proposta foi valorizar a família e o lugar onde moram, melhorando a auto-estima dos alunos especiais e também das pessoas que estão à sua volta. “Para evitar que esses alunos abandonem
a escola, é imprescindível mostrar aos pais o quanto eles são importantes na
vida de seus filhos e o quanto a escola é
fundamental na vida deles”, explica.

As filmagens começaram na escola e cada atividade, realizada em sala de aula
ou fora dela, era registrada. O mesmo acontecia com os passeios culturais que
a turma realizava ao longo do período letivo. A outra etapa do projeto consistiu
em inserir o núcleo familiar nas atividades. Com a câmera ligada, professora e alunos passaram a fazer o percurso entre a escola
e a casa de cada um dos integrantes da turma.

“Ao percorrer as ruas da comunidade, os alunos faziam narrações e apresentavam suas casas como se estivessem fazendo uma reportagem”, relembra. Posteriormente, os discentes tiveram a incumbência de encontrar, no mapa de ruas do bairro, os caminhos por eles percorridos e de reproduzir as suas casas em caixas de sapato que se transformaram em maquetes. “Buscamos reportagens, em jornais,
que falavam sobre a Cidade de Deus e seus moradores, mostrando quais eram as dificuldades encontradas nessa comunidade.
À medida que o projeto ganhava forma, as filmagens iam sendo conferidas e, ao se reconhecerem no vídeo, os alunos interagiam com as imagens e, conseqüentemente, tinham vontade de participar mais ativamente da produção”, afirma.

Os resultados foram surpreendentes. As imagens refletiram uma auto-representação, mostrando e revelando sentimentos vividos por alunos e familiares na ocasião das filmagens.

A relação entre pais e filhos ficou fortalecida, assim como o reconhecimento de que o filho especial é capaz de
construir. Flávio, 18 anos, o aluno mais velho da turma, é um exemplo disso. Incentivados com o bom desempenho do filho no projeto, os pais de Flávio providenciaram sua carteira de trabalho e ele já iniciou um curso profissionalizante. “Estou triste porque o Flávio vai sair da escola, mas também estou feliz porque estou vendo o seu crescimento”, disse, emocionada, a mãe do aluno.
Para Cátia, a principal conquista do projeto foi constatar que cada um dos nove alunos da turma começou a descobrir novos
mundos. “Na luta pela efetivação dos objetivos,
aprendemos a superar dificuldades reais, numa comunidade carente, e a lidar com a violência cotidiana. Ao ultrapassarmos os muros da escola, trouxemos a família para a comunidade escolar e despertamos em cada aluno o desejo de vencer suas próprias barreiras”, finaliza.


Escola Municipal Professoranda Leila
Barcellos de Carvalho
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Professora Cátia Regina Gutman