Durante onze dias, o Rio de Janeiro se transformou na capital da literatura. Pelos corredores dos três pavilhões do Riocentro, olhos atentos na busca pelo saber. Cerca de 630 mil visitantes percorreram os 55 mil metros quadrados da XII Bienal Internacional do Livro, batendo os recordes de público das edições anteriores. Os 944 expositores disponibilizaram mais de 100 mil títulos, sendo que mil deles eram lançamentos. A programação cultural oficial contou com mais de 230 autores nacionais e 21 estrangeiros em quase uma centena de sessões literárias.
A Bienal, uma iniciativa do SNEL – Sindicato Nacional dos Editores de Livros – em parceria com a Fagga Eventos, homenageou, nessa edição, a França, que trouxe uma delegação de 25 pessoas, entre autores, profissionais e autoridades. O estande do país homenageado, de 285 m2, ofereceu ao público atividades culturais variadas, com encontros entre brasileiros e franceses; uma livraria com 1.500 obras, incluindo um sebo com preciosidades da língua francesa, além de apresentações musicais, aulas de francês, palestras e oficinas.
“É uma honra para a França receber esta homenagem da
Bienal do Livro exatamente no ano em que o Brasil é homenageado na França. Estamos muito felizes em celebrar juntos o livro e a leitura”, afirmou Philippe Dupont, cônsul-geral da França no Rio de Janeiro, durante a abertura oficial da XII Bienal Internacional do Livro, no Riocentro.
Estiveram presentes na abertura do evento a governadora do Estado, Rosângela Matheus; o embaixador da França no Brasil, Jean de Gliniasty; o presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, José Henrique Paim Fernandes; o Secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Arnaldo Niskier; o Secretário Municipal das Culturas, Ricardo Macieira; o presidente da Academia Brasileira de Letras, Ivan Junqueira; o presidente do SNEL, Paulo Rocco; e o diretor-presidente da Fagga Eventos, Arthur Repsold. 
A solenidade contou, ainda, com a presença de autores franceses que vieram especialmente para a Bienal e de personalidades brasileiras como a escritora Lygia Fagundes Telles, contemplada com o Prêmio Camões – o mais importante prêmio literário da Língua Portuguesa. O chargista Chico Caruso e o desenhista e criador da Turma da Mônica, Maurício de Sousa, também prestigiaram a abertura da Feira.
A governadora Rosinha Matheus ressaltou a preocupação do governo do Estado na formação de novos leitores. “Em pouco tempo, estaremos distribuindo cerca de 1 milhão e 500 mil livros entre as escolas, beneficiando 470 mil alunos da rede pública”, disse a governadora, que embarca para Paris em agosto, para participar da “Semana do Rio de Janeiro”.
Paulo Rocco, na sua fala, fez um histórico das relações entre Brasil e França no universo das artes plásticas, do jornalismo, do teatro, do cinema e, é claro, da literatura. O Secretário Estadual de Cultura, Arnaldo Niskier, e o Secretário Municipal das Culturas, Ricardo Macieira, destacaram, nos seus discursos, as atividades e programas por ele realizados na área cultural, sobretudo no que concerne ao estímulo à leitura.
Já o presidente da Academia Brasileira de Letras, Ivan Junqueira, fez uma análise do atual estágio da cultura no país. O presidente do FNDE, José Henrique Paim, destacou o empenho do governo federal em desenvolver projetos que estimulem a leitura, como o Biblioteca na Escola. |

Para Jean de Gliniasty, a Bienal do Rio de Janeiro é a maior manifestação sul-americana em favor do livro e da leitura. Inspirado em famosa frase de Monteiro Lobato – um país se faz com homens e livros –, o embaixador francês afirmou que uma democracia se faz com leitores e bibliotecas. Segundo ele, o conceito de biblioteca ganhou nova dimensão com o advento da Internet. “A expansão da tecnologia se dá de tal maneira que o mundo passa a ser apresentado como uma gigantesca aldeia multiconectada”, disse Gliniasty.
Um dos cerca de mil lançamentos literários ocorridos durante a Bienal foi o livro As Seitas Organizacionais, de Wagner Siqueira, presidente do Riocentro. Segundo o autor, a obra trata das grandes empresas organizacionais que transformam os empregados em verdadeiros membros de seitas fundamentalistas do mundo corporativo, exigindo deles dedicação integral ao trabalho. “Participar da XII Bienal lançando mais um livro é motivo de muito orgulho. Afinal, a feira é o maior evento cultural da cidade”, disse.
Na lista dos escritores que marcaram presença na feira, nomes de grande expressão da literatura francesa atual, já consagrados em obras premiadas e traduzidas para diversos países, inclusive o Brasil, como é o caso do romancista Daniel Pennac. “É uma delegação consistente, tanto do ponto de vista da literatura francesa atual, quanto do pensamento francês. Temos uma seleção de autores de idades variadas, dos 23 aos 81 anos, originários de diferentes localidades da França e representantes dos mais diversos gêneros literários. Os leitores e visitantes da Bienal se divertiram com a irreverência e humor desses escritores”, analisou Rosa Maria Barboza de Araújo, coordenadora da programação cultural da Bienal do Livro.
A visitação escolar foi um dos pontos altos do evento com a participação de duas mil escolas e, aproximadamente, 200 mil estudantes, de 7 a 14 anos, de escolas públicas e privadas do Rio. Antes da visita, as escolas inscritas receberam o Kit Visitação Escolar com informações sobre o evento. Durante o passeio, as crianças puderam entrar em contato com autores, contadores de histórias e ilustradores. A estudante Mariana Lacerda, 12 anos, era uma delas. “Essa é a primeira vez que venho a uma Bienal e estou encantada com tudo. Estou participando do maior número de atividades que eu puder e, é claro, ainda vou comprar alguns livros”, revelou. 
Atividades como o Arena Jovem e o Café Literário repetiram o sucesso de edições anteriores. Enquanto o primeiro promoveu debates sobre temas polêmicos de interesse dos adolescentes, como produção musical, consumismo, sexo e violência urbana, o segundo reuniu grandes nomes da literatura em bate-papos informais sobre a literatura de humor, cinema, teatro e todos os gêneros literários.
Entre as muitas novidades dessa edição, destaque para o Jirau de Poesias. Em 12 sessões, cinqüenta poetas – como Affonso Romano de Sant`anna, Ivan Junqueira, Leda Hühne, Elisa Lucinda, Francisco Bosco e Antonio Calloni, entre outros – estiveram presentes lendo poesias e conversando com os amantes do gênero.
Para muitos visitantes, porém, a grande sensação ficou por conta do Imaginário do Autor, um espaço cenográfico aconchegante e descontraído, onde duplas de autores se encontraram para falar sobre dois temas básicos: Fantasia e Transgressão. Na primeira série, que durou uma semana, os escritores discorreram sobre utopias, sonhos, desejos, sabores, beleza e sensualidade em um cenário marcado por cores vivas, luzes vibrantes e aromas frescos e perfumados.
Na segunda semana, na série Transgressão, eles falaram de temas marginais, subversivos e secretos – como os códigos e os serviços de inteligência – e também sobre crime e traição. O ambiente se transformava com cores escuras, luzes frias, sombras, fumaça e aromas exóticos, transmitindo a sensação de mistério. “A cada edição, a Bienal do Livro nos surpreende. Estou me sentindo como se estivesse dentro da história”, contou o funcionário público Victor Nascimento, acompanhado dos seus dois filhos.
A Bienal reservou ainda espaço para a literatura ao vivo, com a leitura de um sucesso do teatro francês: O Amante de Madame Vidal, de Louis Verneuil, traduzido por Millôr Fernandes. Já o leitor crítico, sempre pronto a aprender e formar opinião, teve, nas sessões do Fórum de Debates, várias opções de temas para escolher. Jornalistas, intelectuais e escritores consagrados discutiram questões polêmicas e atuais.
Este ano, a aproximação dos autores com o público ficou ainda maior. Pela primeira vez, foi instalada uma Praça do Autógrafo, na qual os escritores puderam autografar suas obras. Jô Soares, Frei Betto e Oliver Sacks foram alguns dos autores que passaram pelo local.
Após comemorarem os resultados dos 11 dias de festa literária, os organizadores do evento já apostam que, em 2007, o evento será ainda maior. “Completamos, com essa edição, 22 anos de sucesso. Anossa meta é investir em qualidade, realizando melhorias para tornar a Bienal um programa cada vez mais atraente para o público, sem perder o foco principal: valorizar o livro e os autores”, definiu Paulo Rocco, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livro.
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