Edição 38 - Xeque-Mate O Xadrez nas Escolas


Alunos do Ensino Médio encenam momentos marcantes da História do Brasil

Por Tony Carvalho

Os diversos "Brasis" retratados em uma apresentação cênica: da vida dos índios, antes da chegada dos colonizadores, aos dias atuais. Assim foi o Café Brasil, um projeto envolvendo História, Geografia e Educação Artística, apresentado pelos alunos do 2.º ano do Ensino Médio, do turno da noite, do Colégio Estadual Presidente Kennedy, localizado em Belford Roxo. A encenação, apresentada na quadra de esportes do colégio, durou aproximadamente 45 minutos, envolvendo música, dança, canto e interpretação.

Sob os olhares atentos de uma platéia que lotou as arquibancadas da quadra, a apresentação teve início com uma música ianomâmi, na tentativa de reproduzir a vida indígena no Brasil, as mudanças sofridas com a chegada do colonizador e a submissão desses índios a um novo sistema. Em seguida, a peça abordou a chegada dos primeiros navios negreiros, com a interpretação de uma música angolana que registra o lamento de um povo que é arrancado de sua terra natal para viver como escravo.

A aluna Daniele Silva de Sousa, arrancando aplausos de um público emocionado, recitou a letra de um samba-enredo da Mangueira, dos anos 80, que fala da Lei Áurea e indaga se a liberdade de fato existiu. "... Será que já raiou a liberdade ou foi tudo ilusão? Será que a Lei Áurea tão sonhada, há tanto tempo assinada, não foi o fim da escravidão? Hoje, dentro da realidade, onde está a liberdade? Onde está que ninguém viu? Moço, não se esqueça que o negro também construiu as riquezas do nosso Brasil..."

Logo depois, os alunos encenaram a passagem do Brasil Regencial para o Império, passando pelo movimento cultural do período e pelo nascimento da República. Os primeiros acordes da música Abre-alas, de Chiquinha Gonzaga, foram o pano de fundo para tratar de temas como a política do café-com-leite, o Governo Getulista e a relação de Luis Carlos Prestes e sua esposa Olga Benário - comunista e judia que foi entregue pela polícia do Estado Novo à Gestapo (polícia política nazista) e assassinada, em 1942, num campo de concentração da Alemanha nazista.

Em seguida, foi feita uma rápida passagem para o regime militar, enfocando o impacto que os vinte anos de silêncio causaram na vida dos brasileiros. A abertura política, a Campanha das Diretas e os governos que sucederam esse período também foram lembrados, com destaque para o movimento dos caras-pintadas. A visão dos jovens que, naquele momento, despertavam para os problemas políticos e sociais do país foi retratada através de uma música de Renato Russo que deixa uma pergunta no ar: "Que país é esse?". Para encerrar, os alunos ainda abordaram a revolução provocada com a chegada da Internet e a expectativa de que programas como o Fome Zero ajudem a combater a miséria do país e resgatar a esperança de um futuro melhor.

Para a coordenadora do projeto, professora de História Denise de Oliveira, o trabalho deu aos alunos a possibilidade de vivenciar uma história que eles próprios estão ajudando a escrever. "As turmas da noite são formadas por alunos que trabalham durante o dia e apresentam certas dificuldades em concluir o Ensino Médio. No entanto, eles apresentaram uma dedicação surpreendente durante a preparação desse projeto, que ajudou a revelar talentos individuais. Desde o início, tínhamos a idéia de montar uma peça, mas como professora, encontrei mil barreiras. Foi aí que os potenciais dos alunos foram se destacando. Um aluno desenha, outro pinta, canta, dança, costura, apresenta idéias, atua nos bastidores, enfim, um envolvimento de todos que nos deixou muito satisfeitas", explica Denise, que contou também com a colaboração da professora de história, Márcia Teixeira Pinto, muito envolvida com teatro e organizações não governamentais.. O projeto começou em setembro, com seminários e debates dentro das salas de aula, quando foram abordados os vários períodos da História do país. A partir do conteúdo discutido, os alunos iniciaram a produção de pesquisas, buscando um aprofundamento de fatos e personagens que ficaram marcados ao longo do tempo.

O passo seguinte foi a execução do projeto Pintando o Brasil, no qual os alunos com aptidão para a pintura produziram quadros e painéis referentes ao material pesquisado. Em seguida, foram iniciados os ensaios das peças, com leituras dos textos, formação dos grupos e seleção de músicas.

Para Márcia, as vantagens pedagógicas de um projeto como esse são grandes. "O que os alunos vivenciam, criam e se apropriam desse conhecimento é muito maior do que a leitura de um texto em um livro. A informação vivenciada faz muito mais sentido para eles, que passam a enxergar um significado no que está sendo estudado", afirma.

A aluna Daniele Silva de Sousa concorda. Segundo ela, o conteúdo estudado ficará guardado para sempre na sua cabeça. "Agora entendo melhor o país e já posso discutir a realidade em que vivemos", garante. O aluno Cristiano Augusto Sobreira, que participou da encenação representado o regime militar, acredita que o projeto lhe ajudou a amadurecer como estudante. "Ensaiamos bastante para fazer um belo papel diante desse público todo. Aprendemos a trabalhar em equipe e a entender que cada um é uma peça importante para construir o todo", diz.

Os alunos e o público presente também puderam participar da campanha de arrecadação de alimentos não perecíveis que o colégio está desenvolvendo. O material arrecadado será doado em forma de cestas básicas para comunidades residentes em torno da escola.

Colégio Estadual Presidente Kennedy - Belford Roxo
Tel.: (21) 2779-6787 / 2761-4610