O orgulho dos alunos-passistas da escola Garcia D’Ávila mistura-se à alegria dos irmãos Pablo Ythalo e Rafaela Boani, mestre-sala e porta-bandeira mirins da Unidos do Peruche

A recuperação, o respeito e a valorização da escola fazem parte de um novo momento na vida dos estudantes e moradores da região

Por Antônia Lúcia

Samba no pé, na mão e, sobretudo, na ponta do lápis. Essa foi a linguagem encontrada pelo diretor
Waldir Romero, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Comandante Garcia D’Ávila – localizada no Parque Peruche, raiz do samba da zona norte de São Paulo – para mudar a história de vida de mais de 1.200 alunos do 1.º e 2.º segmentos do Ensino Fundamental. A escola, que também já foi conhecida como “Maloquinha” pelo seu aspecto de desleixo e abandono, hoje é considerada símbolo de qualidade em educação.

A transformação começou em 1995 com a chegada do professor Waldir Romero à instituição. “Na época havia muitos problemas de toda natureza, inclusive envolvendo violência física, mortes, roubos, furtos e uso de drogas. Os alunos e a comunidade estavam sem orgulho do bairro, da escola e com poucas esperanças de mudanças”, conta o diretor, acrescentando que era necessário fazer alguma coisa para mudar aquele cenário, uma vez que só vinham para a escola os jovens que não conseguiam vagas em outras unidades educacionais, ou seja, os excluídos.

Segundo o diretor, o primeiro passo para mudar o rumo daquela situação foi reunir-se com o corpo docente da escola e, a partir daí, criar um projeto cujas bases estivessem centradas na aproximação da escola com a comunidade, seus saberes e fazeres. Baseados nessa visão, os professores perceberam que a proposta central do projeto deveria estar alicerçada na formação do cidadão através de um dos mais expressivos elementos da cultura popular brasileira: o samba.

“Na nossa escola, o carnaval é apenas uma ferramenta estratégica para mostrar a esses meninos que, assim como na vida, numa escola de samba há regras e princípios que devem ser seguidos e cumpridos. A nossa intenção não é formar cantores, sambistas e ritmistas. Se isso ocorrer, ótimo. Porém, o nosso objetivo é educar e formar o cidadão, cumprir a nossa tarefa de alfabetizar, letrar e estimular neles (alunos) o desejo de prosseguir nos estudos”, alerta Romero.


Certo de que a construção do conhecimento se dá também além dos muros da escola, o diretor abriu as portas da Garcia D’Ávila para os moradores da região.“Num primeiro momento, começamos a realizar encontros, festas, debates, reuniões, programações esportivas e várias outras atividades que incentivassem os pais e familiares dos alunos a freqüentar a escola”, diz o diretor, relembrando que, no início, conscientizar os responsáveis acerca da importância da participação deles no dia-a-dia dos seus filhos, dentro do espaço escolar, não foi uma tarefa tão fácil.

. No princípio, conta o diretor, a aproximação deu-se de porta a porta. “Eu ia às casas para falar com a comunidade sobre os trabalhos que estavam sendo desenvolvidos na escola, convidava-os para as reuniões e avaliações pedagógicas, e, quando algum pai ou responsável não comparecia, eu voltava à residência deles e perguntava o motivo da ausência. Quase sempre, a resposta era a falta de tempo. Então, eu dizia: Qual o melhor dia e horário para o senhor? Hoje, a realidade é outra. Os pais se conscientizaram de que eles precisam ir à escola não só para acompanharem o desempenho dos seus filhos, mas também para se integrarem e fazerem parte da comunidade escolar”, explica.

Quatro anos depois, a mudança no cotidiano da escola já era perceptível. Contudo, ainda existia uma lacuna a ser preenchida entre os alunos, seus familiares e os cidadãos comuns da comunidade. Conhecedor da história do bairro e da sua ligação com o mundo do samba, o diretor Romero resolveu procurar a escola de samba mais próxima da Garcia D’Ávila, a Morro da Casa Verde, com o intuito de levar o samba para dentro da instituição, e, a partir daí, proporcionar uma total integração entre a escola e a comunidade.

“Após freqüentar os ensaios e acompanhar a construção do carnaval em todas as suas fases, decidimos abrir as portas da escola para a confecção de fantasias e adereços, além de ceder o espaço, sem que isso atrapalhasse os horários de aulas, para a realização dos ensaios, da eleição da rainha da bateria e muitas outras atividades”, afirma o diretor.

Na opinião dos professores, essas e outras ações como, por exemplo, a capacitação e atualização dos professores e funcionários da escola – sensibilizando-os para a real importância do envolvimento da comunidade escolar em todas as atividades ali realizadas – fizeram com que a instituição fosse vista com mais respeito diante da comunidade, e, sobretudo, perante os alunos. A partir desse processo, foi criado o projeto O mundo do conhecimento e o conhecimento do mundo, cujo subtema – carnaval – passou a fazer parte da grade curricular como uma atividade transversal.

Em 2000, na comemoração dos quinhentos anos do Brasil, alunos e professores de Língua Portuguesa, História, Música e outras disciplinas recriaram o enredo da escola de samba Morro da Casa Verde. "Nesse processo de reconstrução, trouxemos a presidente da escola, Dona Guga; a rainha de bateria; e outros membros da escola para debaterem com nossos docentes e discentes sobre a história do samba no bairro e sua imporância sociocultural no país e no mundo", recorda Waldir.

Na opinião da equipe pedagógica da Garcia D’Ávila, o samba e sua musicalidade têm interferido positivamente não só na auto-estima dos aprendizes, mas, inclusive, no desenvolvimento de habilidades cognitivas como atenção, raciocínio lógico, concentração, autocontrole, criatividade e memória. “Eles aprendem a dividir, a ter harmonia e ainda desenvolvem muitas outras habilidades”, ressaltam os professores Emersom Brasa (cavaquinista e compositor) e Nei Silva (cantor e compositor) da Unidos do Peruche.

Apesar de quase tudo terminar em samba na Garcia D’Ávila, outras atividades extracurriculares têm sido desenvolvidas paralelamente às aulas de educação física no horário escolar e também nos finais de semana, entre elas: basquete, futebol, teatro, capoeira, caratê e judô. “Todos gostam e valorizam a escola e sua relação com a comunidade. Hoje, somos um ponto de referência de toda a vida na região. Tudo passa pela Garcia D’Ávila, desde ações, organizações, eventos, debates, seminários, conferências até a montagem de uma das alas da Unidos do Peruche, cujas fantasias foram confeccionadas aqui mesmo, pelos alunos, pais e funcionários, num grande trabalho voluntário”, comemora o diretor Romero.

  Além da formação cidadã, trazer a família para junto da escola deu certo e gerou frutos não só para os alunos e amigos da região. É o caso de Dona Vânia, mãe de um dos alunos da escola, que participa do conselho e coordena a ala das crianças na Peruche; e dos ex-alunos Diogo e Tadeu, que hoje fazem parte da ala dos compositores.

Ao falar sobre os resultados alcançados, Romero garante que essa experiência é mais uma prova de que quanto mais a comunidade se ajusta à escola mais ela cresce, relata o diretor, destacando que, hoje, os alunos gostam de ir à escola, sentem orgulho em dizer que fazem parte do grupo escolar, sonham e acreditam numa vida melhor a partir dessa nova visão. “O que me deixa feliz e realizado é poder estar dentro de uma escola ótima, limpa, organizada, com um bom projeto e muito respeitada por todos”, completa o diretor Waldir Romero.




Escola Municipal de Ensino Fundamental Comandante Garcia D’Ávila
End.: Rua Armando Coelho Silva, 859 – Parque Peruche – São Paulo/SP.
CEP.: 02617-000
Diretor: Waldir Romero
Tel.: (11) 6239-8255 ou 6239-1197