Helena Antipoff, um dos grandes nomes que compõem a história da educação, influenciou a reforma do ensino, também conhecida como Reforma Francisco Campos Mário Casassanta, quando veio ao Brasil, em 1929, a convite do governo do Estado de Minas Gerais, ficando conhecida, mais adiante, pelas suas ações sociais, especiais, rurais e comunitárias.
Nascida em 1892, em Grodno, na Rússia, cursou o normal e, mais tarde, em Paris, fez o bacharelado em Ciências. Nessa época, a educadora se interessou por uma ciência nova e bem curiosa que estava começando a ser divulgada: a psicologia.
O interesse por essa nova área propiciou um estágio no Laboratório Binet-Simon, onde trabalhou com os primeiros experimentos que mediam a capacidade intelectual de crianças em idade escolar. Estes experimentos eram, até então, elaborados por Alfred Binet e Théodule Simon.
Obteve o diploma de Psicologia e o título de Especialista em Psicologia da Educação entre os anos de 1912 e 1916, em Genebra, no Institut des Sciences de I´Education Jean Jacques Rousseau.
A Escola experimental, anexa ao Institut Rousseau, também contou com Helena Antipoff, que estava sob orientação de Édouard Claparède para fazer parte do primeiro grupo de professores da Maison des Petis. O objetivo ali era elaborar e testar métodos educativos que acabavam resultando na proposta da Escola Ativa, a qual partia do princípio de que a escola deveria ser “sob medida” para o aluno e de que a aprendizagem, segundo Claparède, se dava pela resolução dos problemas.
Com base nessa premissa, Claparède lança, em 1920, o livro A Escola Sob Medida, que mais tarde, em 1959, foi traduzido para o Brasil. A obra tinha como finalidade proporcionar uma educação que fundamentasse seu ensino nas diferenças individuais dos alunos. No início do século XX, essa forma de trabalho científico, que se associava à resolução de problemas sociais, era muito comum na Europa. Com isso, a experiência da psicóloga e educadora Helena Antipoff marca a sua prática em Paris e Genebra.
Em 1916, a psicóloga retorna à Rússia – ocupada pelo exército alemão – em busca de seu pai, que havia sido atingido e ferido em combate na Primeira Grande Guerra. No ano seguinte, em 1917, presenciou a Revolução de Outubro, na qual trabalhou como psicóloga observadora nas estações médico-pedagógicas em Viatka e em São Petersburgo. Era sua incumbência elaborar o diagnóstico psicológico das crianças – que muitas vezes provinham das ruas e haviam perdido seus familiares na revolução ou na guerra – e preparar atividades de reeducação. Além disso, as crianças passavam por testes que mediam a inteligência e eram usados na França e na Suíça.
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Depois de submeter as crianças a esses testes, Helena Antipoff percebeu que, apesar de apresentarem graves déficits intelectuais, elas eram capazes de imaginar difíceis estratégias de sobrevivência em suas condições precárias nas ruas.
Suas pesquisas giravam em torno dos seguintes temas: inteligência de uma forma geral, meio social, vocabulário, escolaridade, personalidade, homogeneização das classes escolares, memória, aprendizagem, motricidade, entre outras questões. Essas investigações levaram a psicóloga a conceber o conceito de “Inteligência Civilizada”, em que considera, além das habilidades inatas e das intelectuais (adquiridas pelas crianças através da educação familiar), também a determinação social, econômica, cultural e pedagógica.

Com essa experiência, Helena propôs o Método da Experimentação Natural, criado, em Moscou, por Lazursky, que era professor da Universidade de Moscou e também psicólogo. Seria este, na concepção da psicóloga, o método mais adequado para a avaliação do cognitivo das crianças e dos adolescentes que ela vinha observando, já que o processo impedia as artificialidades dos testes de laboratório, propiciando, desta forma, a observação da criança na sua situação de vida real.
No artigo intitulado “A experimentação natural – método psicológico de A. Lazursky”, da autoria de Regina Campos (1992), Helena Antipoff (1992) relata o seguinte:
“Eu tinha sido convidada, com outros pedagogos, psicólogos e médicos, para estudar centenas de crianças abandonadas nos centros médico-pedagógicos de Petersburgo, durante os anos da grande fome (1921-1923), enfrentando uma tarefa das mais difícies. Era também a época das grandes epidemias de diversas espécies, e as crianças observavam o regime médico muito severo. Internadas em uma espécie de hospital, pobre e mal mobiliado, com poucos livros, escasso material de jogos e trabalho manual, fomos obrigados a observá-las nessas condições desfavoráveis, para decidir seu destino, segundo o caráter de cada uma, e encaminhá-las para as 150 instituições pedagógicas, médicas e jurídicas que possuíamos”.
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No ano de 1921, a psicóloga e educadora atuou ainda como colaboradora científica no Laboratório de Psicologia Experimental de Petersburgo, fundado por Netschaieff. Em 1924, deixou a Rússia, com a pretensão de visitar escolas para crianças excepcionais na Alemanha. No período de 1926 até 1928, estabeleceu sua residência em Genebra, onde atuou como assistente de Édouard Claparède, no Laboratório de Psicologia da Universidade de Genebra, e como professora de psicologia da criança, no Instituto Jean Jacques Rousseau.
Além de ter publicado numerosos artigos em periódicos especializados nesse tempo, a psicóloga também colaborou com Claparède em sua pesquisa que abordava os processos de pensamento inteligente, cujos resultados obtidos foram publicados no ano de 1933, com o título de “La Genèse de I´Hypothèse”. Nos textos, Claparède mostra um minucioso estudo dos processos de pensamento que resultam nas soluções dos problemas. Dessa forma, os próprios processos caracterizam o ato da inteligência. Nessa obra, Claparède mostra, com bastante precisão, a abordagem interacionista que, mais tarde, seria trabalhada por Piaget.
Em 1929, a psicóloga e educadora Helena Antipoff veio ao Brasil, a convite do Governo do Estado de Minas Gerais, onde foi recebida, no dia 6 de agosto de 1929, pelos psicólogos Lourenço Filho e Noemy Silveira, que vieram de São Paulo para recebê-la. Aproveitando a oportunidade, visitou a Escola Normal Modelo, na qual Lourenço Filho era responsável pela cadeira de Psicologia Educacional.
Após essa ocasião, a educadora seguiu para Belo Horizonte, para ocupar o cargo de professora-visitante por dois anos, na recém-criada Escola de Aperfeiçoamento, que foi pioneira, no Brasil, na experiência de implantação de instituição-modelo na formação de educadores no país.
Helena encontrou ali um ambiente propício para o seu trabalho de pesquisa e, a partir daí, contribuiu significativamente para a Educação do país.
Obs.: Na próxima edição, daremos continuidade à história dessa educadora, que tanto se empenhou para realizar um trabalho extraordinário na área educacional no Brasil e que, até hoje, continua contribuindo com a educação através de suas pesquisas, experiências e relatos.
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