Celso Antunes*

Quando o século XVII começou e, no Brasil, os holandeses tomavam conta da metade do norte do país, os colégios jesuítas já constituíam elemento familiar no panorama educacional europeu. Um século antes, seus méritos firmaram-se como modelo revolucionário de educação e, graças ao ambiente e comportamento de absoluto amadorismo pedagógico vigente (em que saber ensinar significava apenas usar a palmatória), espalharam-se por toda parte. Mas como era esse ensino? Qual era o pensamento educacional vigente? Eram essas escolas, de mais de quatrocentos anos atrás, tão diferentes das que se encontram quando se firma o século XXI?

Essas instituições ensinavam o latim bem polido — diferente do que era falado por pessoas das classes baixas —, exercitavam o raciocínio lógico-matemático por meio de consistentes e desafiadores problemas, mostravam curiosidades da Geografia — que, pouco a pouco, desvendava o restrito mundo — e, com o rótulo de “lições de óptica”, juntavam referências e descobertas da Física, Química e Biologia.

Além disso, os alunos eram muito bem-preparados em boas maneiras, respeito à Igreja e, na França, após a conversão de Henrique IV, em obediência à autoridade real. Também cultivavam, com entusiasmo, o preparo em artes dramáticas, e suas peças de fim de ano eram famosas e bastante procuradas. Esse respeitado lugar de ensino compreendia um curso ginasial para rapazes, um colégio de artes liberais e um seminário para estudos religiosos e estudos avançados de pós-graduação aos que já tivessem sido ordenados. Pensava-se que um ensino com tais características representava possibilidade de conservar a nobreza nas mãos dos que já a possuíam ou oportunidade de arrumar um emprego na corte ou em rentável espaço eclesiástico.

Ao se chegar aqui, percebe-se que, das três perguntas propostas no início do artigo, duas já foram respondidas. Falta a última, que envolve a comparação entre o ensino que temos hoje e o que naquele canto distante do passado se praticava. Será que existe realmente imensa diferença, como a que se nota, por exemplo, em uma comparação entre o que se sabe e o que se sabia sobre transportes ou ainda sobre o poder de certos remédios para a cura?

Parece que uma resposta sensata a essa questão envolve duas ponderações e, ao fazê-las, é possível concluir que, dependendo de como o professor pensa e organiza sua aula, ela pode ser quase igual à ministrada por um colega seu no ano de 1600 ou, ao contrário, pode ser, em tudo e por tudo, completamente diferente. Novas disciplinas e novos conteúdos em si mesmos não caracterizam grande diferença, assim como não existe diferença radical em se notar, de um lado, lousa, giz e professor em sua mesa e, de outro, caderno, lápis e aluno em sua carteira, pois esse cenário é quase igual nas duas épocas. O que pode realmente fazer diferença é a maneira como o professor pensa a aprendizagem.

Naqueles tempos, Piaget ainda não havia revolucionado o pensamento sobre educação, e supunha-se que o saber era algo que alguns conheciam e que ao professor cabia transmiti-lo. Piaget modificou o pensamento humano ao mostrar que o conhecimento não é uma coleção de “fatos ou saberes” que vem de fora ou se capta do meio; ao contrário, é um processo interativo de construção e reconstrução interiores. Pensando dessa maneira, professor algum pode transmiti-lo; mas somente intermediar o que o aluno pode construir e reconstruir. A monumental diferença entre a escola jesuítica de 1600 e a de hoje é que, atualmente, sabe-se que a função do professor não é fazer com que os educandos reproduzam o que o educador conhece; é ajudar na reconstituição pessoal e intransferível entre alunos e saberes. O papel do professor não é, pois, o de transmitir informações e, sim, o de fazer-se agente da significação que a elas os estudantes devem atribuir.

Se diferenças essenciais existem entre o professor de agora e o daqueles tempos, por certo deveria ser igual sua fé na educação. Não a fé no sentido de uma crença em um conjunto de postulados históricos e teológicos nem no sentido de uma vontade de ser salvo por méritos de outro, mas fé em educação entendida como confiança na certeza de que pelo ensino se transforma e por meio dele se ganham condições para a descoberta da beleza, da verdade, da ética e da bondade.
Respondidas as questões anteriores, fica, por ironia e sarcasmo, uma outra: será que todos os professores que pensam que ensinam pensam como ensinou a pensar Piaget?

*Celso Antunes é bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo, Especialista em Inteligência e Cognição, Mestre em Ciências Humanas, autor de mais de 180 livros e consultor de revistas especializadas em Ensino e Aprendizagem.
E-mail: celso@celsoantunes.com.br
Site: www.celsoantunes.com.br
Ilustração: Patricia Rocha