
Faculdade Comunitária oferecerá vagas para o curso de Letras
Por Cláudia Sanches
“Leia um livro e encontre-se consigo mesmo”. Essa frase impactante não é da autoria de um doutor em Letras, mas do ex-pedreiro Evando dos Santos, criador da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, localizada na Vila da Penha.
Desde que conheceu o mundo das letras através de um livro do jurista e escritor Tobias Barreto de Menezes, a luta pela leitura virou uma obsessão para esse nordestino, que está prestes a realizar seu maior sonho: ver funcionar a primeira faculdade comunitária do país e ter um espaço apropriado para abrigar cerca de 60 mil livros que estão acondicionados em sua casa, local que há nove anos funciona como biblioteca. Segundo Evando, a previsão é que as novas instalações da biblioteca e da Faculdade de Letras, um belo prédio em estilo modernista, desenhado pelo arquiteto Oscar Niemayer, fiquem prontas ainda este ano.
A Faculdade Comunitária Paulo Mercadante e Antonio Paim, como foi batizada, oferecerá 60 vagas para o Curso de Letras Machado de Assis. A idéia, explica Evando, é ensinar Língua Portuguesa para quem não tem condições de pagar uma faculdade particular ou cursar uma universidade pública. “A meta é formar multiplicadores de conhecimento. O aluno terá de estagiar no Programa de Lapidação de Intelecto e passar seus conhecimentos à população carente. Por exemplo, ele (o aluno) começará a lapidar o intelecto de uma lavadeira a partir de palavras que fazem parte do cotidiano dela, como água, sabão, lavar... Com isso, iremos ao encontro de uma das propostas da faculdade que é incluir os excluídos”, explica o fundador da biblioteca comunitária.
No programa do curso constam as disciplinas de Línguas Portuguesa, Inglesa, Francesa e o Quimbundo – dialeto angolano que deu origem a muitas palavras usadas no Brasil, como quitute e cafuné. Segundo Evando, para o futuro, a pretensão é estender o curso aos canteiros de obras e fábricas. “Já pensou nos operários aprendendo Língua Portuguesa no chão da fábrica?”, sonha.
Outra proposta é criar os Amigos da Biblioteca, com o objetivo de angariar fundos para a manutenção do projeto. De acordo com o ex-pedreiro, seu trabalho é um sucesso graças aos parceiros que encontrou ao longo da vida, como a professora Sônia Isoton, educadora e dona de uma escola tradicional na Vila da Penha: “Apóio essa causa porque acredito na transformação através da leitura”, diz a professora.
O corpo docente da faculdade será formado por professores aposentados e voluntários. O pesquisador da Cátedra de Leitura pela PUC-Rio, Érico Braga Leite, autor de uma tese de doutorado sobre Tobias Barreto, exercerá o cargo de reitor. Na coordenação, estarão os professores José Messias, Otto Villas Boas e outros educadores que já se ofereceram para trabalhar no curso.
Biblioteca ambulante
Quando montou a biblioteca, com os 50 livros encontrados para doação em uma obra na Penha, Evando dos Santos nunca imaginou que o projeto fosse tomar esse rumo, mas a idéia original não mudou. Hoje, Evando não esconde o orgulho de seu acervo de livros raros, como Negrinha, de Monteiro Lobato, edição de 1818; Questões Vigentes, de Tobias Barreto, edição de 1884; Isaías Caminha, de Lima Barreto, edição de 1917; e várias outras.
Para fazer um empréstimo de livro na biblioteca comunitária, os interessados não passam por nenhuma burocracia. Os leitores entram, pegam o livro e saem sem assinar nenhum papel e sem prazo de devolução. Segundo ele, há todo tipo de leitor: aquele que traz o livro assim que termina de ler; o que entrega o livro somente três anos depois; e aquele que não devolve nunca. “Quando o livro não volta, é motivo de festa. A intenção é fazer com que as obras circulem”, revela.
Além de ter projetos como o Correio Literário, que entrega o livro em domicílio, Evando tem outras propostas que movimentam o acervo como a Caixinha da Leitura – livros infantis selecionados para circularem nas ruas, escolas e residências –; e a leitura itinerante feita em asilos e outras instituições filantrópicas. Nesses nove anos de prestação de serviços, a biblioteca já doou mais de 42 mil livros, ajudando a montar cerca de 25 salas de leitura em todo o Brasil, entre elas a do Instituto Philippe Pinel, que recebeu 270 títulos.
Dos livros para as telas

Num final de semana ensolarado, fantasiado de livro e acompanhado de vários professores, Evando e sua trupe transformaram a Avenida Atlântica num ponto literário, durante a I Caminhada Literária, que aconteceu na zona sul do Rio. Durante o trajeto, do Copacabana Palace até a estátua de Carlos Drummond de Andrade, no Posto Seis, mais de 200 livros foram distribuídos. “Foi um sucesso. Essa é uma experiência transformadora. O brasileiro gosta de ler, o que falta é estímulo”, conclui o ex-pedreiro que serviu de fonte de inspiração para a criação do personagem principal do filme O Homem-Livro, de Anna Azevedo, ganhador do prêmio de melhor direção e produção no Festival de Brasília.
Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes
End.: Rua Engenheiro Augusto Bernachi, 130 – Vila da Penha – Rio de Janeiro/RJ.
CEP.: 21235-720
Tel: (21) 2481-5336