Não faltou talento e criatividade na confecção dos trabalhos manuais
Lucivaldo Dias, professor de geografia; Rosa Maria, coordenadora pedagógica; e a diretora Celita Machado debatem sobre o tema proposto
Diversidade cultural. Além do teatro e da música, outras características da cultura negra foram apresentadas no evento
A comunidade escolar participou ativamente de todos os temas propostos no simpósio

Comunidade escolar discute o preconceito racial e suas adversidades

Por Wellison Magalhães

No período do descobrimento, os negros eram trazidos ao Brasil apenas para trabalho escravo. Com o passar do tempo, a conquista da tão sonhada liberdade, alcançada com a proclamação da Lei Áurea, mostrou-se, na verdade, um jogo de interesses de poderosos europeus, que desejavam ampliar o número de consumidores de seus produtos. Hoje, os negros continuam sendo alvo das atenções, entretanto, por um outro ângulo. Dessa vez, por afiançarem suas posições firmes contra o racismo e, ainda, por estarem ocupando, pouco a pouco, lugares cada vez mais honrosos na sociedade.
Este pensamento tomou conta da Escola Municipal Santa Cruz, em Belford Roxo, no Primeiro Simpósio sobre Racismo, realizado na semana de comemoração da consciência negra, sob a liderança do professor Lucivaldo Dias, que conseguiu o apoio de alunos da Escola Estadual Rudá Iguatemi e do Colégio Estadual Nova Aurora. “Na verdade, passamos três meses preparando este encontro. Não foram apenas ensaios, foram debates em sala de aula que fizemos freqüentemente. Eles (os alunos) chegam aqui já sabendo o que estão falando e o que estão discutindo”, disse o professor, apoiado por outros docentes da Escola Santa Cruz, principalmente os das disciplinas de História e Geografia.
O evento, que faz parte da luta que vem se travando para ampliar a consciência negra entre a comunidade escolar, contou com a participação de mais de 400 estudantes. O tema racismo tem sido recorrente, não apenas na escola Santa Cruz, mas em todos os estabelecimentos de ensino da rede municipal. A idéia da Secretaria de Educação, responsável pela disseminação do projeto em todas as escolas da cidade, é promover debates, simpósios, seminários e outros programas que ajudem os educandos a expandir a discussão do negro na sociedade e, sobretudo, fazer valer a Lei Federal 10.639, que exige o ensino sobre a cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de educação.
A idéia deste encontro foi muita bem recebida pelo corpo docente e pela própria direção da instituição. A diretora Celita Machado Botelho tem dado total apoio à realização de encontros como esse. “Acho importante trabalhar as diferenças. Elas existem e precisam ser denunciadas. Precisamos estar engajados para impedir que preguem o racismo”, afirmou Celita.
O Seminário na Escola Santa Cruz foi bastante concorrido, além dos seus alunos, cerca de 400 estudantes, de 5.ª a 8.ª série, de outras duas escolas também participaram do evento. “Eles trouxeram cartazes, faixas e vários materiais a fim de promover o debate. Os títulos dos trabalhos foram bem variados: A Origem dos Negros; Racismo, Isso Existe?; Somos Todos Iguais; Herança Negra etc.
Durante as rodas de discussão, era perceptível o entendimento dos estudantes em relação aos objetivos do seminário. Segundo Karen Loamy, aluna da 8.ª série da Escola Estadual Rudá Iguatemi, “um evento como este coloca a idéia de racismo mais claramente. Para mim, ajuda. Eu participei apresentando trabalhos”, afirmou. Opinião parecida e surpreendente veio do aluno Breno Lucas, da 5.ª série, que, como negro, entendia exatamente o valor de um encontro como este. “Eu estou gostando muito. Ele serve para que aqueles que são negros deixem de sofrer preconceitos, coisa que acontece até nas brincadeiras”, discursou, convicto. Já a aluna Ingrid Correia, da 8.ª série, defendeu a tese de que negros e brancos não possuem diferenças, nem mesmo na formação genética, pois o que promove a pigmentação diferenciada é a quantidade de melanina no organismo de cada pessoa. Outro aluno sustentou a idéia de que negros não são mais fortes e brancos mais inteligentes, garantindo que esse conceito apenas distorce a realidade, já que todos são iguais.
No fim do seminário, os alunos das três escolas apresentaram uma peça, cujo enredo era a escolha da modelo mais bonita, sendo que, entre as concorrentes, havia uma negra que, ao se apresentar, foi rejeitada pela produtora do evento. No final, a modelo negra vence o concurso, mas a apresentadora lê o nome de uma outra concorrente de cor branca. Entretanto, uma pessoa surge e desmascara a preconceituosa apresentadora, afirmando que a vencedora foi a candidata negra. Por fim, tendo que se render à realidade, o prêmio é entregue à modelo vitoriosa. Contudo, a cena emblemática da peça, lembra o professor Lucivaldo Dias, é exatamente o momento da entrega do prêmio, quando, ao ser abraçada e beijada, a negra não percebe que a pessoa que o faz limpa a boca, caracterizando o preconceito pela cor.
A aluna Yguaraciara da Silva, 14 anos, que interpretou a modelo negra, disse estar satisfeita com o resultado da peça. “Foi bom ter participado. Todos os dias acontecem fatos que são considerados preconceituosos”, expressou a estudante. Além do corpo docente e discente, alguns pais também prestigiaram o evento. Viveca Alvarenga, mãe da aluna Ingrid Alvarenga, estava segura do valor de tudo que aconteceu na Escola Santa Cruz. “É importante para que as pessoas tenham mais consciência sobre a discriminação racial, principalmente os jovens”.
Ao final, o professor Lucivaldo Dias mostrava-se satisfeito com o resultado. Para ele, que é negro, realizar encontros como este traz consciência não apenas para os alunos, mas para professores, pais e, conseqüentemente, toda a sociedade.


Escola Municipal Santa Cruz
Endereço: Avenida Nova Aurora, 575 – Belford Roxo/RJ.
Professor responsável: Lucivaldo Dias da Silva
Tel.: (21) 2660-0329
Fotos: Claudemiro Pereira